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Amor: verba intransitiva

 O nome dela é Salomé. Ela tem 22 anos, é portadora de uma bunda nababesca e um par de peitos estonteantes — poderia perfeitamente ser a Trip Girl, se houvesse uma edição zambiana da nossa revista. Mora sozinha num barraco sem janelas, sem água corrente e sem eletricidade em Missis, uma favela fétida de Lusaka, capital da Zâmbia. Ela cobra dez dólares por um boquete e 20 por uma foda completa. Sem camisinha, o preço sobe para 30. Salome é a única sobrevivente de uma família inteira dizimada pela Aids. Há alguns meses ela fez o exame para saber se estava infectada, mas nunca teve coragem de buscar o resultado.

 

Deixei claro que eu não queria sexo e, por 500 dólares semanais, consegui conquistar a sua amizade. Ela foi o meu guia pelos bares e prostíbulos da Zâmbia, onde eu estou fazendo uma pesquisa sobre amor e ódio entre ricos e pobres. Estávamos almoçando quando eu perguntei para a Salomé se ela já tinha se apaixonado. Ela me olhou com olhos gélidos, sorriu amargamente e disse, entre uma mordida e outra numa coxa de frango: “Eu vejo as pessoas se apaixonando nas novelas, eu vejo casaizinhos brancos bem vestidos andando pelas ruas de Lusaka de mãos dadas, eu ouço canções românticas no rádio e acho tudo muito lindo. Mas esse negócio de amor é coisa só pra rico. Pobre, que passa fome, que mora em favela e que não pode pagar dentista quando tem dor de dente, nem sabe o que é amor. Pensa só em sobreviver”.

 

Fiquei alguns instantes absorvendo suas palavras.

Fiquei parado, olhando para ela sem conseguir engolir a comida, querendo continuar a entrevista mas sem imaginação para pensar na próxima pergunta. Indiferente, ela terminou a coxa do frango e começou a comer a asa. Aos poucos percebi que o que ela acabara de me dizer era muito profundo e revelador. Percebi que foi para ouvir isso que vim até a África.

 

Amor, no sentido de uma relação romântica entre dois seres humanos, é um conceito universal, inerente a todos, ou uma mera construção cultural? Pão vale mais do que beijo? O quanto mais ou menos? E o tesão? Tesão é mais pão, mais beijo ou só uma confusão a mais? Na extrema miséria de Auschwitz, as pessoas não se apaixonavam? Onde existe mais verdade – em O Capital, de Karl Marx, ou no Romeu e Julieta, de William Shakespeare?

 

Minha pesquisa deveria ter gerado resultados, dados e conclusões. Mas, longe disso, este encontro com a Salomé deu mais um, entre tantos nós na minha cabeça. Se é verdadeira a equação menos dinheiro, menos amor, o Bill Gates deve ser o homem mais romântico do mundo, muito mais romântico do que o Roberto Carlos.

ilustração de stephan doitschinoff reproduzida do livro Palavra Cigana – seis contos nômades, de Florencia Ferrari (Coleção Mitos do Mundo, CosacNaify, 2005)

 

*Henrique Goldman, 44, cineasta, sempre teve saldo suficiente para se apaixonar. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br

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