Robert Rodriguez, o homem que fez Frank Miller se tornar cineasta, fala à Trip sobre Sin City, o filme que deu movimento à obra-prima do gênio dos quadrinhos
por Bruna Bittencourt
O filme que estréiou no Brasil no fim de julho é considerado uma revolução cinematográfica. Rodriguez redescobriu como filmar HQs e, também, conseguiu provar que câmeras digitais podem ser tão, ou mais, dramáticas quanto a película. Trip trocou umas palavras com Robert Rodriguez, o homem que transformou um clássico dos quadrinhos em um novo clássico do cinema.
Por que você escolheu adaptar Sin City entre tantas outras graphic novels?
Sempre admirei os diferentes tipos de quadrinhos, mas o trabalho de Frank simplesmente me derrubou. E Sin City tem o melhor traço que já vi. A forma como Frank usa apenas preto-e-branco, muito ocasionalmente outras cores, é inacreditavelmente detalhada. Era pura linguagem de filme noir, como eu nunca vi, com exceção dos filmes das décadas de 40 e 50. Comprei o primeiro episódio de Sin City em 1991 para aprender e alcançar sua arte. Na época, eu fazia uma tira de quadrinhos para um jornal.
Como foi encontrar e convencer Frank Miller a deixar você filmar Sin City, algo que nem Spielberg conseguiu?
Esperei até que a tecnologia do cinema se equiparasse ao trabalho de Frank. E me certifiquei de que eu tivesse muito conhe-cimento sobre efeitos especiais antes de procurá-lo. Então, filmei um pequeno teste com as novas câmeras de alta definição para mostrar a ele que podíamos fazer o filme exatamente como são suas imagens. Frank fez comigo a seqüência de abertura do filme, assim ele pôde entender como seria. Frank assinou depois disso.
O roteiro de Sin City é o de um filme noir. Você é um fã do gênero?
Eu amo filmes dessa época. Sempre quis fazer o meu Kiss Me Deadly [A Morte num Beijo, de Robert Aldrich, 1955] e sabia que filmar Sin City seria a melhor forma de o público de hoje se interessar em assistir a um filme em preto-e-branco com diálogos noir.
E a idéia de filmar cada quadro da HQ?
Esse sempre foi o plano. A HQ Sin City era o melhor filme escrito, dirigido, fotografado que nunca tinha chegado às telas. Conheço muito sobre efeitos visuais e os testes nos convenceram de que poderíamos fazer algo único e, ao mesmo tempo, fiel ao material original.
Você acha que Sin City é uma virada em sua carreira?
Minha carreira sempre foi uma escalada passo a passo. Inconscientemente, me preparei tecnicamente para fazer Sin City. Eu acho que é um marco no cinema porque mostramos para as pessoas aonde filmes com câmeras de alta definição podem chegar. É uma época excitante na indústria porque, mais do que nunca, existem escolhas. Filmar em película não é o único caminho.
Você acha que o crescente número de adaptações de HQ em Hollywood é um sinal da ausência de bons roteiros?
Não sei se há uma ausência de bons roteiros porque tendo a criar meus próprios projetos e roteiros. Mas acho que as adaptações de quadrinhos são uma aposta certa para gerar outros filmes em série bem-sucedidos em Hollywood. Fazer filmes é uma aventura arriscada, uma vez que nunca se sabe se o público irá querer acompanhá-lo. Essa é a razão pela qual mantenho meus filmes com um orçamento administrável, no qual sei que o estúdio terá o dinheiro que investiu de volta. Sin City é repleto de efeitos especiais e grandes atores e custou US$ 45 milhões. Conseguimos pagá-lo com a bilhe-teria de dez dias de exibição.