O antropólogo e o ambientalista se encontram Rio de Janeiro

O terceiro encontro entre homenageados do Prêmio Trip Transformadores 2010 começou no Rio de Janeiro e deve terminar em Porto Príncipe, no Haiti. O antropólogo e diretor-executivo do Viva Rio, Rubem César Fernandes, 67 anos, atua contra a violência aqui e também no país caribenho e passa uma semana por mês entre os haitianos. Em 2007, Rubem foi convidado a ajudar nas operações da Força de Paz da ONU por causa da semelhança entre algumas realidades dos dois países, como favelas comandadas por facções criminosas, tráfico de drogas e polícia violenta. Já Marcelo de Andrade, 52 anos, criou o Instituto Pro-Natura há duas décadas pra promover o desenvolvimento sustentável em comunidades pobres do Brasil e de mais 57 países, incluindo o Haiti. Após se conhecerem na sede do Pro-Natura na Tijuca, a maior floresta urbana do mundo, os dois decidiram marcar uma segunda reunião, mas dessa vez na capital haitiana. Antes disso, eles se encontram na cerimônia do Prêmio Trip Transformadores 2010, que acontece dia 27 de outubro no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, e homenageia 13 agentes de transformação da realidade brasileira.

No dia do encontro no Rio, o garoto Wesley, de 11 anos, era morto por uma bala perdida enquanto segurava o lápis na sala de aula. Wesley foi atingido no peito por um disparo de fuzil quando a polícia militar realizava uma operação perto da escola onde ele estudava, na zona norte da cidade. Rubem luta contra essa realidade há quase 17 anos, desde que cofundou o Viva Rio, ONG engajada no trabalho de campo, na pesquisa e na formulação de políticas públicas para promover paz e desenvolvimento social.

“Culpar o usuário de drogas não leva a nada. Ao contrário”

Rubem também está à frente da Comissão Brasileira de Drogas e Democracia, propondo a separação entre o tráfico de drogas e o de armas e a descriminalização do usuário. “Culpar o usuário de drogas não leva a nada, ao contrário. Leva à descrença numa solução. Desde sempre o homem tem buscado maneiras de alterar a consciência. A questão não é reprimir, e sim como vamos lidar com isso”, defende ele. Para ele, um exemplo de boa medida é a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), que tem atuado em favelas cariocas com policiais de formação mais humanista e que promete uma postura menos agressiva que a do Bope.

“A violência é parte da humanidade, nunca vai acabar. No fim dos anos 80, com o fim da guerra fria, parecia que o mundo seguiria para um caminho de paz, mas isso não aconteceu. A gente vê novas formas de conflitos surgindo, como o terrorismo, o narcotráfico”, diz Rubem. Mas acrescenta: “Ainda assim, acho que há uma tendência de melhoria nas condições de vida globais”. Marcelo concorda: “Hoje no Brasil não existe essa história de 40 mil hectares sendo desmatados por uma multinacional pra criar fazenda de boi, por exemplo”.

Ribeirinhas da amazônia

Para implantar projetos de gestão sustentável, o Pro-Natura criou uma ferramenta chamada Earth Evidence, que calcula aspectos não financeiros de um projeto, como seu impacto social e ambiental. São 30 itens, que incluem poluição e crédito de carbono. Entre as comunidades pobres e marginalizadas com as quais Marcelo trabalha estão as ribeirinhas da Amazônia. A Pro-Natura ensina a população local a gerar renda sem destruir o meio ambiente. É feito um plano de ação que inclui a plantação de espécies frutíferas, de mudas de árvores de reflorestamento e a criação de gado – tudo isso de forma sustentável, sem mexer com o equilíbrio da floresta.

Ao ser informado de que o Pro-Natura está chegando ao Haiti, Rubem observa: “O grande desafio do país é ambiental, pois está completamente devastado”. O ambientalista e o antropólogo levaram ao país caribenho suas bem-sucedidas experiências no Brasil e devem unir forças no Haiti. Um apresentando um método de fertilização ecológica para a produção de alimentos e o outro promovendo acordos de paz e desarmamento.

O fato de ambas as instituições estenderem suas atividades para o Haiti e outras nações do mundo não é mera coincidência. Segundo eles, a experiência com a desigualdade social aliada à capacidade de empreendedorismo são características que destacam o brasileiro no mundo. “O Brasil não vai se desenvolver exportando tecnologia de mandar o homem pra Lua nem exportando capital. Nossa tecnologia é a de sustentabilidade”, diz Marcelo. Ao fim do bate-papo, Rubem se despede: “Fomos apresentados na hora certa. A gente ainda tem muito pra conversar lá no Haiti”.

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