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Alguém relincha nas artes plásticas

Por Daniel Salles

Não se espante ao entrar numa das
salas do Instituto Tomie Ohtake: você vai dar de cara com três burros
(sim, os animais!) com caixas de som no lombo, circulando entre um
monte de feno, sal e seis barris de água. Em cartaz a partir do dia 20,
a instalação faz parte da nova exposição do artista plástico paulistano
Nuno Ramos, que também traz séries de pinturas, desenhos, esculturas e
outras tantas caixas de som – que transmitem textos dele, lidos por
atores.

Façanha
nada desprezível essa, ainda mais quando se pensa nas dificuldades
sofridas pelo meio artístico brasileiro. Mas, com três Bienais de São
Paulo e uma de Veneza nas costas, Nuno é um artista que não costuma dar
com, me desculpem o trocadilho, os burros n’água quando planeja um novo
trabalho. Basta lembrar que dois anos atrás fez chover no vão livre do
Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, na mostra “Morte das
Casas”, título emprestado do pungente poema “Morte das Casas de Ouro
Preto”, de Drummond.

“A
idéia dos burros surgiu como uma forma de circular os textos falados
que saem das caixas”, conta o artista, deixando claro que não se trata
de uma crítica aos marchands nem de uma forma de dizer que a arte
brasileira está empacada. “Pelo amor de Deus, tudo que eu não quero é
questionar o museu.” Curiosidade natural, nesta 35o mostra do artista – realizada em seu 45o
ano de vida –, é saber como funciona o dia-a-dia dos atores, ou melhor,
dos animais (alugados no Paraná), que na verdade são seis: enquanto um
trio respira o gelado ar-condicionado das artes de terça a quinta, o
resto do grupo descansa à luz do sol em um pátio no Morumbi. De sexta a
domingo ocorre o inverso. Para questões corriqueiras e menos artísticas
– mesmo para um local que já abrigou o famoso urinol de Marcel Duchamp
– há sempre um sujeito asseando o local. O público não circula nessa
sala, mas tem trânsito livre nas demais.

Nuno pertence à
geração de Fábio Miguez e Paulo Monteiro, entre outros artistas que,
nos anos 80, fundaram a Casa 7. O grupo ajudou a resgatar a importância
da pintura num momento em que os artistas queriam fazer coisas como
levar animais a museus. Mas Nuno também pincelou em outras áreas – é
escritor com dois livros publicados, cineasta e compositor bissexto.
“Mas não tão bissexto assim”, corrige ele, que aponta a atual exposição
como uma junção de seu universo literário com as artes plásticas. O
nome do núcleo que abriga os burros, “Vai-Vai”, por exemplo, evoca os primeiros versos de “Se todos fossem iguais a você”, de Tom e Vinicius.

Vai lá
O quê:
Nuno Ramos
Quando: terça a domingo, das 11 h às 20 h. Até 2 de abril. A partir de 20 de fevereiro
Onde: Instituto Tomie Ohtake (avenida Faria Lima, 201, Pinheiros, tel.: 2245-1900, São Paulo)
Quanto: grátis

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