Apresentado por Suvinil

Erica Mizutani: transformando a vida em arte

A artista paulistana traduz sentimentos em ilustrações e espalha seu traços por telas e muros do Brasil ao Japão

Por Redação 24 de agosto de 2020 Compartilhar
"A arte transforma e impacta tanto a sociedade como o próprio artista. Ela movimenta ideias e também traduz mensagens do que acontece no mundo", diz Erica Mizutani. Mizú, como é conhecida, mergulhou fundo no universo ao seu redor e dentro de si mesma para construir suas referências artísticas, que hoje estampam telas, paredes, roupas e outras tantas plataformas pelo Brasil e pelo mundo. Aos 46 anos, a artista paulistana usa em seus trabalhos formas naturais e orgânicas, passando em alguns momentos pelo abstrato para criar um universo onírico cheio de transparências e combinações de cores. Na (em)Casa Tpm, Mizú participou de uma live paiting apresentada por Suvinil para refletir através da arte sobre o isolamento e suas consequências. O resultado, uma obra batizada de "Banho Maria", foi doado para a Preta Hub, uma aceleradora do empreendedorismo negro. A ideia é que a tela seja leiloada e os recursos revertidos para a instituição. A Tpm bateu um papo com Mizú sobre pandemia, inspiração, as mulheres no mundo da arte e o equilíbrio entre trabalho e maternidade.


Crédito: Divulgação

Tpm. Como funciona seu processo criativo?

Erica Mizutani. É importante estar bem para poder criar. Até mesmo quando há aquela melancolia, um baixo astral, é preciso ter uma certa lucidez. A lucidez faz com que eu veja tudo de uma maneira mais rica e produtiva. Isso gera a arte em mim. Tudo parece ser motivo e referência para alguma arte nova. Os olhos observam melhor as coisas, valorizam cores e formas que às vezes a gente deixa passar quando a cabeça está muito confusa e esgotada. Ver a beleza em coisas comuns, associar cores, prestar atenção em tudo. Muita gente me fala que sou um ser desligado do mundo. Que às vezes não escuto e não presto atenção numa conversa. Pode ter certeza de que estou observando o brinco da pessoa que fala comigo, as cores das contas de um colar ou a forma de uma orelha.

Quais são suas referências na arte? Eu me apaixono muito fácil por diferentes referências e de várias épocas. Mas tem algo no modernismo que eu piro. Desde a arquitetura até esculturas e pinturas. Acho corajoso, controverso, ousado e lindamente estético. Das artes mais atuais, sou louca pelas formas gigantes e curvas de Anish Kapoor.

Crédito: Divulgação

De que maneira você percebe o impacto social do trabalho artístico? A arte transforma e impacta tanto a sociedade como o próprio artista. Ela movimenta ideias e também traduz mensagens do que acontece no mundo. Seja no campo político, social, econômico, comportamental... Não me atrevo a falar desse impacto no mundo atual, porque a arte sempre participou paralela e intrinsecamente da história, dos povos... Num campo mais cognitivo, mais psicológico, a arte pode ajudar e salvar pessoas.

Qual foi seu caminho para se tornar artista? Foi um longo e necessário caminho. Trabalhei como recepcionista, secretária, assistente de estúdio de publicidade, com decoração de festa infantil, agência de viagens, diagramação e edição, criação publicitária... Hoje eu vejo como cada uma dessas experiências foi importante para o meu trabalho. Fui mãe muito cedo e nunca foi fácil viver, trabalhar e conquistar o meu espaço dentro de um mundo tão machista e maluco. O caminho que usei para chegar a ser uma artista autônoma foi algo natural, onde eu ansiava por uma liberdade criativa quase sem perceber. Em um momento da vida deixei tudo para trás e fui morar longe de São Paulo, perto da natureza, ao lado de um rio. Passei quase 5 anos assim, e foi dentro desse período que minha cabeça começou a querer criar, pintar. Peguei o que tinha na mão, eram pedaços de madeira e algumas tintas. No início a gente não sabe muito bem o que criar, tamanha a ansiedade! Como sou mestiça de japonês com brasileira, comecei a pintar gueixas vestidas com quimonos tropicais. O "resgate", mas muito ao pé da letra. Depois fui soltando mais a mão e as ideias. Nesse meio tempo voltei para São Paulo para tentar levar essa nova fase criativa adiante. Aos poucos fui encontrando o meu espaço e divulgando como podia.

Crédito: Divulgação

Como foi conciliar esse desenvolvimento criativo com a maternidade? Anita, Primo e Theo foram meus combustíveis para nunca parar e sempre confiar no que fazia. Eles precisavam de uma mãe ativa, trabalhando e confiante! Com o passar do tempo, fui percebendo novos caminhos estéticos, seguindo conflitos conceituais entre arte comercial e algo mais pessoal. E tentando encontrar um equilíbrio em tudo isso e conseguir cuidar bem da filharada. É curioso, mas ser artista nem sempre é estar em paz e ao lado da família o tempo todo. Tive períodos bem ausentes em casa por conta das novas demandas. Mesmo longe eu precisava saber exatamente onde estavam cada um deles, se precisavam de algo, se o lanche foi suficiente... Imagina uma mãe pegajosa e coruja, mas que está sempre voando, criando, aparentemente distante, mas sempre atenta. Era eu. Com o passar do tempo, meu trabalho foi ganhando um espaço maior e cada vez mais longe. Recebi propostas para pintar em Paris, Bélgica, Estados Unidos... E o celular ajudou muito para que eu conseguisse cuidar da galerinha em casa mesmo estando tão longe. Já me vi pedindo almoço no quilo do bairro para filharada em cima de uma escada, num mural de 7 metros de altura em Paris. Hoje, com a filhotada já maior, com 15, 19 e 25 anos, vejo o amor que eles têm entre eles, e o amor que temos entre nós. Na quarentena, meu filho mais velho que morava fora do Brasil voltou para casa, se aconchegou aqui no ninho e me trouxe um novo estado de espírito.

Como a pandemia afetou seu trabalho? Afetou de uma maneira muito produtiva. Os medos, a ansiedade, o autocontrole... Tudo virou desenho, pintura. O aconchego dos filhos, o mundo estacionado, a incerteza. Por outro lado, que não o profissional, precisei tomar muito cuidado. Algumas notícias me faziam e me fazem muito mal. Precisei diminuir um pouco o tempo de olhar o celular. Nesses meses, fiquei mais sensível, precisei redirecionar algumas coisas no meu trabalho que até então era focado em murais externos e telas. Passei a desenhar mais, usando plataformas bem menores do que estava acostumada. Essa mudança espacial e psicológica que a quarentena causou gerou novas propostas artísticas. Eu sentia que fazer algo num papel menor deveria ter um suor a mais, um pensamento mais profundo para que aquele espaço de arte pequeno pudesse gritar tão alto como um mural de 40m2. Foi assim, e está sendo assim. Uma vez criada e nascida a ideia, não volta mais para a escuridão do não-sabido, do não-sentido, sabe? Experiências, tudo deve gerar algo. Essa é a principal motivação e alimento para o trabalho de um artista. Viver de verdade.

Crédito: Divulgação

Qual o impacto de assuntos ligados ao universo feminino na sua obra? O universo feminino já é impactante só pelo fato de termos artistas mulheres conseguindo conquistar seus espaços no mercado. Eu sempre digo isso quando entro nessa questão. Estamos trabalhando, pintando, cuidando de casa, filhos, imagem, corpo, saúde, dormindo de madrugada para entregar um trabalho no prazo. Qualquer obra de arte, música ou poesia que saia de uma mulher já é um impacto. A minha arte é feminina, é delicada em muitos momentos, mas também diz muito sobre as nossas aflições quando desenho algo mais literal – corpos, cabelo, sensualidade... Eu escolhi fugir de estereótipos de salvação ou agressão em favor das mulheres. Quero fortalecer o nosso rolê trabalhando, educando os meus filhos para serem pessoas justas e cuidando do meu espaço profissional, mental e o físico, que é a minha casa. Fortalecer minha filha e fazer dela um ser seguro e consciente de que ainda temos muito, muito a fazer. Eu tenho muitas clientes mulheres que encomendaram uma arte minha para celebrar uma nova vida, uma separação ou o nascimento de um filho. Eu fico honrada por fazer parte disso. Fazer alguém feliz, sorrir e saber que aquele desenho leva uma nova energia para uma casa é maravilhoso. Me conecto muito a isso, porque valorizo o meu ambiente e a minha lucidez também. Assim fico satisfeita, sabendo que meu trabalho vai além do campo estético.

Fale um pouco mais sobre a sua criação na Casa Tpm. Criar para Casa Tpm usando o tema das conversas da sala Suvinil foi muito confortante. Apesar de estarmos falando de um período assustador, dividir as minhas ansiedades publicamente, em forma de arte, é sempre um prazer. Fiz uma tela delicada, até um pouco infantil. Cores suaves e que retratavam o tempo passando, nas formas longas, bem longas, dos cabelos da personagem que está deitada numa banheira. A presença da minha filha de 15 anos em casa ajudou muito na escolha dos elementos e das cores. Vejo ela crescer de camarote, junto com as plantas da casa também. Na obra, tudo está crescido, ou crescendo. Plantas, cabelos, cipós, quase vejo a água transbordando para fora da banheira. Tudo isso também retrata um pouco do desapego de estar sempre atenta, cabelo e plantas bem podadas. Algo dizendo: calma, isso é o de menos. Dá para ser feliz com poucos estímulos ou, pelo menos, vamos tentar não enlouquecer, nos machucar. Vamos cuidar da gente – e isso não quer dizer ter um bom corte de cabelo..

Crédito: Divulgação

Sobre o autor
Redação

Conteúdo elaborado pela equipe da Tpm

Matérias relacionadas