por Redação
Tpm #172

O que querem as mulheres? O que é uma mulher moderna? O futuro é feminino? A Tpm investiu suor, energia criativa, tempo e dinheiro e conversou com especialistas para buscar as respostas

A Tpm investiu suor, energia criativa, tempo e dinheiro e se lançou ao longo
de seis meses num mergulho profundo em algumas das mais originais cabeças que despontam ao nosso redor – analistas de comportamento, psicólogos, psicanalistas, doutores, prostitutas, empregadas domésticas. Nomes como Djamila Ribeiro, Tai Castilho, Lia Teixeira, Jacob Pinheiro Goldberg, Maria Lucia Homem e Amara Moira abriram seus repertórios e saberes adquiridos ao longo de décadas em consultórios, divãs, bibliotecas, fogões e esquinas. O resultado deste trabalho você verá em tudo que fazemos, aqui na revista, nas redes sociais, em vídeos e em eventos.
A seguir, um resumo dos principais achados.

1. O que querem as mulheres?

Tantas conquistas, no trabalho e na cama, nos levaram a um lugar de estresse e esgotamento. O que deu errado? Por que deu errado? e por que não nos sentimos livres? A gente conseguiu muitas coisas que queria – hoje temos filhos sem precisar casar, casamos sem precisar ter filhos, transamos com quem quisermos, quando quisermos, como quisermos, quanto quisermos – mas isso não trouxe uma real libertação.

“A mulher não quer mais estar na empresa fazendo a mesma coisa e ganhando menos. Não quer mais ser desrespeitada em todas as instâncias”

Algo ainda nos causa angústia – e muitas coisas que queremos ainda não podemos fazer, ou nem todas nós podemos. A menos que convidemos a sociedade a jogar o jogo que ainda temos que inventar – o jogo feminino – e decidamos não mais provar que sabemos e podemos jogar o jogo desse sistema destrutivo, explorador e individualista – o jogo masculino –, não teremos um futuro. Nem feminino, nem masculino. O futuro terá simplesmente deixado de ser.

2. O que é uma mulher moderna?

Há 50 anos, parecia que o futuro seria aquele no qual a gente poderia liderar uma nação, liderar uma corporação. Conseguimos. Mas era isso que a gente queria?

“Vou parar de medir meu dia pelo grau de produtividade e começar a medir meu dia pelo grau de presença”

Embora sejamos presidentes e CEOs, não ganhamos a real sensação de ter conquistado nada muito significativo. Não há liberdade sem creches, sem assistência social, sem licença-maternidade, sem o direito a amamentar, sem equiparação salarial, sem o direito de interromper uma gravidez indesejada, sem representatividade legislativa, sem poder sair à noite sozinha e não ter medo. Não há liberdade na competição, no isolamento, no consumo desenfreado. Não há liberdade na exploração, na violação, na corporação. Nesses ambientes, tudo o que existe é um simulacro de liberdade, e isso não nos serve porque liberdade não é ambição, é condição.

3. É preciso ser feminista?

 Há quem pense que porque conquistamos  algumas coisas, para algumas mulheres, não há mais o que discutir – mas a verdade é que ainda estamos longe, bem longe, de um mundo ideal.

“Você não tem que ser quietinha. Não é porque tem um jogo de futebol que você tem que ficar na cozinha e os meninos na sala”

Vivemos em um sistema em que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, em que muitas (talvez a maior parte) ainda não têm liberdades básicas – sequer podem falar sem medo. Dá pra chamar de chata a pessoa que se levanta para se opor a isso? Mesmo que o processo possa ser, às vezes, encarado com certa leveza, a verdade é que transformações não acontecem dentro de ambientes confortáveis. É necessário causar algum incômodo a fim de mudar o estado de coisas. Nesse sentido, feministas são chatas, e a chatice é bem-vinda.

4. Somos livres?

A mulher não tem direito ao espaço público como deveria: somos alvo de violência, de assédio. Não há liberdade sem que as cidades sejam planejadas também para o feminino.

“A mulher, sem dúvida nenhuma, é de longe a grande vítima da opressão contemporânea”

A mulher ainda é a grande vítima da opressão social. Somos objetos. Pedaços de carne. Somos reduzidas a partes, como um boi no açougue. Na rua, somos olhadas como alguma coisa a ser devorada. Somos abusadas. Invadidas. Violadas. Verbal e fisicamente. Somos usadas para fazer a máquina do consumo girar. Mas o sistema é tão cruel que é preciso ser de um certo tipo para ter utilidade no capitalismo: branca, magra, jovem, recatada. A violência é brutal.

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5. Sexo: prazer ou angústia?

Tudo parece muito bacana nas conversas, nos posts, nos apps de pegação, mas nos bastidores não é assim que tem sido. será que a lógica do mercado contaminou até o amor?

“Em uma sociedade sustentada pela mentira, qualquer expressão de verdade é vista 
como loucura”

Sabemos que podemos transar com quem quisermos, quanto quisermos, como quisermos. Sexo já não nos oprime. Por que, então, estamos tão angustiadas? Talvez porque estejamos apenas reproduzindo a lógica consumista do “novo é sempre melhor”, e assim deixemos de aprofundar relações? Ou porque a gente mal sabe o que é o nosso prazer?

6. Como o machismo afeta o masculino?

Não são só as mulheres que são oprimidas pelo machismo: os homens sofrem (muitas vezes sem se dar conta) com as imposições desta sociedade.

“A procura do serviço sexual está intimamente ligada ao fato de a gente não saber falar sobre sexualidade”

No sexo e no desejo, as questões das mulheres são extremamente intercaladas com as questões dos homens: desde o prazer na cama até a violência sexual. Nesses temas, é preciso que exista uma libertação do masculino, é preciso que eles se abram para novas masculinidades. O homem também precisa participar mais do espaço doméstico, assim como a mulher lutou para participar mais do espaço corporativo: precisa assumir que é parte da vida de uma casa – e o que fizer é uma colaboração, não uma ajuda.

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7. O futuro é feminino?

A ideia de que se houver um futuro ele terá que ser feminino parece universal. E mais: só haverá liberdade se criarmos um futuro assim, solto das amarras da violência e da raiva.

“Você não tem que entrar sempre pela porta do fundo, você tem direito de entrar pela porta da frente também”

Mas esse não é um futuro apenas de mulheres, ou apenas para mulheres. Ele será livre quando pessoas de todos os sexos, cis e trans, valorizarem algumas características que hoje vemos como específicas do feminino. Mas não são: todos os seres humanos são capazes de se preencher de valores como a colaboração, a sensibilidade, o afeto e a capacidade de se mostrar vulnerável, que hoje pensamos, às vezes, como fraquezas. Sem entender a potência desses valores talvez estejamos mesmo confinados ao fracasso completo.

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Imagem principal: Manuela Eichner

Ilustrações: Manuela Eichner

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