No último domingo, o JT trouxe ampla reportagem sobre a desativação do Complexo Penitenciário do Carandiru. Os prédios gigantescos serão demolidos logo após a transferência total dos presos do local.
Entre os dois momentos, porém, haverá um hiato de 20 dias, nos quais os pavilhões serão abertos a quem tiver interesse, curiosidade e coragem para entrar em contato com suas paredes impregnadas de sofrimento, sangue ruim, maldade, esperança, fé, sacanagem, ódio e amor.
Não tenho dúvidas de que muita gente irá até lá. Mas, como não poderia deixar de ser, assim como os jornalistas, visitantes e até mesmo funcionários, jamais conseguirão sentir ou relatar o que foi a real da vida do lado de dentro do inferno.
Luiz Mendes tem 49 anos e está há 29 no Carandiru. Lá, conseguiu estudar e escrever um interessante livro, publicado pela Cia. das Letras (‘Sobrevivente do Inferno’), que nos motivou a torná-lo colunista da ‘Trip’. Sonha em se tornar escritor ou cronista de jornal, mas hoje tem algo mais urgente com que se preocupar. Sua transferência para algum outro presídio em algum lugar do Brasil.
Um dia de visitas íntimas
Reproduzo abaixo seu relato sobre um dia de ‘visitas íntimas’, para quem se interessar em aprofundar as tentativas de entender como é, de verdade, a vida na cadeia:
‘Acordei já eram cinco horas da manhã. Pensei na rotina da prisão e todo meu ser estremeceu. Mas não! Era domingo, dia de visitações. O meu amor viria visitar-me. Meu rosto se alargou em um sorriso. Lembrei de um pensamento de Saint-Éxupery: ‘Se vens às quatro, às três já serei feliz.’ Dores e tristezas foram deletadas e a alegria, como avezinha, fez ninho em meu coração.
Levantei da cama disposto, colocando tudo para cima, de modo a facilitar a faxina. Fervi água, sabão em pó e detergente. Esfreguei paredes e chão com todo vigor. Joguei muita água para tirar espuma e sujeira. Sequei tudo com pano de algodão nas mãos. Encerei, passei palha de aço e lustrei até espelhar, com pedaço de cobertor.
Suadão, fui ao banho, daqueles minuciosos. Fiz a barba no maior capricho; loção, hidratante e o indefectível desodorante Quasar, presente dela. Arrumei a cama com lençóis que guardo só para ela. Vesti roupas limpas, passadas, sapatos de camurça, meias e cuecas novas. Penteei os cabelos com gel; pronto, estava limpo e bem vestido, me achei bonitão.
Amor bandido
Desci para o portão da entrada de visitantes. Fiquei ali, esperando, ansioso, nervoso. Cada visitante que entrava abalava meu coração. Então, ela chegou. Linda, sorrindo para mim todo o seu amor. Saia preta, blusa vermelha, salto alto. Cabelo escovado, rosto iluminado pelos olhos acesos de amor.
Abracei-a apaixonado. Meu desejo era retê-la em mim para sempre. Beijei-a de leve, não gostávamos de chamar atenção. Um ‘oi, tudo bem?’ A que respondi um ‘tudo’. A emoção supria palavras. Abraçados, imersos em nós mesmos, subimos os andares’.