por Karina Buhr

Passa a boiada na correria. Demora uma vida pro último boi, mas é feito pressa de raio.

Passa a boiada na correria do dia.

Demora uma vida pro último boi, mas é feito pressa de raio.

Garante o leite, a vaca, o couro do boi, a picanha do almoço, o osso pro outro bicho e o bicho preguiça e o da seda desistem.
Todos os dias de manhã eles desistem e voltam a tentar tudo de novo, mais próximo do meio-dia, porque não tem jeito, fazer o quê?
Vai dizer que trabalha muito e até trabalha, mas tem vontade mesmo de ficar no mar, num rio, numa lagoa, numa piscina não, porque é pequena.
Dá vontade até de não ter vontade, mas pior que tem tantas...

Dá uma pena esses dias. 
O dia escravo da gente, a gente escravo do dia, todos em estado de escravo, do governador do nosso estado, do presidente dos Estados Unidos, do representante da fábrica de tecido, de comida, de computadores.

De roupa também. Contém escravos.

No Brasil oficial, isso faz tanto tempo...

Era pra não esquecer, mas não esquecer num sentido de ter memória e não com as coisas diárias te lembrando toda hora que não é lembrança nada, é aqui e agora e que faz tempo que começou, mas ainda não acabou.

Se são diárias não são lembranças.
Lembrança é melhor, mesmo quando é ruim, porque não esquece.
Se esquece, repete.

O mundo é do dinheiro, somos pessoas com preço.
Pessoas com preço menor, pessoas com preço nenhum.
Pessoas com mais preço, se sentindo bem, embriagadas pelo alto preço próprio.

Escrevo de nós e de outros.
Juramos que escrevemos juntos.

Vai que um dia vira.

Tem até andado virando.
E ainda é luta e briga.
E guerra pra se provar da justiça, pra se tirar terra de quem escraviza.

De quem é escravo é fácil tirar.

É fácil, pra quem tem, tirar qualquer coisa de quem não tem.

Como se o pouco fosse nada, como se nada, pra alguns, de fato fosse o certo.

Fácil atirar também.

De longe e até de perto.
Fácil não apurar, não procurar provar.

Difícil é provar da dor.
Fácil é até levar um tiro no palco. Teatro. Show da morte.
Cacilda Becker teve é sorte.

Dinheiro incomoda muita gente.
Polícia incomoda muito mais.
Incômoda de nausear, afogar em mágoas, de magoar a própria tristeza, coitada, despreparada.
Banzo ancestral.
Se a vida não vale um nome...
“Morreram dez suspeitos” em troca de tiros.
Tiro não se troca. Tiro é outro troco.
“Assassinaram dez pessoas” devia dizer a notícia.
Mas quanto vale um nome num anúncio da polícia.
Notícias correm irresponsáveis e ainda bem que existem outras.
Morte matada de sobremesa.
A primeira pessoa anda com problemas faz tempo.

O Brasil às vezes não sabe falar.

O Brasil também fala muito bem.
O mundo parece com o Brasil.

O Nordeste também.
O Brasil é um certo Rio, um certo São Paulo.
Outros choram.
Sem nome.

MC Daleste é um nome bonito.
Nome com endereço de sobrenome. Um nome mirado.
9 (ou 13) na Favela da Maré. Nem um nome. 
Nome é importante.
Número é importante. Seis MCs assassinados em três anos em São Paulo.
Lugar também é importante.

Nomes aos bois.
Os que passam, devagar no dia rápido e rápido no dia lento.
Quem mata o suspeito por direito?
Suspeito não é nome.
Diga o nome do homem!

Um grave acidente, numa avenida grave da cidade.
Um amigo viu uma cabeça de cavalo decepada.
Como cabeça de boi.
Perguntou pro homem se tinha tido morte.
Ouviu que morreram seis pessoas e uma mulher.
Mulher é como vaca.

Luana apanhou, mas é rica, Joana apanhou, mas é pobre.
O juiz ajuíza no salão nobre.
Seguimos, comendo migalhas, jogando migalhas, espalhando e respirando as tralhas, raspando as traças, boiando de graça.
Dormindo na curva.
Batendo no outro.
De olho no choro. De molho na chuva.
Melhor assim.
Bem pior assim.

 

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Créditos

Texto e ilustração publicados na edição de agosto da Revista da Cultura

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