Sua vida tem sentido? Um terapeuta de origem iraniana tenta responder
Sam Cyrous fala dor e vazio existencial — e como a logoterapia ajuda a encontrar significado na vida em um mundo em sofrimento
Sam Cyrous @sam.cyrous - doutor em psicologia clínica e cultura / Créditos: Pedro Antonio Heinrich
Filho de pais iranianos, nascido no Uruguai, formado em Portugal e com passagens por Espanha, Alemanha e Itália, Sam Cyrous carrega uma trajetória que atravessa geografias e visões de mundo.
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Quase sempre que o Irã aparece no noticiário, a imagem já vem pronta. E, no fundo, isso diz muito mais sobre a nossa distância do que sobre o país em si. A maioria de nós não conhece ninguém de lá, nunca esteve por perto, e cresceu recebendo informações filtradas, muitas vezes mediadas, simplificadas e até distorcidas. O que chega costuma ser um recorte duro, associado a guerra, tensão e conflito. E fica difícil escapar disso quando é praticamente o único repertório disponível. A conversa passa por esse descompasso entre imagem e realidade.
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Filho de iranianos que deixaram o país nos anos 1980, Sam chama atenção para o risco de reduzir um país inteiro à sua geopolítica. “A gente precisa saber que o Irã não é o regime, não é o governo, seja ele qual for, tenha sido ou venha a ser. O Irã são as suas pessoas. A marca do Irã é ser um povo caloroso, que abraça diferentes tradições religiosas e culturais.”
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É a partir desse lugar que ele constrói seu trabalho. Doutor em psicologia e uma das principais referências em logoterapia no Brasil, Sam parte de um ponto simples, mas pouco praticado: entender o ser humano para além do sofrimento imediato. Criada por Viktor Frankl e consolidada após a Segunda Guerra Mundial, a logoterapia propõe que o sentido da vida não está na busca por prazer ou poder, mas na capacidade de encontrar significado, inclusive, ou principalmente, em momentos difíceis. “O desafio é acompanhar as pessoas em sofrimento e descobrir um sentido dentro ou além do que elas estão vivendo, sem cair na positividade tóxica”, explica.
No Trip FM, Sam fala sobre como essa busca por sentido se perdeu em meio a uma cultura cada vez mais voltada para performance, comparação e respostas rápidas. Para ele, parte do problema começa na dificuldade de nomear o que sentimos. “A gente não sabe diferenciar frustração, ansiedade, medo. E talvez o pior de todos os medos seja o medo de falar sobre os próprios medos.”
Você pode ouvir o podcast no play nesta página, no Spotify, Deezer e YouTube. Confira um trechinho a seguir!

Você diz que a gente olha pro Irã de forma muito distorcida. O que é essencial entender sobre o país?
Sam Cyrous. O Irã não é o regime, não é o governo, seja ele qual for, tenha sido ou venha a ser. O Irã são as suas pessoas. Essa é a marca do Irã: um povo caloroso, que ao longo da história abraçou diferentes tradições culturais e religiosas. Há milhares de anos, quando anexavam novos povos, não obrigavam ninguém a abandonar suas tradições. Ao contrário, incluíam e respeitavam. Não precisava que todos fossem iguais para serem um só povo.
E num momento de guerra e informação bloqueada, dá pra saber o que está acontecendo de fato por lá? É muito difícil. A internet está totalmente bloqueada há semanas, e isso, no mundo de hoje, é gravíssimo. Sem internet, a gente não sabe o que está acontecendo. O pouco que chega são mensagens muito curtas, como ‘estamos bem, não se preocupem’. Não se fala muito mais do que isso. Então o que temos são inferências, filtradas pela mídia. Informação direta, de fato, é quase nenhuma.
Existe uma ideia de que o povo iraniano é pacífico. Isso faz sentido? Eu tenho sempre cuidado com extremos. Dizer ‘nunca’ é perigoso, principalmente quando falamos de uma história de milhares de anos. Mas, de fato, os persas são um povo multicultural, formado por diferentes grupos e etnias, que convivem com uma tranquilidade admirável. Então eu não diria ‘nunca’, mas provavelmente, na maioria das vezes, os persas reagiram mais do que iniciaram conflitos.
Na sua área, a logoterapia fala muito sobre sofrimento. O que diferencia quem atravessa isso melhor? Há pessoas que, mesmo nas maiores dificuldades, conseguem ver que a vida ainda vale a pena e tentam seguir. E há outras que olham para o sofrimento e não sabem o que fazer. A diferença, segundo a logoterapia, é sempre a mesma: algumas pessoas veem sentido para além do sofrimento, outras só enxergam o sofrimento. O nosso desafio é acompanhar a pessoa até que ela descubra que há algo mais — não com positividade tóxica, mas ajudando ela a encontrar sentido no que está vivendo ou além disso.
Dá pra dizer que o sofrimento é necessário pra crescer? O sofrimento pode ser uma oportunidade para crescer, mas não é o único caminho. O desafio não é sofrer para crescer, mas quando o sofrimento aparece, se abrir para crescer em vez de se fechar. Muitas vezes, é na escuridão que a gente aprende a enxergar a luz. A gente só valoriza a paz porque houve conflito, só valoriza a luz porque existe a escuridão. Então o sofrimento pode ensinar, pode transformar — mas não precisa ser uma meta.
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