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Tudo novo, de novo

Talvez a real demanda não seja vestir, mas despir. Despir-nos de tudo que não importa mais

Tudo novo, de novo

Créditos: Divulgação


Por Denise Gallo

em 6 de junho de 2012

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Pense nas suas unhas. Simpáticas e saudáveis, elas vivem ali protegendo seus dedos de machucados, aplacando coceiras, eventualmente arranhando algumas costas aqui e ali, em momentos mais inspirados. Seguem crescendo enquanto você segue vivendo. Quando dá tempo, você as pinta: rosa, vermelho, café. Um dia, nota que o nécessaire da manicure transformou-se na canastra da Emília e o espectro de cores ampliou-se de tal forma que, agora, os esmaltes não têm mais nomes de cores, têm nomes de sensações ou apelos esquisitos, como “inveja boa”, “doce loucura”, “me belisca”, “me beija”. Me poupa. Entre beijos e beliscos, o mercado brasileiro de esmaltes já é o segundo maior do mundo. Tendência$$$.

Enquanto escrevo este texto – mas certamente não mais quando ele for lido – o que está fervendo no caldeirão multitendências das seções de moda é a estética barroca-gótica-maximalista, reforçada por uma inspiração monástica que elevou o alto clero a must have da estação – amém – numa doce e ecumênica convivência com toureiros, rockers, colleges e… esmaltes. Na nova estação, eles são combinados entre si e compõem desenhos geométricos que farão das suas unhas suporte não mais para uma, mas para múltiplas cores. Sim, várias cores, ao mesmo tempo, nas mesmas unhas. Aquelas, que protegem seus dedos de machucados, aplacam coceiras e, após passar horas servindo de tela para nail art, vão ter menos tempo para arranhar algumas costas aqui e ali. Tendência$$$ costumam ser boas para quem as fabrica.

A febre do novo é o motor da moda. A cada edição, a única certeza que vem do passado é que tudo já passou. Menos a nossa disposição para a mudança. Essa inesgotável energia que nos é solicitada para aprender e reaprender, visitar e revisitar, inventar e reinventar nossos looks, nossos corpos, nossas vidas. A lógica da moda, urgente e pragmática, sugere um permanente estado de prontidão e, à medida que se alastra pela maior parte dos conteúdos das revistas, sempre em um ambiente de profundo otimismo e autoconfiança, faz crescer a sensação de que estamos perdendo algo, algo nos escapou. O que será que foi?

Parece que acontece bastante com mulheres: diante de um armário lotado, sentimos aquela sensação de que não há roupa para vestir. Roupas, claro, há muitas. Talvez a real demanda não seja vestir, mas despir. Despir-nos de ritmos que não são nossos, ansiedades emprestadas, prioridades que não importam mais. O que mais estamos guardando nessas gavetas?

Denise Gallo é pesquisadora, mestra em comunicação e semiótica e dedica-se ao estudo das representações da mulher na mídia e na publicidade. Seu e-mail: dgallo@uol.com.br

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