Estou em Londres e hoje à noite o Brasil joga contra a Croácia no seu primeiro jogo da Copa. Quando esta coluna for publicada, a Copa do Mundo já vai ser uma memória, parte da história do universo que para mim e para todas as torcidas de todos os flamengos se subdivide em ciclos de quatro anos.
Nasci em 1961 e tecnicamente minha primeira Copa teria sido a de 1966. Mas eu não tenho nenhuma memória daquela tragédia nacional. Tinha quatro anos e foi só depois, ao longo do tempo, que reconstruí, como um arqueólogo sem nenhum critério científico, um retrato daquele tempo. Este meu paleolítico privado é rigorosamente em preto-e-branco, tem cheiro do laquê do penteado da minha mãe e é muito melancólico – até mesmo triste – como a canção “Dio Come Ti Amo”, da cantora italiana Gigliolla Cinquetti, que tocava no rádio. A minha composição mnemônico-sensorial sempre associou o Garrincha ao meu pai, como se eles tivessem sido amigos íntimos. Sei lá por que, os imagino no Simca Chambord do meu tio Gregório que era argentino e, sei lá por que, os vejo na rua Quintino Bocaiúva ou na praça Clovis, comendo um bauru e tomando um São Rafael num centro de São Paulo que não existe mais.
Quadrado mágico
Em 1970 eu, o Pelé, o Jairzinho, o presidente Médici e o resto do Brasil éramos totalmente deuses. 1974 foi a Copa de todas as punhetas e 1978 o campeonato do chá de cogumelo em Visconde de Mauá. Em 1982 eu já tinha parado de gostar de Pink Floyd e fui ser sorveteiro em Nova York. Em 1990 eu estava em Roma tentando fazer de conta que era um bom rapaz mas não colou com ninguém.
O arco de tempo da minha vida até hoje inclui dez Copas do Mundo. Vencemos muito e fomos muito derrotados. Esqueci muito do que vi mas por outro lado lembro de coisas só imaginadas. Sou puta véia e sei que no futuro quando pensar a respeito deste hoje de agora vou imaginar um outro tempo.
*Henrique Goldman, 44, cineasta, chamava Garrincha de tio. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.brilustração vitché
