Tainá Müller: Viver o presente sem abrir mão do futuro

por Tainá Müller

A atriz compartilha na Casa Tpm o texto que escreveu sobre a urgência de um olhar pro amanhã: ”Nossa dormência está hoje nas aglomerações da pandemia, no cidadão sem máscara, nas festinhas Covid-19”

Aos 12 anos um evento mudou minha vida. Era uma tarde ensolarada quando meus pais me levaram para o que seria a última visita à minha tia que estava terminal de câncer. Lembro do ar pesado ao adentrar a casinha simples de madeira, típica do interior do Rio Grande do Sul. Ao fundo sentada numa cadeira, a imagem irreconhecível da mulher com a qual convivi durante toda infância me impactou. Acho que mal consegui disfarçar. Quando ela nos viu, seus olhos encheram de lágrimas e um fio de voz começou a repetir “a praia, a praia, a praia...”.

Em seguida, desatou em um choro dolorido, que na hora todos entenderam: nós representávamos o mar que ela viu poucas vezes, quando ia veranear em nossa casa no litoral catarinense. Nos ver era a lembrança de tempos felizes na praia e ao mesmo tempo a certeza de que nunca mais veria o mar. Até hoje sinto um nó na garganta indescritível ao relembrar a cena. Ao voltar pra casa naquele dia, comecei a escrever um diário. Entendi que a consciência da finitude era brutal demais para carregar no peito e que precisaria desaguá-la para fora pelo resto da minha vida.

Minha tia, em seu choro salgado de despedida do mar, criou naquele momento um oceano dentro de mim. A noção da vida como ampulheta virada tem sido meu norte desde então. Nunca tive a sensação cantada por Renato Russo em Tempo Perdido. Nunca achei que temos todo o tempo do mundo. As pessoas mais próximas sempre me acharam ansiosa por causa disso e o conselho que mais ouvi nessa trajetória era parar de projetar o futuro e concentrar no agora.

Entendo, porque de fato o que temos de concreto é o aqui e agora. Viver um dia de cada vez é o grande desafio. É a chave para o que os budistas chamam de contentamento. Mas no plano coletivo, vejo que há uma cilada aí. Enquanto procuramos aplicativos de mindfulness para conseguir estar conectados no próprio corpo, não conseguimos como humanidade sair da gambiarra do imediatismo. E nos deparamos com o grande paradoxo da pós-modernidade, que é o de reaprender a respirar no presente e ao mesmo tempo construir um futuro possível. Pois se viver com a cabeça no que ainda pode acontecer é nocivo, não ter a consciência de que o futuro se constrói hoje pode levar a nossa espécie a se deparar com o próprio fim.

É como se o hedonismo consumista nos cobrisse os olhos e fizesse a gente esquecer que a morte nos aguarda. Não pretendo com isso ser tétrica ou mórbida, mas chamar a atenção para os ensinamentos que a consciência da finitude podem trazer. A morte é talvez a nossa maior professora, quando não nos negamos a encará-la de frente. Nossa dormência para essa questão está hoje nas aglomerações da pandemia, no shopping center virulento, no cidadão sem máscara, nas festinhas Covid-19.

Ao contrário do que pregam muitos dos coaches de bem estar, acredito que precisamos sair um pouco do carpe diem para olharmos urgente pro amanhã. Acreditar de forma cega que “a vida é agora” está para nós como o meteoro estava para os dinossauros. Inebriados nas nossas microtelas perdemos a capacidade de escuta do outro, de escuta do ecossistema do qual fazemos parte e de olhar para o horizonte. Todas nossas práticas para lidar com o stress parecem nos dizer para não perder o sono com o que ainda não aconteceu. Mas qualquer pessoa que acredite na ciência deveria estar insone ao saber das projeções de mudanças climáticas para a próxima década. Estamos nos acostumando a assistir notícias apocalípticas todos os dias e mudar de canal em seguida, sem absorver a informação.

Me desculpem por esse gatilho, sei que saúde mental nesse mundo tóxico é algo de delicado equilíbrio. Mas esse 20+20, ano predestinado quarentena, já estava marcado há décadas como data limite para o grande despertar. É tempo de revolução. Precisamos inventar um futuro no qual a gente reaprenda a ser bicho gente. Que a gente pare de ser disbióticos pro planeta e consiga se afinar com toda essa grande energia que nos deu a vida sem maltratá-la. E que nesse fluxo de troca a gente consiga devolver o tanto que pegamos, pois nossa Terra é abundante e se a gente fizer as coisas direitinho tem pra todas, todos e todes.

Que a gente possa usar essa pausa para criar utopias, pois só a imaginação e o amor por tudo o que é vivo pode nos tirar dessa ratoeira de ilusões que nos leva para o abismo. Por mais que cada um tenha seu apocalipse particular, há algo maior por se lutar. Somos um grupo potente que, se despertos, podemos entender muito mais a fundo o propósito de estar aqui. Ainda dá tempo. Mas, como diz um relógio da Casa do Sol, residência da grande escritora Hilda Hilst: "É mais tarde do que supões”.

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