por Antonia Pellegrino
Tpm #158

A massagem, as rosas, velas e calcinhas comestíveis. Hoje, tudo se resume a nude. selfies de pau, de peitinho e de bunda, sem cabeça, de preferência

Desconfio muito de quem não pensa putaria o tempo todo, escrevi anos atrás, me dando motivo pra desconfiar de mim mesma nesses dias correntes de calor e nudes arremessados aos celulares. selfie de calcinha meio tremida, um corpo em ação, pixelizado no grão invasor, borrado pelo breu. somos todos fotógrafos pornôs. estamos transando melhor? certamente mais. sem desperdícios em cinemas, jantares, "oi, vem sempre aqui?". one night stand e é isso, tô indo pra casa porque amanhã acordo cedo, porque não quero acasalar, porque conchinha me enerva. sempre me vi como um cara, um cara que tem preguiça monstra de certos hábitos femininos. um cara que entende porque há tanto gay no mundo. e que se fosse um cara, talvez seria gay também. como é que a gente fazia antes? nude é cor da pele, pele que se quer mostrar, sentir e ser sentida. mas sente? é com o sexo que a gente sente tesão? somos um planeta de masturbadores a dois. coisa linda a fala desimpedida das putarias tantas, a imaginação liberada. me pergunto se a boca que suga o próprio mamilo na foto é capaz de dizer as mais delirantes baixezas na cama. já que nudes são a antessala da putaria. a velha massagem, hoje nude. as antigas pétalas de rosa, velas e calcinhas comestíveis, hoje selfies de pau, de peitinho, de bunda, sem cabeça, de preferência. os nudes como um disparador de imaginação. desconfio muito de quem não pensa putaria o tempo todo. desconfio? a grafia da luz tosca dos nossos nudes inscreve o desejo em corpos, corpos abertos ao outro, ao contágio, ao atravessamento. algo no sexo é da ordem do atravessamento. do outro no eu. a antimasturbação por excelência. o nós. nossos nudes nos ajudam a atravessar corpos e se deixar atravessar? o que a selfie tem de exibicionista, o nude tem de solitude. a selfie é pra ser vista pelo outro. o nude, antes de ser visto pelo outro, é para ser visto por mim. um eu numa relação de prazer consigo mesmo. e é esse corpo que se curte que fisga o corpo do outro. a mais avançada técnica sexual é a mais velha: vontade, vontade incontrolável. nude é clima. é atmosfera. os borrados, os melhores. nude é a situação, a cena em que me lembrei de você. dentro do provador da loja de calcinha. qual você prefere? nude como um ato liberador, masturbatório no sentido de que não precisamos do outro, e por isso mesmo estamos prontos para encontrá-lo.

Antonia Pellegrino, 35 anos, é roteirista e escritora. Autora do livro Cem ideais que deram em nada e ganhadora do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro pelo roteiro do filme Bruna Surfistinha. Seu e-mail: a.pellegrino@terra.com.br

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