por Nathalia Zaccaro

Em sua estreia como dramaturga, Luisa Micheletti reflete sobre arquétipos femininos em uma peça que transpira sororidade

Parece existir uma régua moral que divide as mulheres entre Evas e Liliths. Pela tradição judaico-cristã, a primeira representa a fêmea bela, obediente, que nutre e acolhe, enquanto a segunda simboliza a rebeldia, a ruptura, o imprevisível. Algumas interpretações da Bíblia dizem que, por seu comportamento, Lilith foi exilada do Éden. Os dois arquétipos femininos nunca teriam se encontrado.

"Parece que uma mulher não pode ser criativa e confiável ao mesmo tempo, ou não pode ser sexy e mãe. Parece que tem sempre um 'ou'", diz a atriz Luisa Micheletti. Ela passou os últimos meses mergulhada em textos e reflexões sobre os arquétipos femininos e seus impactos na vida das mulheres. A imersão se refletiu na primeira peça teatral escrita por Luisa, Soror, que estreia hoje (05/04), no Sesc Ipiranga, em São Paulo, e segue em cartaz até o próximo dia 5 de maio. O texto propõe um encontro entre Eva e Lilith, duas forças femininas que, enquanto separadas, se enfraquecem mutuamente mas, quando reunidas, se completam e empoderam.

“Eu sempre ouvi que ‘mulher é competitiva’ e que ‘homem é muito mais parceiro’, e isso me incomodava. Quando eu tinha uns 20 e poucos anos, comecei a sacar o feminismo, andar com mulheres que pensavam sobre isso, participar de festivais de rock feminista e aí comecei a questionar essa ideia”, conta. O nome da peça, Soror, remete à sororidade, conceito fundamental do feminismo, e que é um sinônimo de “irmã”, em referência às protagonistas da obra, Eva, vivida por Fernanda Nobre, e Lilith, encenada por Luisa. A direção está nas mãos de Caco Ciocler, ex-companheiro da autora.

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Trocamos uma ideia com ela sobre a estreia, se liga:

Tpm. Como você chegou nessa ideia?

Luisa Micheletti. Como mulher, sempre notei essa divisão que fazem a gente ter. Ou você é isso ou é aquilo. A partir do momento que uma mulher vira mãe, ela tem que ter um comportamento x, parece que a gente não pode ser tudo ao mesmo tempo, como os homens. Não pode ser criativa e confiável ao mesmo tempo, ou não pode ser sexy e mãe. Parece que tem sempre um "ou". E aí eu comecei a tentar entender de onde isso vinha, porque os homens não sofrem disso, não são cobrados. Intuitivamente vieram coisas bíblicas, porque eu já tinha lido sobre a Lilith, a mulher que teria existido antes de Eva e que é símbolo de insubordinação. Então eu resolvi brincar com isso. Na peça, elas ficam amigas, trabalho esse lugar da sororidade.

Deus é um dos personagens da peça? Sim, mas coloquei Deus como uma figura nada religiosa. Na verdade, Deus é um filho do patriarcado na peça. A ideia é que a união das mulheres é capaz de mudar a ordem do mundo.

Por que Lilith é tão pouco conhecida? Na Bíblia, a Lilith  não é nominalmente citada, mas algumas interpretações do Gênesis colocam a possibilidade da existência dessa mulher que não se adequou ao Éden, foi embora e virou um demônio. Os textos sagrados têm muitas interpretações, porque é tudo muito metafórico, nada é preto no branco. Ela é uma força feminina muito importante, embora seja exilada. Representa essa força que geralmente a gente expulsa da gente, ou a sociedade expulsa da gente. É a força da revolta, da insubordinação, da independência, da raiva. E a gente precisa disso para ser inteira. Ficam dizendo que a gente tem que ser boazinha, sorrir, ser fofa, e aí a gente fica fraca. E se a gente tem raiva, autoridade, poder, aí chamam a gente de mandonas, de histéricas. Esse encontro das duas forças femininas é a peça.

Quem você interpreta na peça? Lilith, a mulher que rompe. E a Eva é a mulher que nutre, que cuida, que engravida, que tem esse lugar de suavidade. E ela também é importante. A ideia da peça é juntar essas singularidades, porque parece que ou você é a Eva ou a Lilith na vida. E a ideia é você pode ser as duas, por que não ser as duas? Não temos que negar nada. Podemos ser todas.
Como é interpretar um texto que você mesma escreveu? O que muda? Tem que acontecer um desapego. Quando escrevi, pensei em como seriam as cenas, mas aí chega a direção, a concepção de luzes, de cenário e muda tudo. Então precisei de uma boa dose de desapego para lidar com as mudanças, mas isso é ótimo. As ideias preconcebidas têm que ir embora para a peça funcionar e é muito bom entregar na mão de outras pessoas, que têm ideias maravilhosas e até melhores que as minhas.

Quem dirige é o Caco Ciocler, seu ex-companheiro. É tranquilo ser dirigida pelo ex? É. A gente estava junto quando eu estava escrevendo e ele acompanhou todo o processo, estimulou também. Sempre foi uma ideia nossa montar o texto, então naturalmente a coisa seguiu.

Créditos

Imagem principal: Edson Kumasaka / Divulgação

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