por Maria Ribeiro
Tpm #172

A maternidade mudou o filme da minha vida, me dando pequenas alegrias diárias. E, se o dia a dia com um já era de uma doçura sem fim, com dois a festa ficou ainda mais bonita

Fiquei grávida pela primeira vez aos 26 anos de idade. Na época, já intuía que ser mãe deveria ser um dos grandes prazeres dessa existência louca e sem garantia que a gente entra sem ter ensaiado. Eu não sabia como seria minha vida profissional, nem se seria feliz no amor, nem se encontraria Jesus, Buda, ou uma fé qualquer na qual me apoiar, mas tinha uma desconfiança boa e reconfortante de que procriar me daria algum sentido.
E eu não tava enganada. Tirando o fato de que não tive leite suficiente pra alimentar meu João com meu próprio corpo, o que me deixou culpadíssima, a maternidade de fato mudou completamente o filme da minha vida, me dando pequenas alegrias diárias, como ver um filho aprendendo a ler ou presenciar uma criança sensível virar um cara legal.
Meus meninos são garotos legais. Sete anos depois do João, veio o Bento, e, se o dia a dia com um já era de uma doçura sem fim, com dois a festa ficou ainda mais bonita. Os álbuns da Copa, o Brasil no Maracanã, os primeiros dias de aula, as idas ao cinema – quando eles olhavam pra tela e eu, pra eles –, tudo ganhou aquele filtro do Instagram em que a vida fica linda e mágica, e até hoje volto pra casa excitada por pensar naqueles dois pares de olhos castanhos descobrindo o mundo com tamanha pureza e entrega diante de mim.

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Ser mãe, nesse planeta virado do avesso, é uma atitude de guerrilha, e a minha trincheira é a da delicadeza, custe o que custar. Dói aqui, dói neles, e às vezes penso que educar meus filhos pra acreditar no outro é sofrimento garantido ou seu dinheiro de volta, mas, mesmo assim, vou em frente sem olhar pra trás. Ser bom é o norte, e isso importa mais do que aprender inglês, ganhar dinheiro ou ter reconhecimento profissional. Minha vaidade é essa, e o discurso pra eles no fundo é também pra mim. Evoluir por amor.

NÃO É SAGRADO, MAS É LINDO
Não sei se um dia vou estar pronta pra ser deixada de lado, que é exatamente o que deve acontecer – se tudo der certo. Ser a pessoa mais especial da vida de uma outra pessoa, no meu caso, de duas, e ainda mais do cromossomo y, dá um prazer imenso, e não tenho medo de admitir que há inclusive certo egoísmo nessa tal maternidade. Não é sagrado, não é pra todo mundo, não tem Procon, mas é muito provavelmente a coisa mais bonita que já me aconteceu.
Recentemente, comecei a ter aula de violão só pra estimular minha dupla, e, não sem estratégia, fiz uma peça de teatro com músicas que eles gostavam, mesmo tocando mal que só. Não sigo nenhuma cartilha de educação – só os livros da Rosely Sayão –, mas tocar um instrumento era uma coisa que eu sempre quis que eles fizessem. Pois bem. João tá fazendo os dedilhados do Red Hot Chilli Pepers e Bento canta, comovido, aquela música que diz que “não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si”. Eu olho pra eles cantando e fazendo os acordes e tento agir naturalmente, mas a verdade é que tô sentada no ingresso mais caro do melhor show da história.
Esse mundo onde a conta bancária não é soberana e onde ninguém descarta ninguém é o mundo que quero e acredito, e como a vontade é a força mais poderosa que existe, ele passa a existir agora. Agora, com você lendo esta Tpm, agora, com você ligando pra um amigo pra desfazer um mal-entendido, agora, com você mandando uma mensagem de amor, agora, com você estendendo a mão pro seu filho.

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Créditos

Imagem principal: Uinverso – Nadiuska e Priscila Furtado

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