ilustração Marcelo Garcia
A Sony, fabricante do Playstation, proprietária da Columbia Pictures e da MGM, aprovou no mês passado a patente de uma tecnologia que pode significar uma revolução na esfera da comunicação de massas. A maior desde Gutemberg. Talvez a maior desde as tábuas dos Dez Mandamentos.
Não é, realmente, pouca coisa. A técnica desenvolvida por Thomas Dawson, pesquisador da empresa japonesa, pretende lançar pulsos ultra-sônicos diretamente ao cérebro humano, no sentido de induzir sensações sonoras, cheiros e imagens.
Assim, filmes, videogames, programas de TV ou páginas de revista seriam captados diretamente pela nossa emissora mental e projetados na tela da nossa consciência, de ilimitadas polegadas. Resumindo: esta coluna poderia ser lançada diretamente para dentro da sua cabeça. Ilustrada. Perfumada.
Os monitores eletrônicos ou as páginas de papel se transformariam em intermediários obsoletos. Nenhuma surpresa. Intermediários eles sempre foram. A palavra ?tela? tem origem numa cerca de metal que os exércitos usavam na Idade Média. ?Screen? e ?écran? têm a mesma raiz de ?escudo?.
Tela é aquilo que protege, separa. Talvez tenha sido necessária durante um período histórico em que nós, filhos de Moisés, não conseguimos encarar diretamente a face poderosa de um novo deus no nosso panteão. Com a nova técnica da Sony, as coisas podem mudar. A Globo e você, a mídia e você, poderão realmente ter tudo a ver.
Caetano e Agnaldo Timóteo
Não vou me estender nas minhas paranóias orwelianas ou debordianas. Eu bem que adoraria entrar nesse paraíso artificial da Sony. Tecnologia é tecnologia. Técnica não tem vontade própria. A tecnologia eficiente de um prego pode ser usada para construir uma casa ou crucificar um profeta. O que realmente me interessa é o fato de que o futuro da mídia lança uma luz esclarecedora sobre seu presente. A idéia daquilo que a comunicação eletrônica virá a ser ilumina o que ela já é. Parte do nosso cérebro. Canal da nossa consciência. É dentro e não fora da nossa cabeça que já circulam a cafonice da revista Caras e a beleza de um clipe do Michel Gondry. A genialidade do Pedro Cardoso e a boçalidade do João Kleber. O Caetano Veloso e o Agnaldo Timóteo.
O pesquisador da Sony diz que um ?pulso ultra-sônico ritmado enviado ao cérebro altera o timing neural? para produzir as sensações. É algo que já se intui. Quem passa horas em frente a um monitor de computador sabe que, on-line, nossa percepção temporal já é completamente outra. E quem sai para um passeio no parque sabe que a visão das coisas, o desfrute da vida, pode ser totalmente modificada por um simples toque na tecla off do celular. O mundo muda.
Pelas mãos da Sony ou de outras empresas, é certo que todas as formas de telecomunicação tendem a convergir para uma região do nosso córtex. Isso vai acontecer fisicamente. Virtualmente já acontece. A onipresença da esfera eletrônica já baliza nossa visão do mundo. A mídia já é parte do nosso organismo.
Antes os estados de consciência de um homem podiam ser divididos em termos opostos como ?dormindo? ou ?acordado?, ?vendo? ou ?imaginando?. Agora, ninguém nem precisa esperar novas tecnologias para acrescentar, sem medo algum, outra dicotomia que define nossa relação com a nossa vida: ?ligado? ou ?desligado?.
*Carlos Nader, 40, videoartista, está sempre ligado. Seu e-mail é: carlos_nader@hotmail.com
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