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Tudo o que rolou no Theatro Municipal, no segunda dia do evento que bagunça as certezas do universo feminino

Depois de um sábado em que a discussão foi de relacionamentos abusivos à sexualidade feminina após os 60 anos, os debates seguiram pela tarde de domingo, começando por uma conversa sobre autocuidado:

Você está descuidando de você?

Fechando o mês internacional da mulher, o segundo dia da edição especial da Casa Tpm começou com um tema central quando refletimos sobre relacionamentos: é possível cuidar de alguém sem que antes a gente cuide da gente? Milly Lacombe, jornalista e colunista da Tpm, mediou o papo entre a atriz Giselle Itié, a jornalista Izabella Camargo e a psicóloga Laila Resende.

Mas, afinal, o que é autocuidado? “Se a gente não se coloca em primeiro lugar, estamos nos colocando em risco e, consequentemente, colando outras pessoas em risco também” , opinou Izabella. Giselle contou sobre os episódios de pânico que viveu depois de ter falado publicamente sobre abusos que sofreu: “Foi muito difícil pra mim e entendi que eu não estava me escutando e que eu não sabia falar não.” Laila completou: “Autocuidado passa também por nos acolhermos nesses momentos em que estamos fragilizadas.”

Izabella trouxe o âmbito profissional para a discussão e dividiu com a plateia uma experiência profissional. “Como manter a saúde emocional no trabalho em um país com tantos desempregados? Como manter o seu limite se o ambiente profissional não tem limite? A falta de cuidado conosco, para dar conta de um trabalho, vai causando o burnout. Eu tive um apagão ao vivo. É como se fosse a falência da sua saúde mental. Ainda bem que eu tive esse freio, se não, seria pior”, completou. “A gente vive em uma sociedade que glamouriza o trabalho”, acrescentou Milly.

Laila aprofundou a conversa abordando o recorte racial. “Fica tudo mais difícil quando é retirada de nós, mulheres negras, nossa humanidade. Somos muito cobradas a sermos fortes e a gente internaliza essa ideia porque é repetida há varias gerações e isso atrapalha que a gente se permita a se sentir frágil”, disse. Milly concluiu: não dá pra gente continuar essa luta do feminismo sem olhar pra gente.

“Sofrimentos mentais são vistos como mimimi. Se uma pessoa quebra uma perna ninguém fala que é mimimi. Se a gente chega com uma queixa de sofrimento mental é falta do que fazer, frescura. Ainda não é visto como um sofrimento válido. É um trabalho de formiguinha no sentido de sensibilizar a mulher de que tá tudo bem não estar tudo bem.Procurar ajuda profissional não te faz menos mulher”, disse Laila, em uma reflexão sobre a importância de estarmos atentas a nossa saúde emocional e desenvolvermos ferramentas para protegê-la.

“Nunca é tarde pra cuidar de si mesmo”, disse Giselle, citando Foucault e completou: “para mim, meditação é essencial”, declarou Giselle. Laila falou sobre a importância de disseminar a prática da meditação que, ao contrário do que pode parecer a principio, é uma atividade democrática, que pode ser praticada em qualquer lugar e por qualquer pessoa. “Como é que seria esse mundo se as crianças fossem tão encorajas a meditar como são a escovar os dentes?”,provocou Milly.  Ter disciplina pode ser uma dos caminhos para se cuidar. “Autocuidado também é autocontrole”, disse Izabella, refletindo sobre o quanto estamos distraídos pelas redes sociais e deixando de olhar para dentro, para nossas verdades.

Ninguém transa!

“Sabemos que dois anos é o período em que as pessoas ficam mais apaixonadas. Em 1990, os casais faziam sexo em média cinco vezes por mês. Em 2007, caiu para quatro vezes, em 2010, para três... Se continuar assim, em 2030 as pessoas não vão estar fazendo sexo.” Com essa reflexão estatística, a terapeuta de casais Ana Canosa abriu sua mesa, em que conversou sobre a questão da sexualidade e o aumento da incidência em seu consultório de casais que a procuram com a reclamação de que não fazem mais sexo. E, uma novidade ainda recente, ela explica que, no passado, essa reclamação era frequente vindo dos homens em relação a falta de interesse e desejo das mulheres. “Na minha observação clínica, tenho uma série de casais cujos parceiros homens não querem fazer sexo.”

Ana seguiu com sua reflexão pensando sobre os caminhos que nos levarão à realidade de transarmos cada vez menos com nossos parceiros ou parceiras, não importa qual seja o formato da relação escolhida. E não há necessariamente qualquer questão biológica. “O que move o desejo? Se fosse só a biologia, os homens estariam preservados, já que eles têm 30% a mais de testorerona livre no corpo e ela mobiliza o desejo. Nas mulheres, é o estrogênio que produz a testosterona. E nem sempre a reposição de testosterona vai aumentar a libido”, explica. “Uma pesquisa aponta que 39% das pessoas disseram que já fizeram sexo casual no Brasil. A gente tá achando que tá todo mundo transando muito, mas não.”

E segue pensando, então, sobre o que tem gerado essa situação. “Alguns pesquisadores apontam ansiedade, síndrome do pânico, depressão, esses transtornos mentais vão interferir na nossa capacidade de sermos desejantes na vida”, pensa. E lembra que tudo isso se soma a séculos escutando histórias como a da Cinderela. “Fui criada vendo as princesas, que são retratos da submissão. Fala muito sobre a castração feminina, eu sou capaz de fazer tudo para ser escolhida por um homem. Hoje, as próprias princesas não se relacionam mais.”

Transtornos mentais, no entanto, não são suficientes para explicar e coloca a masturbação como um meio importante de nos conhecermos e desenvolvermos uma autonomia com nosso desejo. Porém, chama atenção para questões que caminham juntas do ato da masturbação e podem ser nocivas. “Mas, com todas as tarefas do cotidiano, é mais fácil ver um vídeo pornográfico no celular. É muito mais fácil. Vários autores apostam no excesso da pornografia e erotização como uma habituação à estimulação sexual. A gente assiste tanto que fica insensível ao estímulo. Alguns casais trocam o contato íntimo pela masturbação. É preciso descobrir outras maneiras de resgatar o desejo.”

Ana não pretende, porém, demonizar a pornografia. “É uma produção cultural e hoje tem vídeos produzidos por mulheres”, diz, mas pensa sobre a natureza do que encontramos. “A pornografia ensina um tipo de sexo violento com as mulheres. Isso é muito preocupante na iniciação sexual de jovens. Fica muito robotizado e, quando vou pra um app de encontro, clico na pessoa e vou com o pacote pronto. Eu não me comprometo. O que você acha de relacionamento a três? Posso comer seu cu? É tudo direto. Gente, não pega bem.”

E começa a traçar pistas de caminhos para mudar isso. “Nós distanciamos muito o sexo e o afeto. A gente não sabe seduzir, chegar. O romantismo, não aquele babaca, estereotipado, o afeto. Quando a gente fala de diminuição do sexo nas relações, é que as pessoas carecem de intimidade. É ela que nos faz relaxar e conectar ao outro. Essa intimidade pode estar muito prejudicada”, diz. Mas lembra que ela não começa com o outro. “Se eu puder dar um conselho rápido, será: se conectem ao desejo. O que você quer? Que tipos de relação quer?” A saída é para dentro.

Amor entre mulheres

Milly Lacombe, mediadora da mesa, começou a conversa sobre as relações lésbicas justamente pela nomenclatura, pensando sobre a carga de preconceitos que os nomes usados carregam. E foi com bom humor que a percussionista Lan Lan recebeu a pergunta de como elas próprias se identificam. “Bi, tri, sapatão. Nunca me importei com nomenclatura”, disse Lan Lan, que debateu as complexidades das relações lésbicas ao lado da youtuber Jessica Tauane e da ativista e arquiteta Monica Benicio.

A conversa segue com Milly pensando sobre o fato de mais mulheres, muitas identificadas como heterossexual, estarem se relacionando com outras mulheres. “Tá na moda ser sapatão?”, perguntou a mediadora. E Mônica retomou a questão dos termos para pensar sobre a importância de se afirmar sapatão. “Eu digo que hoje minha afirmação é um ato político, para tirar a opressão, porque antes sapatão era um xingamento, uma agressão. Então, afirmar isso é a desconstrução desse olhar violento sobre o corpo da mulher. A gente não precisa estar presa a amarras do que é o feminismo, falar que é sapatão é um ato político para ressignificar isso.” Tauane deu suporte ao discurso. “A gente precisa afirmar isso para conseguir políticas públicas especializadas.”

O preconceito da sociedade deixa marcas dentro delas próprias, muitas vezes sendo empecilhos e dores antes até de se assumir à própria família. “Precisei de muitos anos para dizer à minha mãe que eu era gay. E foi a coisa mais difícil que fiz na vida”, disse Milly. “Quando a gente fala de sexualidade, o primeiro olhar de preconceito é o nosso mesmo e é a importante quando você e a Nanda falarem, com a exposição midiática que vocês têm, porque cumpre um papel que é o da representatividade”, disse Monica. Isso tudo é fundamental para que meninas como eu era não fiquem presas a preconceitos e possam ter referência. O que me colocou como figura pública foi perder minha companheira assassinada, mas a luta vai se ressignificando diariamente.”

Uma provocação de Milly sobre a existência de machismo nas relações entre mulheres provocou uma reflexão profunda das três participantes. “Tem mulheres que se comportam com uma característica machista no sentido de oprimir seu cônjuge. São pessoas que têm um comportamento opressor”, disse Lan Lan. Jéssica Tauane partiu da própria experiência para pensar sobre a questão: “Nasci e cresci na sociedade heteronormativa e essa cultura, que eu aprendi, eu estava reproduzindo. Sempre gostei de gostar das meninas femininas e fui a mais masculinas. A gente cai na cilada no gênero até o ponto que a gente não enxerga, já tive ciúmes. Minha esposa postou um seminude e olhei achei absurdo e aí me toquei que eu estava me sentindo dona do corpo dela. Tento ter autoanálise para não cair nisso e já vivi relacionamentos abusivos com mulheres. Acho perfeitamente possível um relacionamento machista entre mulheres”.

E Monica entrou na conversa com uma reflexão sobre as questões sociais que geram as relações tóxicas. “É um exercício difícil e diário ver o que a gente tá reproduzindo de opressão. Não tem revolução sem mudar nossos hábitos e ter empatia. Quando a gente fala de amor entre mulheres e que isso é revolucionário não é só sobre sexo, mas a questão é olhar para outra com empatia para fazer a transformação da sociedade. Amar uma mulher é combater o patriarcado. Não estamos falando de amor romântico, mas, sim, do amor que vai transformar essa sociedade em outra coisa.”

Amores livres

Tem gente sendo feliz implodindo o modelo tradicional, ou seja, o monogâmico, de se relacionar. Para pensar sobre isso, subiram no palco a psicanalista Maria Homem, a produtora de conteúdo Ellora, a chef de cozinha Bel Coelho e a editora de conteúdo da Trip, Julia Furrer.

Bel Coelho abriu o jogo sobre suas experiências. “Já faz uns 15 anos que questiono a monogamia. Uma vez namorei a três, faz uns 9 anos. Foi uma relação sofrida, porque era heteronormativa. O homem estava no centro das atenções. O desejo girava em torno do homem. Eu me senti alimentando um sistema heteronormativo”, refletiu. “O sofrimento e ciúme vão acontecer. A gente consegue liberar o peso da traição e da mentira, mas passam a existir problemas de outra natureza. Essa necessidade de ter o outro só pra gente é inerente ao ser humano”, concluiu Bel.

“É importante falar sobre a relação, independentemente de qual seja a configuração dela”, disse Ellora, que, aos 21 anos, experimenta um namoro aberto. O conceito de traição foi o centro do papo nos minutos seguintes. Maria Homem aprofundou a abordagem e disse que “trair a si mesmo é não sustentar o seu desejo”. E completou: “Amor livre é qualquer amor que se queira livre. Ele pode ser monogâmico, não pode? Um poliamor pode ter milhões de regras e ser uma neurose obsessiva”, disse.  

“Você já sentiu preconceito por não ser monogâmica?”, perguntou Julia a Ellora. “Falavam que, quando eu gostasse de alguém de verdade, ia ficar só com ela. Nunca coloquei meu relacionamento como mais bem resolvido intelectualmente que o das outras pessoas, mas me descobri muito. Você aprende a lidar com o ciúme, com as expectativas do outro. Mas, sim, rola ainda muito preconceito. Então, é muito importante estarmos aqui falando sobre isso”, respondeu.

Tudo que você sempre quis saber sobre casamento

“Eu acharia muito legal se fosse uma conversa, se todo mundo falasse.” A atriz Maria Flor começou com um convite à plateia a apresentação que fez ao lado de seu companheiro, o roteirista Emanuel Aragão. Juntos, eles fazem o canal do YouTube Flor & Manu, em que falam sobre o relacionamento. E, com a mesma dinâmica do que fazem no vídeo, eles seguiram em um jogral orgânico na última mesa da Casa Tpm 2019, em que conversaram sobre o entendimento que têm do que é do que se busca no casamento. “A gente está tentando entender como faz com o casamento, o que é uma missão quase impossível”, disse ela. “Pra que serve o casamento hoje em dia? A gente está desconstruindo as coisas todas, os papéis, o amor ideal, o encontro de almas. Alguém ainda acredita que tem a pessoa certa para encontrar na vida? O casamento não é o encontro de almas, é outra coisa”, completou ele.

E Maria Flor buscou apoio no escritor norte-americano Alain de Botton. “Por que a gente continua tentando encontrar alguém para dividir a vida e ser menos sozinho? Lendo um livro do Alain de Botton: ‘O amor chega a seu ápice em que o ser amado se revela capaz de entender até melhor do que nós mesmos nossas partes caóticas e embaraçosas e demonstrar empatia’.” Emanuel lembrou o tempo que estão juntos, 5 anos, para pensar sobre quão difícil é buscar essa dinâmica ideal. “Quando a gente casou, a gente não tinha claro o tamanho do problema, iludidos pela lógica de que vai ser difícil, mas vai ser possível. Mas a coisa em si é muito pior do que você tinha imaginado.”

E a barreira do machismo obviamente entrou na discussão. “A gente tenta pensar nisso seriamente. Como faz para não reproduzir tudo aquilo que a sociedade nos impõe? Como faz para desconstruir isso, para não ser machista dentro da relação? Será que dá para ter uma relação hétero não machista? A gente erra, a gente é machista, eu sou machista. Eu espero dele uma função masculina tradicional que já não serve mais, não me serve mais. Questiono e quero romper, mas aí de repente espero isso dele. E vejo isso nas mulheres parceiras na vida”, refletiu Maria Flor. E Emanuel seguiu: “Essas modificações de paradigmas, de sair do amor romântico, e do machismo. A gente foi criado dentro dessa estrutura de preconceito e temos que ir processando diariamente. E o casamento é uma ferramenta maravilhosa para repensar isso. Você vê que tá replicando algo que não quer replicar. E não é fácil. Por isso, casamento é um processo cheio de crises e enfrentamentos, mas cheio de amor, de empatia, de aprendizado, de entendimento.”

O que, de fato, fica evidente ao fim da conversa é que casar é um exercício diário. Flor abriu uma ideia do casal, de que precisam decidir estar casados de três em três horas. O que não é fácil. “Ser casado é exaustivo, ser solteiro é mais leve e mais facil. Você é dono da sua escolha e nao tem que discutir com ninguém, equilibrando o que cada um quer. Escolher já é difícil, escolher junto com alguém, quando acaba aquela paixão enlouquecida, como faz para fazer sexo? Como, no meio das contas e do caos da vida, você consegue estar ali? É muito difícil. Eu não vou abrir mão do meu prazer nunca dentro da relação, porque muitas vezes eu acho que a gente sucumbe a isso”, concluiu Flor.

Ô bixinho!

Duda Beat fez todo mundo dançar em volta da escadaria do Theatro no show de encerramento da Casa Tpm. Teve até coro no refrão de "Bixinho", hit da pernambucana: "só mais uma vez não vai fazer diferença!".  Acabou, mas calma que logo logo tem mais, ainda este ano!

Créditos

Imagem principal: Simon Plestenjak

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