7 coisas doces

Do pirulito ao poema. Do melodrama à água com limão. Alguns tons doces e outros nem tanto

por Antonia Pellegrino em

Tpm / Comportamento / Diversidade

1. A doçura como característica feminina. Clichê, preconceito, receita de bolo. E forma de dominação. A mulher doce quando quer alguma coisa age pelas beiradas, de modo malicioso. Clichezaço combatido em letra de música. Doce? Quando queremos. Mas sobretudo furiosas, guerreiras, inconformadas, poderosas, afirmativas.

2. Tudo o que entra doce na boca fica ácido no corpo. Tudo o que entra ácido (ou amargo) na boca fica doce no corpo. Princípio regulador do pH sanguíneo. Que me faz tomar limão com água morna pela manhã. É isso. Não pra emagrecer, e sim pra alcalinizar. Quanto mais alcalino, mais o sangue afina, acredito. A pele cheira a bebê e os mosquitos passam longe. Quando mais ácido, mais cheiro de casa de velho. Nada contra velhos. Aliás, quem me disse isso foi um velho querido, poderoso e vital. Mas tudo contra a acidificação do sangue, uma chuva ácida na carne, um rio turvo nas veias.

3. Doçura de ideia: quando aqui se fala ménage nossos neurotransmissores bombam imagens de duas mulheres e um homem. Associação imediata. Descolar associações imediatas. Ver o que nisso há de manutenção de certas estruturas. E associar ménage a dois homens e uma mulher. Ou três mulheres. Ou três homens. Três trans. Duas trans e um macho. Uma trans e duas gatas. São inúmeras as possibilidades.

4. Da cantora ao seu guitarrista: “Qual é o tom?”. “O tom é doce.”

5. Memória de viagem: nas últimas férias de verão na praia, liberei os doces aos meus filhos. Toda tarde tinha picolé e pirulito. Séculos que eu não chupava aquela bola rosada de açúcar com um chiclete dentro. Pedi. Na boca, um óbvio gosto de infância. Dividi com as crianças, gostando de trocar saliva daquela maneira com meus pequenos. Fui até o fim, mordi os pedaços grossos do açúcar empedrado e mastiguei o chiclete. Quando ficou sem graça, cuspi na lixeira. E logo comecei a sentir açúcar pegajoso viajando pelo meu corpo. Deixando um rastro viscoso de pregar vísceras. Obstruindo a passagem. Colando as paredes do meu intestino. Enjoei. Quase vomitei. Mas o quê? Açúcar chupado? Tomei água, muita água sempre limpa. E proibi, terminantemente, mesmo em férias, que as crianças chupem pirulito. Feliz daquele cujo gosto de infância é uma espiga de milho ou uma batata-doce.

6. Para alcalinizar a excessiva doçura do melodrama, coloque sempre o riso – de preferência misturado à lágrima.

7. O mel da maravilha: ver minha filha dormir, estancar os músculos do tempo que passa depressa, a não ser a cada lenta inspiração e expiração – a matéria trabalha enquanto ela dorme. Ioio dorme com as palmas unidas próximas ao rosto e um paninho junto ao peito. Se vira, se mexe, esbarra na mãe. E desperta, vagarosa. Meus olhos negros nos seus olhos escuros. A gente sorri com os dentes, e com os olhos. Em silêncio, ficamos juntas, quietas, ouvindo todo o amor murmurante que corre pela caminha onde me deito apertada, pra velar seu sono, e dizer, ecoando um antigo poema de circulação pública e íntima: minha filha Iolanda dorme.

 

 

 

 

 

Créditos

Ilustração: Laura teixeira

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