MOLECAGEM SÉRIA
Por Paulo Lima
Por que diabos um dos esportes mais técnicos, difíceis de aprender e alucinantes do mundo, que movimenta uma economia de milhões de dólares, tem ídolos, programas de TV e revistas e milhares de praticantes na casa dos quarenta e poucos, continua tendo cara de molecagem? A resposta parece morar na observação, um pouco mais atenta, do que é exatamente a infância. Queremos tudo: tocar, correr, deslocar nosso corpo pelo espaço o mais rápido possível, mesmo que o domínio sobre o equilíbrio seja limitado. Amamos estar vivos, mesmo que não tenhamos tempos para raciocinar sobre isto, e, mais do que tudo, não medimos as reais conseqüências daquilo que fazemos para satisfazer nossos instintos básicos e buscar o prazer. É fácil perceber que a definição acima serve como luva (ou wrist guard) para explicar como age e se sente alguém que se joga ao sabor da gravidade numa ladeira, half-pipe, ou simplesmente joga o peso de um lado para o outro gerando a energia que transmite para o carrinho num terreno plano qualquer. Talvez esse cara duas horas depois tenha que estar no escritório administrando um fundo de private equity, seja professor de física quântica ou pai de doze filhos. Mas, naquele momento, é só um moleque de boné, sentindo o vento na cara e a graça de estar vivo, inteiro, uma peça auto-suficiente que faz sentido em si, apenas pelo movimento rápido que faz o caos ficar sob controle – dure o tempo que durar.
O skate chegou ao Brasil na década de 60, com uma galera que começava a surfar por aqui, influenciada pelos anúncios na revista Surfers. Na época o seu nome era surfinho, e era feito de patins pregados numa madeira qualquer, sendo as rodas de borracha ou de ferro – Cesinha Chaves, 45 anos, responsável pelo site Brasil Skate e Chave Mestra, e um dos primeiros skatistas brasileiros (trecho extraído do livro).
Uma ótima recordação. Têm fotos de pessoas que nem lembrava mais. E o mais legal é que hoje eles são juizes, advogados, empresários e policiais federais. Nunca imaginei que chegariam aí – Sérgio Negão, 38 anos, 22 dedicados ao skate.
Esse livro é o pontapé inicial para que muitos outros livros de skate sejam lançados. É muito legal ver as fotos da década de 70, lavadas e em preto e branco, que sempre foram mal publicadas, num livro com uma qualidade de impressão tão boa. A foto da página 12 foi tirada quando ninguém sabia o que era skate no Brasil. O Cesinha Chaves montou um skate caseiro e mandou esse power slide, em 1977. Acho que é a primeira foto (abaixo) de skate no Brasil – Alexandre Vianna, 25 anos, editor da 100% skatemag, 14 anos de skate.
A Onda Dura – 3 décadas de skate no Brasil
Editora Parada Inglesa, 111 páginas, 130 fotos, R$ 35.
à Venda em skateshops, livrarias ou no site www.aondadura.com.br
