Embora tenha diminuído em algumas capitais, a taxa de homicídios do Brasil permanece a mesma de oito anos atrás: são 30 assassinatos por 100 mil habitantes, a terceira maior da América do Sul, e a 26a maior do mundo, segundo estudo recém-divulgado pelo Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crime. A média mundial é de 6,9 homicícios por 100 mil habitantes. Em números absolutos, porém, a triste realidade é que somos líderes mundiais: em 2009, último dado disponível, foram assassinados no país 43.909 pessoas. O segundo colocado foi a Índia, com 40 mil crimes de morte. Mas a população lá é cinco vezes maior que a nossa. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ONG que trabalha como espaço de diálogo e de troca de experiências entre policiais, governos, ONGs e pesquisadores, estima que o Brasil tenha gastado R$ 57 bilhões com policiamento e em presídios em 2010. Hoje, deve ser ainda mais. Por que, então, a sangria da insegurança pública não estanca? Para Renato Sérgio de Lima, secretário-executivo do Fórum e vencedor do Prêmio Trip Transformadores deste ano, o vazamento está na corrupção, na violência policial e na pouca transparência. “Gastamos muito com polícia e prisões, mas nosso modelo de segurança pública é caótico. Precisamos mudar nossa concepção de polícia e definir que segurança pública queremos”, conta Renato. De acordo com o estudo da ONU, São Paulo aparece como o único estado brasileiro que reduziu os homicídios de maneira consistente, de 20,8 por 100 mil habitantes, em 2004, para 10,8 em 2009. A ONU destaca que é o modelo de segurança pública adotado em São Paulo, com inovações tecnológicas, transparência como regra e trabalho integrado das polícias, pode ser seguido em outros estados do país. “São Paulo agregou transparência e gestão como ferramentas do cotidiano das polícias, tornou o sistema um pouco mais racional. Mas anda há muito o que ser feito, pois o modelo de segurança em si não foi alterado, na medida em que depende de reformas legislativos por parte do Congresso Nacional”, explica Renato. Mas houve outras melhorias pontuais que não apareceram no estudo. Por uma defasagem de tempo, a ONU não captou a redução recente que ocorreu no Rio de Janeiro e em Recife. Renato Sérgio de Lima atribui a redução nesses dois Estados aos programas de desarmamento e policiamento comunitário implantados há dez anos. Defende que é possível construir uma nova realidade na segurança pública nacional a partir da aproximação de diferentes posições e negociações de pontos de consenso, tendo como base valores de transparência e participação.