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Analfabetos de mundo

Caro Paulo,

Educação
sempre me lembrou criança. Mas hoje educação me
lembra adulto. Não adulto que não teve acesso à
educação. Mas adulto letrado,
formado, com emprego, prestígio e responsabilidade. Pessoas que sabem ler e
escrever, mas que estão se sentindo tão perdidas neste
mundo como um analfabeto que não consegue ler as placas das
ruas e dos lugares para se localizar e decidir como vai chegar ao seu
destino. São pessoas que
quanto mais lêem jornal menos entendem o que está
acontecendo e para onde o mundo está indo. Pessoas que foram
educadas para um mundo previsível, organi­zado e estável
como um relógio de qualidade e que, de repente, se encontram
num mundo imprevisível, instável e mutante como um
organismo vivo, sensível e criativo. Isto é, quanto
mais informação têm, mais confusos ficam, porque
seu modelo mental está datado.

Um exemplo prosaico são
aqueles que buscam identificar tendências para fazer planos e
tomar decisões. Se você der uma busca em “trends” no
Google, vão aparecer mais de 200 milhões de páginas;
se teclar “trends fashion”, são 37 milhões; “trends
sex”, são mais de 35 milhões e por aí vai.
Quer dizer, imaginando que só 2,5% de 20 milhões
te­nham algum conteúdo, mesmo assim, quem tem 500 mil
páginas de tendências em algum tema está tão
perdido quanto quem não tem nenhuma. E, para piorar bastante,
além do volume de informação tem a velocidade
com que elas mudam e se atualizam. Ou seja, é impossível
acompanhar e fotografar um cenário sem correr o risco de ele
ficar ultrapassado no minuto seguinte.

Não fomos
educados para esse mundo caótico. Por isso tem muita gente
sofrendo, tensa, insegura, perdida e ainda tendo que fazer pose de
que está tudo bem, que está tudo sob controle. Projete essa tensão
com esse faz-de-conta para o resto da sociedade, some aos problemas
que já existiam e você vai entender esse clima de medo,
doença e violência espalhado por aí. Precisamos ensinar a
teoria do caos para os nossos adultos entenderem o mundo atual e para
que eles possam educar nossos jovens e nossas crianças a
viverem felizes numa sociedade viva, auto-organizável, com
muito menos controle e previsibilidade do que jamais imaginamos.

Dee Hock, criador da
VISA, uma rede global que funciona como um sistema vivo,
escreveu um livro sobre seu sucesso e o batizou de O Nascimento da Era
Caórdica
, uma era na qual temos que aprender a viver numa
interseção de caos e ordem, daí o nome caórdica.
Para compensar a má notícia do sossego que estamos
perdendo, vou reproduzir aqui a visão do Dee Hock sobre a
transição que estamos vivendo.

“Estamos num ponto do
tempo em que uma era de 400 anos está morrendo e outra está
lutando para nascer – uma mudança de cultura, ciência,
sociedade e instituições muito maior do que qualquer
outra que o mundo já tenha experimentado. Temos à
frente a possibilidade de regeneração da
individualidade, da liberdade, da comunidade e da ética como o
mundo nunca conheceu, e de uma harmonia com a natureza, com os outros
e com a inteligência divina como o mundo jamais sonhou.”

Eu concordo com cada
vírgula. E agradeço a Valéria Grossmann por ter
me ajudado na minha reeducação me presenteando com o
Dee Hock. Se a gente não
reeducar os adultos para essa transição, periga de não
ter mundo nenhum para nenhuma criança, com ou sem educação.

Meu abraço cheio
de esperança para você e um beijo carinhoso para Júlia.

Ricardo.

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