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Abaixo de zero

Por João Talocchi, de Resolute Bay

Pela janela do avião tudo que se vê são umas casinhas em meio à hipnótica mistura de gelo, neve e pedras. Do alto, o povoado inuit (nem pense em chamá-los de esquimós, eles ficam loucos – significa “comedor de carne crua”) não difere muito de um vilarejo comum. Para quem es­pera ver autênticos iglus decepciona constatar que as carismáticas ocas de gelo estão com os dias contados. “Hoje iglu é coisa para tu­rista ver”, atesta Sasa Samson Simeonie, único dos guias que ainda sabia como construir um. “Com as condições corretas, meu avô cons­truía um para duas ou três pessoas em uma hora. A gente arma uma barraca em 15 minutos sem nem precisar fazer força.“

Pá, serrote e faca à mão, Samson se pôs a levantar a casa de gelo. Enquanto forçava o calcanhar das suas botas contra a neve, explicava: “Se a neve for mole, as paredes caem. Dura demais, elas racham”. Exa­tamente o que aconteceu com o nosso. Depois de
suar muito com o serrote para tirar os blocos de neve do chão e empilhá-los da maneira correta, nosso quase iglu veio abaixo. Só restou um murinho de gelo – e um lamento. “Nos acampamentos
de inverno, os inuits viviam em iglus”, lembra Samson. “Vários eram ligados por túneis, parecia uma cidadezinha. Se tinha comida lá
dentro, ninguém saía pra nada. Meu avô me ensinou as técnicas há muito tempo…”As cidades começaram a aparecer no Ártico na década de 40, quando o governo do Canadá demarcou território na região e for­ne­ceu hospitais, casas e escolas para o povo inuit. Assentar uma cul­tura nômade e caçadora de 4 mil anos é um desafio. Maior ainda é mantê-la viva. A cada ano, 79 em cada 100 mil inuits cometem suicídio, um dos três maiores índices do mundo. “Antes dos assentamentos, as esta­ções regiam nossas vidas”, conta. “Havia acampamentos de inverno e verão, para os quais retornávamos por vários anos. Assim obtínhamos os recursos que a natureza nos oferecia nas épocas e locais onde eram mais abundantes. Nas cidades, às vezes só tem foca pra caçar.”

Resolute Bay, segunda comunidade mais ao norte no Ártico cana­dense, surgiu quando a caça diminuiu em outros lugares. Nas ruas, snowmobiles dividem o espaço com as bicicletas das crianças, paco­tinhos de roupa que gargalham tentando manobras impossíveis no chão coberto de gelo. Não existem estradas por aqui e a maioria dos suprimentos chega de navio no verão, quando a água do mar está líquida. Pelo resto do ano, todo o alimento e combustível, inclusive o que gera calor e energia elétrica para as casas de madeira, vêm do estoque. Os inuits tentam preservar sua cultura. O inuktituk ainda é a língua mais falada. Nos feriados escolares, as famílias saem para caçar, pescar e acampar no gelo – contudo, em vez de dormir em iglus, todos preferem as paredes que não derretem das barracas de armar.

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