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A última canoa

Minha dúvida que fica, como na história do fim da Ilha de Páscoa, é se todo mundo ficou até o fim ou se teve gente que, enquanto ainda tinha canoa, remou para bem longe

POR ANDRÉ CARAMURU AUBERT*

Estava discutindo o tema desta Trip, Viagem, com a Clélia, minha mulher, e ela lembrou da história da última canoa. Do ponto de vista da nossa civilização, o maior erro dos habitantes originais da Ilha de Páscoa não foi exaurir a ilha até que ela nada mais pudesse dar a eles; foi não deixar sobrar o material para fazer a última canoa. A história é bem conhecida: a Ilha de Páscoa, o pedaço de terra mais remoto do mundo, hospedou uma sofisticada sociedade polinésia, que torrou todos os recursos naturais da ilha em uma série de atividades, a mais notória tendo sido a construção dos moais, aquelas grandes cabeças de pedra que até hoje intrigam os turistas. No fim, não havia mais árvores, pássaros e animais, o solo estava estéril e nem mesmo pescar eles conseguiam. A fome e o desespero os levaram à prática do canibalismo e a guerras intermináveis, até quase a extinção de toda a população. E, como tinham literalmente torrado tudo, não sobrou árvore nem mesmo para construir uma canoa e fugir da ilha. Quando os primeiros exploradores europeus chegaram lá, por volta de 1770, encontraram algumas centenas de nativos primitivos, e não puderam entender quem construíra aquelas cabeças de pedra.

Pois é: quem está construindo cabeças de pedra, agora, por todo o planeta, somos nós.

SPACEX
Estamos colecionando últimas canoas há tempos. Os paulistas que se aventuravam sertão adentro, no século 18, o faziam pelo rio Tietê em frotas de canoas feitas de uma única árvore – tão grandes que levavam bois, porcos, cargas diversas e até 30 pessoas. A posterior decadência da navegação pelo Tietê se deveu ao fato de que essas árvores, obviamente, acabaram. Também de troncos únicos eram as canoas em que, por volta de 1500, os tupinambás do atual litoral paulista e carioca levavam até 150 guerreiros. No sul da Bahia, há 20 anos, viajei na Onça (pilotada por um maluco entupido de maconha, que quase matou todo mundo afogado, na barra do rio Caraíva, ao entrar paralelo às ondas quando já anoitecia), uma grande canoa a vela que tinha, na época, pelo menos 70 anos de idade, feita de uma árvore que tampouco se podia encontrar mais na região. Como esses, há infinitos outros exemplos.

A dúvida que fica, com a Ilha de Páscoa, é se todo mundo ficou até o fim ou se teve gente que, enquanto ainda tinha canoa, remou para bem longe. No nosso caso, já que estamos tratando a Terra igualzinho ao que os pascoenses fizeram com sua ilha, está um pouco mais complicado, porque nem mesmo sabemos se existe algum lugar para onde fugir. A Lua não é opção. Marte é, pelo que se tem visto, bastante inóspito, e ele seria o melhorzinho entre os planetas mais próximos. Mas os astrônomos não param de vasculhar os céus, e é possível que acabem encontrando algum planetazinho agradável, com ar puro, água limpa e clima ameno para o qual possamos migrar.

Quanto à viagem, a SpaceX, do milionário da internet Elon Musk, está cuidando disso. Por uma fração do custo das naves tripuladas da Nasa ou mesmo dos russos, a SpaceX está tentando fabricar um foguete eficiente e econômico, um verdadeiro Fusca estelar. Dois lançamentos-teste já foram feitos, o primeiro foi um completo fracasso (explosão no lançamento), o segundo foi um relativo sucesso (só perderam o controle da nave quando ela já estava em órbita) e um terceiro está programado para o começo de 2008. Embora na verdade a intenção da SpaceX seja apenas a de explorar o turismo espacial, ela pode estar construindo, graças ao baixo custo, a minha e a sua última canoa.

*André Caramuru Aubert, 45, é historiador, cria software móvel e pensa seriamente com quantos paus se destrói uma canoa

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