Amor pela diferença

Homenageados do Trip Transformadores 2011 contam sua receita para a tolerância com o outro

por Tatiana Achcar em

Ninguém consegue transformar a realidade sozinho. Uma mudança de verdade, como a que conquistaram os homenageados do Prêmio Trip Transformadores 2011, só se consegue com muita ajuda. E, para mobilizar as pessoas, é preciso negociar as diferenças. Talvez por isso, os homenageados do Prêmio Trip Transformadores mostrem tanta intimidade e paixão ao falar sobre diversidade.

Eles sabem que ninguém está vacinado contra a discriminação, como autor ou vítima. Nos depoimentos a seguir, eles relatam suas dificuldades para evitar olhar de forma preconceituosa e contam como exercitam a capacidade de ser mais tolerantes consigo e com os outros.

A cerimônia de entrega do prêmio será neste 26 de outubro, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo.

Veja a opinião de nossos homenageados:

Jean Wyllys - Crédito: Mauro Pimentel/ Futura Press

"Ser gay é crescer & viver no inferno"

JEAN WYLLYS
Primeiro deputado homossexual a empunhar a bandeira do combate ao preconceito no Brasil

“Sofri por ser pobre, por ser negro e por ter me aproximado das religiões de matriz africana. Mas principalmente sofri pela minha orientação sexual, por não corresponder ao papel imposto aos homens. A discriminação se expressa muito cedo, quando você nem sabe se é mesmo gay, nem tem ainda sua identidade construída, nem sabe o que é afeto e desejo. E chegam os xingamentos, a violência verbal, a comparação com bichas da TV, apelidos medonhos. A discriminação de ser pobre não diz respeito a algo inato e íntimo seu. Mas, ser gay é crescer e viver no inferno. Aos 6 anos, me chamavam de veado e me culpavam pela violência que eu sofria. Aí você vai reclamar com o professor e ele diz: ‘Mas também, com esse jeito’. Não há rede de proteção. Eu não tinha descanso. Até hoje isso me atinge. Tenho muitos alunos ignorantes que querem afirmar em sala de aula seus preconceitos. Mas o conflito é próprio da existência humana, ele nasce da pluralidade, e ela deve ser conservada. Então pagamos o preço de viver com o conflito, para preservar a diversidade. Do ponto de vista biológico, a diversidade nos protege, fortalece as espécies e o sistema imunológico. Sob o aspecto cultural, quanto mais diferença, mais rico, sinal da identidade que foi construída.”

Nilson Garrido - Crédito: Lucas Lima

“Perdoar é minha forma de superar a discriminação”

NILSON GARRIDO
Ex-pugilista, ex-morador de rua, promove cidadania pelo esporte, em academias criadas sob viadutos na cidade de São Paulo

“Já sofri muita discriminação. Era início da década de 70 quando comecei a correr na rua por esporte. Era novidade isso, ainda mais um negro. O pessoal ofendia a gente, dizia que estava correndo da polícia, jogava água na cara. Eu sabia que tinha o poder de meter a mão na cara daquele sujeito. Se não o fazia, era porque perdoei. E o perdão é uma enorme virtude. Se você perdoa, está pronto para caminhar com os próprios passos e sem medo. Talvez por saber o que é ser discriminado, já tomei as dores alheias, de quem sofre preconceito. Certa vez, na biblioteca Mário de Andrade, um menino de rua não conseguiu entrar para pegar um livro. Me intrometi e um funcionário me colocou para fora. Voltei para o viaduto onde eu morava, coloquei a melhor roupa, um anel de ouro e fui lá resolver. Perguntei se qualquer tipo de pessoa poderia entrar ali. Resolvemos na conversa, mas ficou desconfortável pra ele.”

Pablo Capilé - Crédito: Sérgio Flores

"A intolerância é a rebordosa do rancor do século 20”
PABLO CAPILÉ
Criador do Circuito Fora do Eixo, rede independente de produção cultural que promove 5 mil eventos por ano

“Sofri muito preconceito na infância por conta de uma mancha de nascença no rosto. O processo de entender essa mancha foi uma luta, até perceber que eu tinha de estar preparado para falar sobre ela. Quando fiquei mais tranquilo e convicto, diminuiu o espaço para o preconceito. Até então, a discriminação dos outros era justificativa para eu me esconder dos conflitos que eu mesmo não tinha resolvido. Aos 13 anos, resolvi sair das zonas de conforto das relações sociais conhecidas – vizinhos, família, escola – e fui buscar outras tribos. A mancha foi definitiva para me dar coragem. Quando você resolve um conflito que era para a vida inteira, o que vier é lucro. Minha geração tem um ambiente favorável para ser tolerante e entender a necessidade do diálogo e da diversidade. A intolerância está perdendo espaço e reage dessa forma. É uma reação à derrota. Somos da era do pós-rancor, e os conflitos são a rebordosa do acúmulo do século de rancor que foi o século 20, porque o 21 já apontou para o outro lado. Mas também não dá para atropelar o intolerante, porque sua intolerância não é obra do acaso, mas de uma visão diferente. Tem que disputar, ganhar aquele espaço, mostrar que o que você está trazendo contempla um número maior de pessoas.” 

Cesare de La Rocca - Crédito: Lucas Lima

“É difícil colocar em prática o amor à diversidade”

CESARE LA ROCCA
Arte-educador e criador do Projeto Axé, transformou a vida de quase 15 mil jovens em situação de rua em Salvador, Bahia

“Só nazistas e fascistas vão negar a importância da diversidade. Mas na prática é uma dificuldade imensa trazer para as atitudes cotidianas esse respeito intelectual que manifestamos pelo diferente. Nesse sentido, as turnês musicais do Projeto Axé foram instrumentos fantásticos de convivência com as diferenças. Em Florença, na Itália, os jovens do projeto, todos negros, viajaram sabendo que iam encontrar o David, de Michelangelo – a escultura de um homem branco. Estava curioso para ver a reação deles, e lá estavam aqueles machões negões, chorando sem vergonha diante da beleza da escultura, apesar da educação machista que diz que homem não chora. Acho que, aos poucos, o mundo está aumentando a aceitação das diferenças, por conta de um encontro dos contrários. Manifestações inaceitáveis de homofobia ou intolerância racial acabam por provocar uma reação a favor da aceitação desses grupos. Mas acho que aceitar, tolerar é pouco. O diferente deve ser respeitado, valorizado e acolhido, isso é muito mais positivo.”

Alcione de Albanesi - Crédito: Arquivo Pessoal

"Para realizar algo, é preciso ser tolerante"

ALCIONE DE ALBANESI
Presidente da ONG Amigos do Bem, que cria vilas inteiras onde não há nem água e ajuda 60 mil pessoas no sertão nordestino

“A tolerância tem que fazer parte da vida daquele que quer realizar algo. Se você não é tolerante, acaba brigando com todo mundo, o que o deixa estagnado. O resultado é que você não consegue fazer mais nada. Se eu não tolerar o fato de que existe uma escola que não tem merenda e não tem professor, vou arrumar briga, vou criar um inimigo. Então eu tolero e, com isso, viabilizo um caminho para solucionar aquela situação. Aprendi a tolerar me esforçando para entender a limitação do outro. Percebi assim que, se ele chegou ao seu limite – de compreensão, de capacidade –, não pode dar mais. Para mim, isso é um exercício de tolerar. Um exercício que está fazendo falta no mundo. Hoje as pessoas aceitam menos as diferenças, e o mundo está mais desigual e intolerante. 

É claro que, às vezes, eu também não consigo ser mais tolerante. Tenho dificuldade em aceitar a atitude de quem se compromete e não faz. Que fique sem dormir, mas faça.”

Ronaldo Fraga - Crédito: Érico Hiller

“Temos um preconceito terrível com a imperfeição do corpo”

RONALDO FRAGA

Representante de seu setor junto ao Ministério da Cultura, o estilista extrapolou as fronteiras da moda e se tornou um agente de transformação social

“Desde a infância, sempre tive amizade estreita com gente de orientação sexual, origem e cor diferentes. O abismo social que foi instaurado no Brasil dos anos 80 pra cá, com ricos de um lado e pobres de outro, gera intolerância. Dou muito crédito à minha formação, por ter tido uma infância num tempo em que todas as crianças brincavam na rua, misturadas. Hoje vivemos em guetos. A escola pública, a vida no bairro e na rua, as festas, as refeições comunitárias, os espaços onde as crianças brincavam e todos os adultos olhavam por elas me fez valorizar a diversidade. Isso pavimentou minha formação. A tolerância vem com uma escola mais inclusiva. Sob alguns aspectos, o Brasil melhorou em relação ao preconceito contra a orientação sexual, mas arrumamos outras formas de intolerância. Temos um preconceito terrível em relação a quem não se encaixa no padrão de beleza, de corpo perfeito.”

Flávio Canto - Crédito: Pedro Meyer

“Os mais sábios devem ser mais tolerantes”

FLAVIO CANTO
Judoca medalhista olímpico, ensina a crianças e jovens carentes tudo o que aprendeu em sua carreira

“No judô, há uma regra que diz: ‘Maior a sabedoria, maior o pecado’. Ou seja, quem sabe mais tem mais responsabilidade. Faz parte de uma pessoa mais sábia entender e respeitar pessoas em estágios diferentes de consciência, ser mais tolerante. Eu não cheguei a esse estágio de evolução. Ainda sou intolerante. Tenho um longo caminho a percorrer. Nesse sentido, nada me ensina mais do que a convivência com a diversidade no Instituto Reação. Quando entrei na Rocinha, vi que de um lado tinha o playboy e, do outro, o favelado. Eu era o playboy. Levou dois anos para me sentir respeitado pela comunidade em geral, porque eu vinha de uma situação diferente. Tenho certeza de que hoje sou muito diferente. No começo, fui muito intolerante, passei muito tempo fora de sintonia até me reequilibrar. Tenho dificuldade em respeitar os sonhos e as ambições dos outros, porque quero que sejam grandes, nada abaixo do que eu acho que eles podem alcançar. Grandes amigos não embarcaram comigo no Reação porque eu não tive tolerância com eles.”

Renato Sérgio de Lima - Crédito: Lucas Lima

 

“Não tolero o jeitinho brasileiro”

RENATO SÉRGIO DE LIMA
Sociólogo, ajudou a fundar e hoje está à frente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um canal de diálogo para monitorar e aperfeiçoar o trabalho das polícias

“Cada vez mais sou intolerante com o jeitinho brasileiro. Certa vez, na hora de embarcar em um voo, a funcionária da companhia aérea não pediu o RG de algumas crianças que iriam embarcar, porque o voo estava atrasado. Disse a ela que, ao deixar de cumprir a lei, estava colocando as crianças em risco. Nosso trabalho no fórum é garantir uma sociedade democrática. Não uma democracia teórica, mas de verdade. E é no cotidiano que essa cidadania acontece. No entanto, pequenas violações, espertezas e malandragens podem retroceder esse processo. Pegue o caso das bicicletas, que vêm conquistando espaço no trânsito. Na batalha contra os carros, alguns confrontos acontecem e, aos poucos, o ciclista ganha respeito aos seus direitos. Porém, isso traz a ele uma responsabilidade. Agora que alcançou e conquistou espaço público, que é por excelência regrado, precisa seguir as regras desse espaço, no caso, as leis de trânsito. Não pode invadir a faixa de pedestre, andar na contramão ou furar semáforo fechado. Há muitas virtudes nessa troca.” 

João Cândido Portinari - Crédito: Sérgio Flores

“A ignorância é a mãe de todos os males”

JOÃO CÂNDIDO PORTINARI
Reuniu e organizou o acervo relacionado à obra de seu pai, Cândido Portinari, para desvendar ao Brasil a arte brasileira

“Quando estudei em Paris, aos 18 anos, fui para um internato, um liceu famoso e de um rigor absurdo, onde estudaram grandes nomes como Sartre e Voltaire. Naquele tempo eu era o único sul-americano. Havia um desconhecimento absurdo em relação ao Brasil e o preconceito vinha da ignorância. Havia o estereótipo de que a gente queimava café nos vagões de trem, que tinha cobra no meio da rua. As crianças e os jovens são tão bondosos como perversos, e a discriminação vinha por meio de ironias depreciativas sobre o Brasil. Era fruto de uma arrogância europeia que vemos até hoje. A ignorância é a mãe de todos os males. A leitura abre nossos olhos para as diversas formas de ser. E também a experiência de vida, o trato com as pessoas, as pancadas que recebemos. E, mais do que tudo, a educação pelo exemplo. A tolerância é uma forma mais inteligente de viver. O grande desafio brasileiro é a educação, aquela que não se resume à informação, mas considera o ser humano.”

Maurizélia de Brito Silva - Crédito: Carol Quintanilha

“Entendo a posição de quem não concorda comigo”

MAURIZÉLIA DE BRITO SILVA
Chefe da Reserva Marinha do Atol das Rocas, luta pela preservação dessa reserva, verdadeiro berçário do Atlântico sul

“Nos anos em que estou à frente do atol, a pesca ilegal diminuiu muito. Antes, havia dezenas de casos, hoje é raro ocorrer um. Mas eu entendo a situação do pescador que está sem dinheiro, sem ter como pagar as contas e decide tentar a sorte pescando no atol. Sei que ele está no desespero. Mas uma coisa é entender, outra coisa é permitir. Por isso eu tenho minha rede de informantes, gente que me avisa quando percebe que um pescador colocou no barco combustível suficiente para sair da zona permitida e chegar até o atol. Assim que recebo o aviso, transmito às autoridades e ele é interceptado antes de fazer uma besteira. O mesmo acontece com as pessoas que têm condições legais de estar lá no atol – estagiários, voluntários, pesquisadores – e tentam burlar a lei. Eu não aceito. Cancelo e suspendo projetos de pesquisa, mesmo. Sou responsável por cuidar do patrimônio da biodiversidade e do patrimônio público. Isso me fez sofrer discriminação para não dizer perseguição, por parte de gente maior do que eu. Mas eu não desisto quando acho que estou certa.”

Leonardo Sakamoto - Crédito: Frederico Rahal Mauro

“Quem diz que nunca discriminou é mentiroso”

LEONARDO SAKAMOTO

Jornalista e professor universitário, é fundador da ONG Repórter Brasil, que denuncia violações dos direitos humanos e da legislação ambiental

“Quem diz que nunca discriminou alguém é um tremendo mentiroso. No Brasil, por exemplo, todo homem é machista até que seja devidamente educado. Eu me incluo nesse grupo, embora lute diariamente contra isso. Mas é muito difícil evitar, porque o preconceito está infiltrado até no idioma. A língua portuguesa, por exemplo, não tem gênero indeterminado. E o plural é sempre masculino. No jornalismo, isso é reforçado pela regra, utilizada em muitas redações, de citar a mulher pelo primeiro nome, e o homem pelo sobrenome, porque ele carrega o nome da família. É curioso também ver como o preconceito, muitas vezes, é oculto pelo anonimato. Raras vezes vemos alguém discriminando abertamente e assinando embaixo. No meu blog, escrevo sobre discriminação e preconceito, questões de gênero e classe social. É impressionante como os comentários anônimos são os mais intolerantes.”

Miguel Nicolelis - Crédito: Lucas Lima

“Queremos envergonhar o poder público”
MIGUEL NICOLELIS

Neurocientista defende o uso democrático da ciência para a transformação social e econômica do Brasil

“Lá em Natal, onde criamos o Instituto Internacional de Neurociências, uma das coisas que nós tentamos fazer é envergonhar o poder público, porque há uma resistência muito grande em investir em educação e em formas de libertar e criar cidadãos pensantes, porque o poder local se alimenta de cidadãos não-pensantes, que mantêm a oligarquia no poder. É demonstrar que crianças que foram rejeitadas e deixadas à margem das políticas públicas também podem aprender. Nós conhecemos essas crianças, nós as levamos para o projeto e de certa maneira nós começamos a envergonhar o poder local, que dizia que era impossível fazer algo com essas crianças, porque eram violentas, não tinham comportamento adequado, não tinha condição de aprender. Nos quatro anos do projeto, nunca tivemos um ato de violência, de indisciplina. Quando você oferece amor incondicional, oportunidade e o caminho para você buscar sua própria felicidade, então aí você demonstra para o poder público, o único agente capaz de transformar essas experiências em escala, que é possível. No momento em que dermos voz para a criança brasileira, para ela se sentir parte de um projeto educacional, aí o Brasil decola.”

Saiba mais sobre o Prêmio Trip Transformadores 2011 em https://revistatrip.uol.com.br/transformadores

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