Nosso colunista repassa seu inferno pessoal com as armas e se engaja na campanha da Trip a favor do desarmamento
Eu amava armas. Desde menino, assistindo aos filmes de bangue-bangue, construí em mim uma paixão por revólveres, duelos, valentia e estupidez. Quando adolescente era muito difícil conseguir armas de fogo. Tínhamos canivetes de mola, peixeiras e facas de caça. E agredíamos, selvagens. Havia um lado negro, algo odiável e asqueroso que me compunha e que eu achava que me fortalecia.
O poder que as armas transmitiam se confundia com o respeito de que eu necessitava. Para mim, que tive a infância massacrada pelo alcoolismo e violência paterna, ser respeitado era quase tudo. O medo dos outros vestia minhas fantasias de ser alguém que importava. Tentei impor ao mundo aquilo que a cultura dos estabelecimentos do Estado para menores infratores me ensinara.
Quis ser bandido e romantizava. Tive que provar resistência e a coragem que nunca existiu em mim, até então. Perdi o passo e caí. Atirei, fui baleado, matei e me perdi. Demorei mais de 30 anos de sofrimento para poder recuperar o pouco de mim que ainda restava. Como dizia Jean Genet, “prisão não é prisão, é liberdade”. Para mim prisão foi a única forma de libertação. Não houvesse sido preso estaria morto ou teria cometido tanta desgraça que não conseguiria olhar no espelho.
Quando construí minha consciência e pude perceber no que me transformara, a dor foi tamanha que quis até deixar de existir. Mas como nunca consegui viver no vácuo mergulhei em uma nova paixão. Ainda estava em tempo. Parti para atuações férteis e geradoras de um novo eu.
Para males culturais, soluções culturais. Estabeleci nova cultura em combate à cultura criminal que me impregnava. Procurei entender o mundo e as pessoas por meio dos livros e da observação atenta. Aprofundei e me atrevi a amar. E esse foi o meu maior cometimento.
Tornei-me elemento contracultural ao ambiente prisional. Todos os valores importantes ali passei a combatê-los em mim. Imaginava que não sairia mais da prisão. Estava condenado a mais de cem anos. Descubro que consegui vencer em quase todos os pontos, e, dos escombros do que fui, sobrou apenas a voracidade de viver.
Não gosto de futebol, não gosto de samba, não gosto de televisão, não gosto de valentia, detesto o poder e sou absolutamente contra as armas. São valores importantes na prisão. Fui obrigado a combatê-los não por eles mesmos.
Efeito Diadema
Em 2001 foi feito um levantamento sobre os homicídios cometidos na cidade de Diadema. O município era campeão no ranking da violência no Estado. Foram 41 homicídios só em junho de 1999. Descobriu-se que a maioria desses crimes ocorria das 23h às 6h. Em julho de 2002 foi sancionada lei municipal que determinava fechamento dos bares a partir das 23h. Em junho de 2005 o município registrou apenas um homicídio. A cidade de Diadema, de primeira colocada no ranking da violência, passou para o 18º em apenas cinco anos.
Podem me tachar de radical: acredito que somos falíveis e limitados; nosso equilíbrio e sanidade são precários. A oportunidade faz o acontecimento. Procedemos por impulsos de paixões desmedidas. O poder de vida e morte que a arma nos dá está além de nossa capacidade de lidar com ele. Creio sinceramente que proibir a venda de armas no país, como medida de prevenção pública, nos traria um efeito Diadema. Não esqueça: a maioria dos assassinatos tem motivos fúteis ou passionais, e não criminais. Deixemos a estupidez aos estúpidos.
*LUIZ MENDES, 53, É AUTOR DE MEMÓRIAS DE UM SOBREVIVENTE [COMPANHIA DAS LETRAS] E CUMPRIU PENA DE 31 ANOS E DEZ MESES, POR ASSALTO E HOMICÍDIO
Ilustração Eduardo Kerges
