por Peu Araújo
Trip #274

Flora Matos se prepara para os 30 anos se livrando do peso do julgamento do rap e à vontade pra se sentir bela

Flora Matos está num belo gramado, diante de sua confortável casa na Granja Viana, em São Paulo, às vésperas do embarque para uma gravação no Rio de Janeiro. À sua volta o tempo corre no ritmo da metrópole: o despacho da mala, o voo, o trânsito, mas a MC funciona numa outra lógica. É uma força da natureza, dessas que — tal e qual o mar ou a chuva — não se controla. Com o motorista do táxi esperando sem sorrisos do lado de fora, ela escuta, antes de partir, os últimos versos, ainda não masterizados, de uma música que provavelmente não terá refrão.

No ano em que completa 30 primaveras (escorpiana, ela faz aniversário em novembro), a rapper de Brasília está em busca do amadurecimento, segundo ela mesma, tardio. “É meu momento de liberdade com o meu corpo, independentemente do padrão que eles acham ideal para o rap. Ainda não é aceitável para muitos deles que as minas estejam se mostrando.” Entenda por eles a ala mais conservadora e machista do rap. “Isso precisa ser quebrado. Imagina se a Negra Li tivesse posado nua há cinco, dez anos. Era problema na certa.”

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A MC revela sua predileção pela fotógrafa Autumn Sonnichsen. “Eu sei por que ela faz foto e acredito que seja para despertar o mulherão que existe em cada mulher. Ela fez isso em mim. Me ajudou a mostrar isso que o mundo precisa ver.” Este é seu primeiro ensaio sensual e Flora o classifica como “um presente para o rap, principalmente para as mulheres que rimam, para que elas se sintam mais à vontade com o próprio corpo independentemente do que eles disseram, dizem ou vão dizer”. E destaca o instante em que ele será publicado. “Acho que casou com o meu momento de ‘velho, que se foda que os gurus do rap nacional, os chefões acham disso’.” 

Na estrada

Sua caminhada no hip-hop não é curta e muita coisa mudou desde os tempos em que participou da mixtape Rotação 33, de KL Jay (Racionais MC’s), em 2007, quando cantou ao lado do MC Fator uma versão de “Véu da noite”, da Céu. Num registro de uma apresentação no Teatro Odisseia, no Rio de Janeiro, há uma década, dá para ver uma Flora Matos tímida em sua camisa xadrez, mas que em um dos versos entoa: “Sentido avenida Brasil, saindo da zona sul, noite escura se abriu, eu tô voltando pá tu. Escuto vários ‘psiu’, mas mando…”. Depois de lançar uma mixtape com o Stereodubs em 2009 e finalmente seu primeiro disco solo no ano passado, segue mandando os homens tomarem lá mesmo, porque assim como o mar ou a chuva, há coisas que não se controlam. “Até certo ponto, achei que dependesse muito da aprovação dos caras para existir na cena e acabei de descobrir que não, e foi muito foda isso.”

Os sinais de amadurecimento de Flora vão aparecendo, assim como seu corpo neste ensaio. Mais serena, ela reflete sobre as pedras que quebrou em mais de uma década nos palcos e estúdios, um tempo em que praticamente o único nome de mulher nos flyers de show de rap era o dela. “Eu já me masculinizei muito, já me escondi dentro das roupas, porque se você tá bonitona pra caralho em cima do salto, muitas vezes isso ainda é visto como disponível.”

Sua primeira música a virar hit foi “Pretin”, de 2009, uma cantada bem maneira e uma espécie de resistência num cenário formado majoritariamente por homens. “Eu não tava muito pronta para bater de frente com tudo o que precisava para ser aquele mulherão. Talvez eu ainda não estivesse pronta, com bagagem e um escudo na mão.” A canção, porém, foi importante para que Flora desse ao menos um passo. Com medo das especulações de que seu talento era atrelado a algum homem da música, ela evitava se relacionar. “Tinha um cara que eu era a fim pra caralho, morria de vontade de pegar ele há anos. Depois que a música bateu e tava maneiro, que tava fazendo meus shows, pagando minhas contas, morando num apê daora e eu podia levar ele lá, falei: ‘Tá, agora vou ficar com esse cara, porque, se falarem, já garanti o meu lugar’.”

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Flora mostra desconforto também com o policiamento sobre sua vida sexual, mas fala de seus relacionamentos com colegas de profissão. “Já peguei alguns rappers. Mas só namorei com os melhores poetas, os que tinham as rimas nas quais você realmente mergulha. Não tem coisa mais afrodisíaca do que poesia bem-feita.”

Enquanto fuma seu tabaco com haxixe, Flora faz uma avaliação categórica sobre o espaço delas no cenário musical em que vive. “É muito difícil uma mulher se manter viva depois de errar uma vez dentro do rap.” Viva e com planos para o futuro, que envolvem construir um estúdio na casa em que mora ou se mudar para o Rio, ela acaba de quebrar mais uma barreira em sua caminhada.

Créditos

Imagem principal: Autumn Sonnichsen

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