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Acorde para a vida

Caro Paulo,
Estou assustado com o processo de insensibilização que estamos vivendo.
Outro dia, indo para o escritório logo cedo, parei no sinal da Cap. Antônio Rosa com a Rebouças e me surpreendi de repente com uma amplidão, uma luminosidade estranha na rua. Olhei em volta e vi muito mais céu do que estava acostumado: tinham removido as placas de outdoor! Senti um misto de alegria e preocupação. Alegria por ter recuperado a paisagem; preocupação, por não ter percebido o quanto estava ruim!
Eu me senti como a rã que, dentro de uma panela aquecida por fogo lento, não salta fora e morre cozida. Tive a nítida sensação de que nossa sensibilidade está sendo cozida em fogo lento. Nosso sentido estético e nossa consciência sobre o direito ao céu, ao sol e ao horizonte estão sendo embotados aos poucos.
Na volta para o almoço, parei na esquina da Joaquim Antunes com a Rebouças. O choque foi maior. No lugar dos outdoors sempre novos, agora se vê uma velha casa caindo aos pedaços, totalmente deteriorada, retrato da decadência. Fiquei uns cinco minutos parado lembrando de não ter visto a casa envelhecer. Viajei na sua história e adorei seu visual.
De alguma forma, me senti vivo, ligado, pertencendo a um lugar do qual aquela casa fazia parte. Gostei mais de morar em São Paulo, do meu bairro, do meu caminho. De alguma forma a deterioração daquela casa me era mais confortável e gostosa do que a permanente novidade quinzenal dos outdoors. Meus olhos percorreram a perspectiva torta dos telhados, as telhas quebradas e corridas fora do lugar, as fendas nas paredes, as janelas despencadas – tudo tinha sabor de verdade.

Este lado para cima
Estava curtindo a emoção calma e quente de se ter história quando fui acordado pelas buzinas dos carros que nervosa e impacientemente queriam que o trânsito andasse. Não gostei de voltar àquela realidade, principalmente porque vi de novo o quanto estamos, inconscientemente, perdendo contato com o real prazer da vida real.
Não tenho assinatura contra outdoor, que, às vezes, até enfeita a cidade. Mas foi a retirada do outdoor do meu caminho que me mostrou meu embotamento e que me chamou a atenção para a possibilidade de estarmos criando um ambiente que cultiva a alienação dos sentidos e a perda das referências básicas de conforto pessoal no cotidiano.
Sem saber de fato do que necessitamos – porque perdemos contato com nossas carências -, passamos a viver num mundo de personagens insatisfeitos, prontos para sair por aí brigando por qualquer buzina, qualquer vaga de estacionamento, como se aquilo fosse dar ou tirar o sentido da vida.
Paulo, me desculpa se estou pegando pesado com a insensibilização do povo, mas estou me sentindo pessoalmente contaminado por essa doença. Deixa eu me recuperar para voltar com melhor estado de espírito. Segura essa.
Abraço do amigo,
Ricardo.

*Ricardo Guimarães, 54, é presidente da Guimarães Profissionais e, apesar de ter os pés no chão, vive olhando para o alto. Seu e-mail é: ricardo@guimaraes.com.br

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