Por Edmundo Clairefont
Fotos por Eduardo Ortega e Divulgação
A arenga do grafite virou uma página rasgada de velha. Desde o último sábado, 18, o bairro de Pinheiros, em São Paulo, abriga um inédito e sereno capítulo: o mergulho de artistas jovens nas galerias brancas e o encontro de nomes do “grande mercado da arte” com um público “avesso aos museus”.
Duas das principais casas paulistanas propuseram uma gallery swap: o intercâmbio de alguns de seus nomes. Até dia 20 de abril, dez artistas da tradicional galeria Fortes Vilaça (entre eles, Vik Muniz, Adriana Varejão e Leda Catunda) e oito da novata Choque Cultural (Renan Cruz, Zezão, Titi Freak…) levam a novos ambientes uma produção celebrada por públicos distintos.
Uma idéia encampada, por motivos vários, e explicados na entrevista a seguir, por Baixo Ribeiro, 42, proprietário da Choque. Ele é personagem central num processo que chamou a atenção da imprensa e dos especialistas para uma recente leva de escultores, ilustradores e grafiteiros.
De onde surgiu a idéia da troca de artistas com a Fortes Vilaça? A finalidade dessa exposição é dar uma mexida no mercado de arte. Na Choque a gente conhece a qualidade dos artistas novos que têm aparecido. Não só do grafite, mas da tatuagem, das ilustrações, enfim, dos que não estão no mercado tradicional, no mainstream, mas têm uma puta qualidade. Por outro lado, esse pessoal precisa crescer, precisa evoluir, precisa ser mais exigido…
Por quem? A questão é assim: quando o cara faz o trabalho na rua a exigência é zero. Quando começa a expor em galeria, a cobrança de quem vê já é outra. Trata-se de algo bom, que proporciona mais gás no trabalho. E esses meninos precisam evoluir. Se vai um monte de gente expor no exterior, esse time não pode ser composto por um bando de toscos. No Brasil, a gente precisa começar a dar condições para evoluírem. Pra não acontecer como rolou com Os Gêmeos, que fizeram muito mais sucesso lá fora do que aqui.
Esses artistas precisam do quê? De espaço? De crítica? De público? A idéia é mais ou menos por aí. Por um lado, temos que viabilizar e abrir espaço para os novatos. Por outro, mostrar para o público da Choque as obras de artistas modernos, legais, donos de uma linguagem jovem, acessível, mas que também expõem em lugares muito tradicionais. Esse pessoal não se sente bem em freqüentar as chamadas galerias brancas, os museus pomposos…
Como foi o contato com os artistas da Fortes? Foi ótimo, muito foda… Porque apesar de serem todos consagrados, bem vendidos, esses caras tiveram a maior humildade de fazer um trabalho especial pra exposição. Você pega a Beatriz Milhazes e ela foi capa agora do Art Now, da Taschen, na última versão que reúne artistas do mundo todo. A Leda Catunda, por exemplo, veio aqui e fez o lambe-lambe na parede, que é o estilo dela. Isso sem falar no trabalho exclusivo do Vik Muniz (veja a foto que abre esta entrevista) e na Adriana Varejão.
Esta nova temporada do grafite nas galerias levantou na imprensa a questão da arte de rua dentro do museu e o comércio dessa produção… Apareceram matérias sobre isso. Essa discussão não está velha? Sim, e vou ser bem sincero: não é essa a discussão que estamos colocando. Em princípio, a gente nem coloca a Choque como uma galeria de grafite. Em novembro e dezembro, artistas como o Carlos Dias, a Silvana Mello, a Fefê Talavera expuseram aqui. A Silvana e a Fefê nunca trabalharam na rua.
E qual é a questão que vocês propõem? Se a gente não começa a colocar a discussão de que nem tudo que é grafite é bom e que nem todo grafiteiro é artista, mas que os grafiteiros bons precisam ser exibidos, a gente não evolui. Toda a imprensa acaba caindo nessa história de “como o grafite está entrando na casa da classe média”. Assim não dá para evoluir nessa discussão. Já está na hora de passar para o próximo passo.
E qual seria? A qualidade da arte brasileira hoje em dia. É uma geração de artistas que surgiu. A gente não vai ver isso de novo em anos. Acontece raramente na história da cultura dos povos. É um negócio que aparece de vez em quando, como na Tropicália, ou em Paris, no começo do século passado… Essa quantidade de artistas de agora, o nível que eles têm, com uma pegada nova, com um potencial de evolução muito grande, essa geração me passa a idéia de abrir a discussão: ter mais gente olhando e incentivando.
A questão é descobrir esses artistas… Exatamente. Pra sair dessa baladinha de alternativo, de underground. Porque eles estão passando – como aconteceu com Os Gêmeos – de “um underground tosco de Terceiro Mundo escondido na periferia de uma cidade” para um mainstream Nova York. A gente tem que promover esse meio todo. Pega um cara como o Ciro, por exemplo. É um puta talento largado. Um cara tentando fazer acontecer por conta própria. Eu não dou conta de trabalhar tudo isso. Imagina, nem da minha lista de artistas dá. O bacana seria aparecer novos espaços, novas galerias. Das grandes mesmo, gente com grana, porque eu não tenho. Alguém com dinheiro pra falar: “Ah, precisa viajar, então toma aqui, vai lá, vamos mandar você pro Japão”.
Você falou em geração de artistas. Mas dá para falar em movimento? Não falta unidade, conteúdo para poder dizer isso, para catalogar e celebrar essa geração? Olha, aí é meio conversa de bar. A arte tava uma coisa meio deprimente na última década. A produção concentrada. Foi ficando uma coisa de crítico, de conhecedor, auto-referente, a arte fala da arte, que fala da arte e não fala da vida. Foi ficando afastada das pessoas normais. Na verdade, ela foi perdendo o meio. Sumiu a classe média. Virou aquela coisa de investidor. E agora está voltando, essa coisa mais normal, sabe?
Mas a arte, a pintura, sempre foi uma coisa de elite, não? E agora se torna acessível à classe média, aos jovens. É isso? Eu sinto na pele aqui na Choque. A gente chega para o artista e diz: “Cara, faz quadrinho de 300 reais, que 300 é grana pra caralho! Não vamos pensar em 1000”. É por aí. Pode ter a obra de 1000 reais, claro, mas vamos fazer uma escadinha, fazer a molecada participar disso. O target jovem tem uma demanda que não pode ser baseada só na grana. Tem gente jovem com grana pra caralho, é claro, mas a maioria não tem. Mas, mais do que isso, tem a linguagem. A galeria aqui é toda fodida, parece mais com um quarto do moleque do que com a sala de estar do pai.
Criar um novo mercado consumidor? É. Isso. Essa é a proposta. E fazer isso hoje com o nível de talento, com a quantidade de artista que tem, é muito legal, fácil. Ver isso funcionando, esse novo mercado se criando. Tem moleque colecionando mesmo. Ele vem aqui, acha o mais baratinho, compra e guarda. Ele sabe que isso daqui a alguns anos vai valer uma grana. Não é um tonto…
Um investidor mirim? A gente está vivendo um momento muito bom do investidor. Porque é obvio, cara, o investidor mais bombado, que tem grana, que coleciona arte, ele não tem linguagem, ele não notou… É o filho dele que percebe. Quando essa cara sacar o que está acontecendo, vai entrar uma grana mais forte na história, e toda a base de preço tenderá a subir. Se essa nova geração de colecionadores vingar, pô, criamos um novo mercado! Enfim, é isso: queremos criar um novo mercado.
Uma crítica muito automática a essa geração é a questão do comércio dessa produção. Tem a coisa da arte no boné, o artista que usa de suporte direto a roupa, uma arte serial, de consumo… Aí tem algumas coisas. Eu sou estilista de skate, trabalhei e ainda trabalho pra marcas. Os primeiros trabalhos do Speto do Herbert Cobal e de vários outros foram comigo, lá nas marcas, fazendo camiseta. E é curioso. Comecei a reparar que boa parte dos moleques que estavam colecionando camiseta fazia isso porque era desenhada pelo Speto, ou uma bombeta porque era feita à mão pelo Alexandre Farofa, essa moçada estava colecionando também uma marca no meio. Acho positivo, mas não pode ser só isso. É importante que exista uma ligação direta do cara que coleciona com o artista. E a grana ir direto para o artista, para o agente dele, para a galeria dele, sem passar esse dinheiro, necessariamente, por um produto.
Mas não é o que acontece. O dinheiro vai para a marca, para um produto. Isso não é um caminho estranho? Essa ligação muito forte com uma marca? Olha, sempre achei legal e a ligação tem que continuar. Mas isso tava ficando meio doentio. Porque começou a surgir moleque, artista novo, que acha que arte é Nike, entendeu? O cara começa a produzir, a inventar coisas pensando no que a Nike vai achar. E isso rola pra caralho. Porque é verdade, a Nike deu chance pr’Os Gêmeos estarem onde estão, mas estava na hora de alterar um pouco o quadro. Os artistas acabam perdendo o contato direto com o público. E o comprador também perde a referência. Às vezes, ele tem a grana, mas não tem mais o costume de comprar. Mas é complicada a situação. Trata-se de uma doença social e cultural.
Como assim? O raciocínio é absolutamente simples. Artista, como outra pessoa qualquer, tem que ganhar uma grana pra poder viver daquilo. Ou ele vai ser motoboy ou vai ser outra coisa, que era o que estava acontecendo com o Zezão, quando a gente montou a primeira exposição e deu nele uma carimbada de artista. O Zezão estava nessa dúvida: ser artista ou ser motoboy? Uma dúvida básica, simples. Com a maioria dos artistas acontece isso. O Boleta teve filho. Precisava fazer dinheiro pra botar comida em casa. E faz como? O artista começa a fazer outras coisas, pega trampo ruim, faz, sei lá, decoração de bar, umas coisas meio deprê. Então, respondendo a pergunta inicial: é legal continuar essa coisa com marcas. A marca é um tipo de investidor. O perigo é perder a ligação do artista e do público. Para isso não acontecer, esse novo mercado precisa crescer…
À esquerda, um trabalho de Zezão; ao centro, criação de Leda Catunda para a Choque Cultural; à direita, a fachada da galeria
Vai lá
O quê: Fortes Vilaça na Choque Cultural
Quando: segunda a sábado, das 12h às 19h. Até 20 de abril.
Onde: Choque Cultural (rua João Moura, 997, Pinheiros, São Paulo, tel.: 3061-4051)
Quanto: Grátis
O quê: Choque Cultural na Fortes Vilaça
Quando: terça a sexta, das 10h às 19h, sábado, das 10h às 17h. Até 20 de abril.
Onde: Galeria Fortes Vilaça (rua Fradique Coltinho, 1.500, Pinheiros, São Paulo, tel.: 3032-7066)
Quanto: Grátis
