Por Caetano Zammataro e Kenji Kira Jr (Bikezone)
A invasão
O Morro do Duduco é um lugar de contradições. O local oferece uma das vistas mais deslumbrantes de Florianópolis. Lá do alto, avista-se a ponte Hercílio Luz, os prédios nobres da beira-mar e ainda os três poderes do Estado. Mas as 1.200 famílias abrigadas no morro, se não vivem na miséria, convivem com a falta de saneamento, higiene e transporte.
Mesmo assim, é quase impossível encontrar alguém que não goste do lugar em que vive. Diferente de outras comunidades, quando se percebeu o crescimento desenfreado, os moradores se fecharam. Há cinco anos não se constrói uma casa no Duduco.
No final de semana passado, dias 11 e 12 de março, trinta pilotos brasileiros invadiram esse cenário “família”. Eles disputaram o primeiro Floripa Dowhill Urbano, competição de descida em terreno misto, com obstáculos artificiais e longas escadarias. São 550 metros casca-grossa de ladeira abaixo.
Estrelas de primeira grandeza no esporte, os paulistas Wallace Miranda (na foto acima) e Thiago “Feio” Vellardi burlaram o esquema da prova e iniciaram os treinos um dia antes do começo do evento, quando o circuito ainda se encontrava fechado para as bikes. O fato de terem sido os primeiros a descer a trilha – e somando a atitude de ataque de ambos – fez com que os moradores, espectadores de primeira viagem, definissem pra qual lado torcer. Para coroar a platéia favorável, Miranda levou o caneco finalizando o percurso em 1’02’’62.
Um circuito perigoso
Na modalidade downhill, os pilotos têm que completar o percurso (geralmente marcado com faixas) no menor tempo possível e correndo individualmente. Mesmo sendo considerado urbano, o circuito do Floripa Downhill incluía obstáculos de montanha.
início do traçado era a parte “montanha”, com descidas íngremes de terra e solo bastante irregular. Em seguida, a pista tornava-se uma longa escadaria, em que a ladeira era quase que uma via reta até o final. Para diminuir a velocidade e criar mais desafios, foi criado um grande “S”, que “saía e voltava” para a escada. No final da pista, duas rampas artificiais de madeira ficavam à disposição dos competidores. Na primeira delas, a recepção ocorria no asfalto mesmo. A segunda era um “duplo” de madeira que exigia precisão e técnica – a alta velocidade “jogava” a bike para fora da rampa de transição.
O circuito foi considerado pelos atletas como “muito cascudo”. O campeão Wallace Miranda tomou dois tombos. O mais sério ocorreu na descida classificatória. “Dei uma erradinha, decolei e capotei”, disse. Luis “Lu” Lancelotti e Alcides de Souza Juninho tiveram quedas em alta velocidade e não conseguiram concluir a prova. Ambos quebraram a mão, mais precisamente o delicado osso escafóide. Fraturar esse osso trata-se de algo particularmente problemático, podendo causar artrose leve, problemas de circulação e até necrose.
Boicote catarinense
A criação de uma entidade paralela à Federação Catarinense de Ciclismo (FCC) resultou numa crise política. Alguns pilotos locais optaram por boicotar o Floripa Downhill, organizado pela FCC. A decisão fez a festa dos atletas de outros estados. Nataniel Giacomozzi foi o único catarinense da Elite que participou.
A rapa foi dos paulistas. Onze compareceram à Ilha, sendo que três deles garantiram lugar no pódio. No feminino, as paulistas Patricia Loureiro e Stephanie Scherer garantiram o primeiro e segundo lugares, respectivamente. A grande surpresa da corrida foi o piloto Bruno Von Zeschau, de apenas 14 anos, que venceu a categoria Juvenil. Com postura e atitude agressiva sobre a bike, Bruno deixou claro que se trata de mais uma promessa da nova geração de pilotos catarinenses.
Acima, panorâmica de Floripa a partir do Morro do Duduco; abaixo, à esquerda, a atleta Stephanie Scherer; à direita, o paulista Thiago “Feio” Vellardi
Confira o resultado oficial e mais informações no site Bikezone
