por Milly Lacombe
Tpm #172

Amara Moira viveu como homem por 29 anos. Agora, mulher, doutora em literatura e ex-prostituta, conta como é a vida do lado de lá

Amara Moira vai mexer com suas crenças e é bastante difícil que, chegando ao fim desta entrevista, você ainda veja o mundo com olhos antigos. Amara é um evento: doutora em Ulisses, professora de literatura, trans e bissexual, além de já ter trabalhado nas ruas como prostituta. Aos 32 anos, é inundada por um tipo de sabedoria que talvez seja qualidade de travestis: um conhecimento do que é a condição humana sem as máscaras que as instituições impõem. É nas esquinas da vida noturna que o específico masculino se revela pleno, e Amara é bastante capaz de fazer a tradução e a interpretação do que ali acontece para todos nós que ficamos desse lado do muro.

Ela nasceu e cresceu em Campinas, numa família de classe média. Foi uma criança sozinha, excluída por ser considerada nerd, o que a fez se isolar nos livros. Aos 4 anos aprendeu a ler sozinha, os pais não sabem exatamente como. Aos 5, já alfabetizada e prestes a entrar na escola, soube que a coordenadora pedagógica pediu que os pais não a deixassem ler nem escrever por seis meses, para que ela esquecesse o que sabia e não atrapalhasse o andamento das aulas. E Amara se fechou no quarto e nos livros.

Viveu dentro de um corpo masculino por 29 anos e, como homem, teve namoradas e foi para a cama com outros homens. “Sempre me entendi bissexual, mas acredito que internalizei um bocado de homofobia”, diz. As relações que tinha com homens só podiam ser sexuais e sem envolvimento de afeto, “no limite entre o prazer e a punição”, explica. Já com mulheres, teve relacionamentos mais afetuosos, e desde o final da adolescência.

Quando se descobriu trans, com quase 30 anos, não sabia como iria dizer aos pais, que a princípio reagiram mal, mas depois perceberam que Amara estava feliz, e que já não era mais a pessoa fechada e isolada de antes. “Pela primeira vez construímos uma relação amorosa e de união. Eles se reinventaram para eu poder continuar existindo ao lado deles.”

LEIA TAMBÉM: Ser homem negro no Brasil é conviver com uma série de estereótipos, que envolvem gênero, raça e classe social

Pode parecer confuso que alguém que nasceu com genital masculino e sentia atração por homens queira existir num corpo de mulher e, nesse corpo, ganhe seios, mantenha o pênis e sinta atração por mulheres, mas são apenas as limitações de nosso entendimento que causam a confusão. Amara joga uma luz: “Uma coisa é o desejo, ou por quem você sente atração, e outra é como a pessoa se entende, como ela quer se ver e ser vista”. Amara é uma mulher com pênis, e é importante que pessoas como ela contem suas histórias e comecem a expandir nossa consciência e nosso entendimento de gênero, identidade e sexualidade.

Doutora em crítica literária (tem dois livros publicados: E se eu fosse puta? e Vidas trans – A coragem de existir), feminista, revolucionária, mais velha de três filhos, Amara fala rindo e oferece gentileza de sobra para explicar todas as coisas que parecem inusitadas para quem nasceu dentro de um corpo que nunca estranhou.

Tpm. Qual foi a primeira coisa que você sentiu quando se viu mulher pela primeira vez?

Amara Moira. Era uma sensação de liberdade imensa, uma sensação de leveza que eu nunca experimentei. Foi nesse momento que senti de forma mais contundente que a vida que vivi até ali era uma máscara, uma personagem, uma personagem que me impuseram quando nasci, por conta do meu genital, e que eu não sabia que poderia existir de outras formas. Acho que de repente poder me colocar para o outro como Amara, poder pedir para as outras pessoas me chamarem de Amara e poder perceber pelo olhar alheio que eu estava existindo como Amara me deu vontade de continuar querendo existir.

E o outro lado dessa aventura? É... tinha essa leveza e essa liberdade, como se viver fizesse sentido a partir daquele momento, como se eu começasse a entender um propósito. Mas existe também a parte violenta. Eu vivi 29 anos como homem para a sociedade e, nesse período todo, nunca tocaram no meu corpo sem meu consentimento. E de repente, a partir do momento que me veem andar como Amara em público, nas ruas, no metrô, ônibus, isso passa a ser uma experiência de ter que lidar com o assédio, com mãos que tocam em mim, com bocas que chegam no meu ouvido e dizem coisas muito baixas, obscenas e invasivas esperando que eu vá gostar de escutar. As pessoas acreditam que travesti e mulher existem porque gostam de homem e, nesse sentido, gostam de qualquer homem, qualquer um que queira estar com elas. E, se aquele cidadão se dignou a revelar o seu desejo pelo nosso corpo, temos que agradecê-lo por isso, e satisfazê-lo imediatamente. Então, essa é uma das questões mais delicadas de existir como Amara. Existir como Amara faz sentido, mas ao mesmo tempo estou sempre exposta a esse olhar fetichizado, objetificante, e que só consegue compreender minha existência em termos de gostar de homens.

Quando você se vestiu de mulher pela primeira vez? Esquisita essa pergunta. O que é se vestir de mulher? Várias mulheres se vestem como eu me vestia antes da transição, e hoje em dia praticamente só uso vestido, única roupa com que me sinto confortável, então não sei se faz sentido insistir nessa terminologia. Vesti por curiosidade roupas da minha irmã quando ainda era criança, sem nem imaginar que eu era trans, e depois disso passei quase duas décadas com medo de imaginar a possibilidade de usar de novo roupas consideradas femininas. Tinha medo de descobrir coisas, me perder nessas descobertas. Só muito recentemente, uns sete anos atrás, comecei a me dar conta do armário em que vivia e que era preciso abrir aquela porta e ir descobrir quem eu era. Eu não sabia o que era, só sabia que queria ser livre. Ser Amara pra mim é ser livre.

Mas no escopo dos abusos que o feminino sofre a travesti não está ainda mais ao extremo? Entendem na gente um “querer ser mulher”, e o tratamento que nos dão é bastante indicativo do que entendem como o que a pessoa que quer ser mulher procura. Querer ser mulher é querer transar com homens, querer se submeter ao desejo masculino, querer servi-lo. Então, nesse corpo novo, passo a viver na pele algumas questões que eu conhecia pelo feminismo, mas que ainda nunca tinha vivido.

Por exemplo? Por exemplo essa coisa do você diz não e a pessoa entende como sim. Você fala que está sentindo dor e a pessoa entende isso como prazer. Você está transando com um cara e você sinaliza a dor e o cara entende que sua dor é prazer, porque é dessa forma que o olhar masculino muitas vezes entende o corpo da mulher. Então, se ela está sentindo dor, ela está sentindo prazer; se ela falar não, ela está dizendo sim. E é sempre nesse embate, e naquele momento você vê que a sua palavra parece que não conta. O que quer que você queira dizer vai ser interpretado de uma outra forma, por um filtro misógino, machista. 

O que é fascinante é que você estava do outro lado, viveu como homem por 29 anos. Dou palestras e uma vez teve um homem que chegou e falou: “Poxa, minha esposa é feminista e ela sempre fala várias coisas para mim e hoje, ouvindo você, consegui entender o que ela diz”. Talvez por eu já ter vivido as duas experiências consiga encontrar as palavras que escancarem essa violência, porque essa violência foi escancarada pra mim.

A sua vida como homem era muito diferente da que tem hoje como mulher? Eu tenho certeza absoluta de que, durante 29 anos, minha vida foi diferente do que tem sido nos últimos três. Então, talvez eu entenda quais mecanismos verbais usar para que esse cara entenda o que eu quero dizer. Muitas vezes falo sobre a cantada, essa cantada que a gente sofre na rua, que é o cara brincando com os nossos medos. Muitas vezes eles nem têm compreensão de que eles estão ali brincando com os nossos medos, brincando de poder, sabe? Você está andando na rua, ele brinca com você, ele acha que é apenas uma brincadeira. Ele acha que é uma brincadeira brincar com o seu medo. Como o cara para quem sinalizo que estou sentindo dor e ele continua a transa, fica mais excitado por isso. Ele também não tem consciência de que ele está me violentando. Eles são capazes de cometer as maiores atrocidades e violências sem ter qualquer compreensão disso.

LEIA TAMBÉM: Ainda precisamos falar sobre gênero

Como sair desse lugar de opressão? Um dos desafios nossos, do feminismo, é começar a furar esses bloqueios que existem, e começar a fazer esses caras repensarem suas próprias atitudes. Senão a gente continua tendo que estabelecer um front de guerra entre homens e mulheres.

Foi o que aquele feminismo dos anos 60 fez, o nós contra eles. Foi importante para conquistar um espaço, mas talvez agora a batalha seja uma outra. Quando a gente compreende que existem homens e que homens são violentos passa a ser importante a gente pensar em modelos de educação que não reproduzam essas violências. A gente não pode simplesmente constatar que homens têm um comportamento violento e querer estabelecer um front de guerra. Eu acho que a gente precisa começar a pensar em termos de uma educação transformadora, de outros modelos de homem.

Como? Eu vejo muitas feministas, por exemplo, falando que homens são criados para serem insensíveis, para sempre levar o seu corpo ao limite, para estar sempre tentando demonstrar o quanto eles são capazes, o quanto eles são poderosos e importantes. Isso é extremamente útil para o capitalismo. São corpos a serem usados pelo capitalismo e pelo Estado em tempos de guerra ou em tempos de paz, nas indústrias... Um corpo sempre sendo levado ao limite, a coisa da masculinidade, do eu dou conta. Então você carrega mais peso do que você dá conta, você faz mais do que você deveria dar conta, porque você é homem e homem dá conta. Entende? Existe um propósito que vai além. Cria-se esse homem, esse homem violenta mulheres, mas esse homem também está sendo usado para um interesse maior do qual ele não tem nem consciência. 

O sistema nunca vai desencorajar a gente a funcionar nesse modelo. Nesse sentido, a ambivalência do universo trans traz uma nova luz. Por exemplo, esses homens que foram criados para serem mulheres por conta de terem nascido com vagina sabem como ninguém o que é ser criado para ser mulher. Eu tenho muita expectativa, muita esperança, de que essa seja a primeira geração de homens feministas, que tenham consciência do que é ser criado para ser mulher e das limitações que são impostas a essas pessoas, desde criança, só por conta do genital com que nasceram. Que esses homens trans sejam instrumentos de transformação da sociedade.

Algumas mulheres entenderam que vencer seria ser CEO: mulheres casadas, que têm filho, que chegaram lá e passam a mensagem “Basta querer que você consegue”. Nem todo mundo pode ter cinco babás para dar conta de ser uma profissional de sucesso. Acho que é essa a questão. A gente não quer simplesmente que as mulheres de elite tenham as mesmas condições dos homens de elite. A gente quer que todas as mulheres tenham as mesmas condições de todos os homens. A gente quer que todas as mulheres negras tenham as mesmas oportunidades das mulheres brancas, e o que os homens negros também tenham.

Não dá para falar em feminismo sem falar de consciência de classe? Não dá, ou a gente só resolve a situação para um grupo muito elitizado de mulheres. Nos últimos tempos o número de feminicídios envolvendo mulheres brancas diminuiu e o de mulheres negras aumentou. É como se o feminismo estivesse dando certo para um determinado grupo apenas: mulheres brancas em geral, mas especialmente de elite, que já podem transformar o feminismo em uma mercadoria. É perigoso porque aí começa a ter cerveja feminista, revista feminista, bom, revista tudo bem, né [risos], camiseta feminista...

E assim a mensagem vai sendo esvaziada. Então, de repente, ok, decidem que o mundo é das mulheres. E aí você coloca isso numa estampa de camiseta, e isso não está efetivamente mudando o mundo. É só uma mensagem vazia se ficar reduzida a isso. A gente precisa começar um procedimento de organização das mulheres, de elas se sentirem em mais condições de se organizar politicamente e em movimentos sociais, conseguirem acessar os espaços de tomada de decisão do poder.

Li uma vez uma psicoterapeuta que estuda a relação de forças entre gênero dizer que quanto mais bem-sucedida a mulher, mais abusada ela é dentro de casa. Uma coisa muito comum é o homem se sentir diminuído por ganhar menos. Se sente menos homem e isso cria um monte de ressentimentos e rancores, que vão destruindo a relação e, antes, essa mulher também. Esse cidadão não consegue lidar com o fato de que ele não é o protagonista daquela relação. A gente tem primeiras-damas, e o primeiro-damo [risos]... Não tem nem nome pra isso.

Quem é o homem que procura pelos serviços da travesti? Mesmo o cara que tem uma relação estável com a mulher busca a travesti porque essa procura está intimamente ligada ao fato de a gente não saber falar sobre sexualidade. O desejo desse homem, o que importa enquanto desejo para esse homem não pode ser dito para a pessoa que ele ama, para as pessoas que ele respeita, para as pessoas com quem ele convive, porque dizer vai deixar ele em uma situação delicada em termos de “vou ser menos homem se eu falar para a minha companheira que gosto de fio terra”. Às vezes até consegue falar do fio terra, mas não do passo seguinte. Para quem ele vai falar isso sem pudores? Para a travesti. Nós somos aquelas para quem tudo pode ser dito. A gente está completamente à margem, não vai cruzar com esse cidadão no shopping, no bairro onde ele mora, no colégio onde os filhos estão estudando.

LEIA TAMBÉM: Tudo o que você sempre quis saber sobre pessoas trans, mas tinha medo de perguntar

É uma armadilha para os homens também, não? O sistema marginaliza as profissionais do sexo, mas marginaliza porque tem aí uma utilidade. Isso entra como compensação para que a gente possa escutar essas coisas que esse cara não vai poder falar, porque ser homem implica ser homem inclusive na transa. É uma constante afirmar-se homem. Não tem a ver com prazer: tem a ver com se afirmar homem. Aí vão procurar a gente para poder tirar essa máscara que o machismo impõe a esses homens, e respirar ar puro por alguns minutos, e depois colocar de novo essa máscara, e até mesmo sentir nojo de ter vivido aquele desejo, porque aquele desejo é considerado abominável para a sociedade.

O universo das profissionais do sexo acaba sendo o respiro de um sistema de opressão terrível e cruel. Essa é uma questão terrível, porque podia ser diferente. Podia ser simplesmente uma pessoa que chega para a gente e fala: “Olha, eu sei transar muito mal, eu tenho muito pouco conhecimento do meu corpo em termos de zonas erógenas, de zonas de prazer, me ensina a experimentar um pouco mais, a explorar o meu corpo”. Uma educadora sexual, uma pessoa que está ali determinada a fazer uso do seu saber sexual, do saber do corpo. A gente sabe lidar com diferentes corpos, com desejos diferentes, com prazer, com fantasia. A gente podia ser tratada como algo mais do que objetos, ser valorizadas por isso. Em debates sobre sexualidade, a prostituta nunca é chamada. E prostitutas são quem têm contato com o sexo que existe, um contato com o desejo que existe; não o desejo que deveria existir, o que existe de fato. E se for falar com a gente vai descobrir que nem sempre é a penetração, ou não é a penetração nesses termos. Sexo é tão mais...

O que essa sua experiência como prostituta ensinou a respeito do universo masculino? Eu tinha essa noção de que homens procuravam prostitutas como um exercício de liberdade sexual, e me dei conta de que eles procuram porque é proibido que eles vivam a sexualidade da forma como imaginam ou desejam. A gente gosta de pegar a pessoa que tem desejos pervertidos e jogar na fogueira, mas esquece que a sociedade está produzindo pessoas que têm aquele desejo. E jogar aquela pessoa na fogueira só vai resolver esse sintoma, não o fato de que a sociedade continua produzindo pessoas que desejam daquela mesma forma. A gente precisa começar a reconhecer o nosso papel enquanto sociedade por criar tais e tais desejos. E pensar de que forma podemos criar pessoas mais livres em termos de sexualidade. Para isso vai ser preciso a perspectiva da prostituta. Senão, a gente vai continuar lidando com o fantasma.

Os corpos que são aceitos e celebrados. A gente entende na prática que os homens mais saradões e bonitões às vezes são os que pior entendem do que fazer na cama. E o quanto pode ser prazeroso estar com corpos que estão completamente fora desse padrão de beleza e masculinidade. A gente pode falar coisas muito concretas de como romper com as expectativas que os padrões impõem.

É tudo torto e desvirtuado, mas incrivelmente conveniente para o status quo, que finge se indignar com esse estado de coisas, mas não cria mecanismos para transformá-las. Por exemplo, uma menina de 12 anos já chega na rua e recebe cantada, porque, nossa, que bundão, que mulherão, vai dar trabalho pro pai. Que história é essa de vai dar trabalho pro pai? Que história é essa de olhar de maneira lasciva, com desejo sexual, para uma criança de 12 anos, às vezes menos? Quando surge aquela hashtag “meu primeiro assédio”, a gente descobre que é com 8 ou 9 anos a primeira vez que a criança é tratada como objeto de desejo sexual. Essa questão de que falam que a mulher amadurece primeiro que homens é só mais uma forma de justificar o assédio em crianças e adolescentes. É perigoso. Elas amadurecem no mesmo tempo, 
não interessa olhar pro corpo e pensar “Ah, já tem um corpo de mulher, então já pode ser assediada”. Isso é bastante baixo e a gente precisa começar a contrariar e a contrapor essas compreensões.

Você ainda faz programas como prostituta? Faz algum tempo que não, mas os motivos são curiosos. Para trabalhar na rua, é bom que você esteja entre amigas e só em Campinas eu tinha amigas fazendo rua. No entanto, o blog no qual eu escrevia sobre os programas foi ficando famoso e, nas últimas vezes que fui, percebi que os clientes não estavam mais parando por me identificar como problema: a travesti que fala mal dos clientes na internet. Aí voltava sempre no negativo. Agora estou morando em São Paulo e, como a rua é um lugar onde a gente está supervulnerável, é importante que as suas colegas de trabalho sejam suas amigas também. Mas quero voltar mais para a frente, voltar e continuar escrevendo sobre isso, porque a perspectiva que se tem da sociedade ali é muito reveladora.

O que você diria a uma pessoa que, no silêncio do quarto, confessa a si mesma que tem tesão por mulher com pênis? Mulheres estão se engajando cada vez mais com o feminismo, se desconstruindo, e, como consequência, vê-se que elas estão muito mais dispostas a assumir o desejo que por acaso venham a sentir por nós. Homens ainda estão muito presos aos padrões de como homens devem ser, aí seguem em geral nos tratando como capricho, fetiche, objetos, o que é uma forma de nos violentarem e também de se violentarem. É hora de homens começarem a problematizar mais suas amarras, senão jamais vão aprender a construir relações saudáveis e transparentes, jamais serão capazes de retirar a máscara que o machismo botou em seus rostos, a máscara do jeito certo de ser homem. Não existe esse jeito.

É muito difícil pensar em uma sociedade mais justa e igualitária sem que exista uma revolução sexual? A pulsão sexual é o que move o ser humano. Por exemplo, o cara chega, tá chapado de tesão, e aí ele vai dizer que você é a coisa mais linda que ele já viu na vida, que ele casaria com você, que ele te ama, você é mais mulher do que muita mulher, um monte de baboseira dessas. De repente ele goza, lembra que você é uma figura abjeta para a sociedade, que não deveria sentir desejo por você, e começa a sentir nojo de ter sentido desejo, começa a não conseguir mais interagir. Não toca mais em você, não olha mais na sua cara, ele só quer sair dali o mais rápido possível. E a travesti tem que lidar com essa montanha-russa de emoções a cada programa. Ele está lá por desejo, por algo que atravessa o imaginário dele: a mulher com pênis. Às vezes não quer ser nem passivo, ele só quer transar com uma mulher que tenha um pênis, e depois ele não suporta a ideia de ter feito isso, de ter desejado isso. A gente precisa discutir sobre essas questões que estão no imaginário.

O que falta para a gente mudar tudo isso? Uma educação que implique convivência de diferenças: ricos e pobres, mulheres e homens, brancos e negros podendo estudar nos mesmos espaços e tendo as mesmas oportunidades. Hoje a gente vê que quando a mulher faz uma questão na sala de aula, e a questão é entendida como boba, ela é ridicularizada, enquanto os homens se permitem dizer as maiores abobrinhas, falar as maiores besteiras, mas com a tranquilidade de quem sabe que tem o direito de falar.

Você já sentiu isso na pele dos dois lados? Sim. Fiz minha transição muito tardia, né? Tive um adestramento grande para esse tipo de situação. Depois da minha transição comecei a perceber que as mulheres ao meu redor recebem esse tipo de tratamento. De repente eu estava numa reunião com mulheres e uma mulher estava falando e eu cortava a fala dela. Eu espero que ela corte a minha em seguida, que a gente fique cortando a fala uma da outra, só que não. Eu cortei a fala dela, ela me deixa terminar e às vezes não volta a falar. 
É como se eu tivesse dizendo que ela não tem o direito de falar. É como se ela sentisse que talvez ela não tenha algo de interessante para falar. E aí eu começo a ter que me policiar para não fazer esse tipo de coisa. Eu lembro de um orientador que falava “As mulheres, quando elas tiverem que falar, elas vão falar”. Então elas não estão falando porque elas não têm o que falar? Isso é uma violência absurda. É uma incompreensão absurda do que existe em termos de criação para ser mulher, criações para ser homem, das limitações que são impostas a cada existência.

E quem aponta essas manifestações subliminares e cotidianas de machismo passa a ser o chato. É. E talvez eu tenha internalizado esse meu direito de falar, por ter vivido tanto tempo daquele outro lado, e hoje eu não consigo me desdar esse direito [risos]. Mas eu consigo perceber quando pessoas não estão se dando esse direito de falar mesmo tendo o que dizer. E aí eu tento atuar nesse momento em romper com isso. Algumas pessoas que se dão automaticamente o direito de falar e algumas pessoas que não se dão o direito de falar, para que todo mundo sinta que tem esse direito.

Você bagunça muito a cabeça das pessoas, uma travesti com doutorado. E uma travesti bissexual. Eu tenho uma companheira [risos]. A gente anda na rua e as pessoas não sabem o que pensar.

O que Ulisses te ensinou sobre a condição humana? Quando começo a me aproximar do feminismo e a entrar em crise com a vida universitária confesso que tentei romper com [James] Joyce porque estava cansada de só ter homens para a gente admirar na literatura. Só que eu já tinha estudado muito Joyce, então tinha todo um acervo de citações para jogar no papel. Já estava na metade do doutorado quando começo a me sentir oprimida por aquele objeto de estudos. Pensei: “Já que vou ter que continuar com Joyce, vou tentar destruí-lo. Vou pra cima dele e acabar com esse machista cuzão”. E foi difícil, ele é muito escorregadio, sabe? Ele tem personagens que são muito machistas, mas parece que o próprio texto está ironizando esses personagens, colocando eles numa posição de ridículos por serem machistas, reduzindo todos a marionetes do patriarcado. Parece que Joyce tem uma compreensão desse debate sobre gênero de uma forma que não se colocava naquela época. Tentei odiá-lo, mas descobri que talvez ele seja um daqueles poucos para ter como um aliado.

Funciona em português também? Em partes. Pensar que tradução é sempre uma falsificação ou uma simplificação do texto é, em parte, verdadeiro, em parte, não. Alguns textos a gente só vai ter acesso pela tradução. A Bíblia, por exemplo. Homero... A gente não vai mais aprender a ler grego e aramaico. Ou seja, acho que a tradução cumpre um papel. O tradutor, na medida do que ele é capaz de ver, vai tentar traduzir aquilo, e forçar o português a ir além do que iria naturalmente. É o que eu gosto muito em tradução. Sua língua vai até um determinado limite e diante do desafio de tentar traduzir aquela obra, você leva o idioma além.

Por que Ulisses e por que Joyce? Eu era medievalista na graduação. Estudava as cantigas de escárnio e maldizer dos trovadores, em especial a questão dos xingamentos LGBTfóbicos nessas cantigas. Conheci Joyce no último semestre e pirei. O Ulisses me sugou duma maneira que tornou até difícil terminar o TCC. Aí já engatei um mestrado e doutorado sobre Joyce, esse autor que leva às últimas consequências a experimentação com a linguagem, essa obra escorregadia, sempre reinventando o que tem a nos dizer, parecendo ter o que dizer sobre tudo. Mas foi a pessoa que eu fui quem amou Joyce. Eu, hoje, Amara, tenho uma relação de admiração intensa por ele, mas desde a minha transição a escrita das mulheres – [Hilda] Hilst, [Clarice] Lispector, Carolina de Jesus, Ana Cristina Cesar – vem assumindo o centro das minhas atenções. Estou um pouco cansada desse protagonismo que a gente dá para os homens.

JÁ NAS BANCAS!

Créditos

Imagem principal: Bob Wolfenson

matérias relacionadas