Apresentado por MRV

Ser mulher e empreender

Nina Valentini e Andressa Chueiri têm realidades muito diferentes, mas lidam com desafios similares: tocar seus projetos como mulheres, mães e em um cenário social complexo. Elas contam mais à Tpm sobre suas jornadas como empreendedoras

Por Redação 1 de agosto de 2020 Compartilhar

Dentro do universo do empreendimento existem diferentes recortes: sociais, raciais, de gênero e até geográficos – principalmente se considerarmos os desafios que um país de dimensões continentais como o Brasil impõe. São fatores que podem transformar severamente as realidades de quem empreende, principalmente quando falamos de mulheres, que, historicamente, precisam batalhar em dobro para garantir um lugar ao sol.

Para entender melhor a história de quem vive tudo isso na prática, conversamos com Nina Valentini, mãe de duas e presidente do Instituto Arredondar, ONG fundada em 2011 que apoia outras ONGs coletando microdoações por meio do arredondamento do troco em estabelecimentos de todo o Brasil, e com Andressa Chueiri, mãe de dois e dona do Ateliê da Drê, loja virtual de decoração em MDF. A seguir, elas compartilham os desafios, as angústias e os prazeres de empreender.

Créditos: Renata Terepins/Divulgação


Nina Valentini

A empreendedora paulistana cresceu em uma família envolvida com impacto social – seus pais trabalhavam com política pública e, desde cedo, Nina esteve às voltas com esse tema. "Comecei a fazer trabalho voluntário bem nova. Minha mãe mandava eu e minha irmã para os recantos mais remotos do Brasil todos os anos. Mas sempre tive essa consciência dos meus privilégios, nunca vivi essa esfera de falta de oportunidade", ela conta. Formada em Administração Pública na Fundação Getúlio Vergas, ainda na faculdade Nina montou, com amigos, uma organização social que fazia a ponte entre estudantes e empreendedores da periferia. Mais tarde, ela, que sempre foi apaixonada pelo audiovisual, produziu o documentário O Novo Capitalismo, disponível no Netflix. Há nove anos no Instituto Arredondar, Nina também é uma das fundadoras do União Amazônia Viva, movimento voluntário de apoio às comunidades indígenas da região amazônica.

Desafios de empreender:

Como mulher

"Somos preparadas desde sempre para dar conta de tudo, casa, filhos, trabalho. Diferente do homem, a mulher ainda precisa negociar constantemente o espaço dedicado à carreira. Então ou você se organiza para conseguir lidar com tudo, o que é impossível, ou cria uma rede de apoio, sem culpa e sem julgamento. Além disso, é muito difícil se estabelecer como mulher, ser ouvida, respeitada, levada a sério. No Arredondar, temos relações fortes com ambientes muito masculinos, como o de tecnologia. Isso me impôs uma certa dureza, me ajudou a criar limites."


Como mãe

"Essa foi uma jornada muito desafiadora. Quando assumi a presidência do Arredondar estava grávida de 5 meses. A gente estava implementando um projeto enorme, trabalhei muito durante a gestação. Tive licença de 4 meses e, quando voltei, adaptei a maternidade à minha vida, e não o contrário. A Violeta ia comigo para cima e para baixo, viajava comigo, já dei entrevista amamentando… foi uma fase muito legal. Mas tenho consciência que muitas mulheres não podem fazer essa escolha. Então, no Arredondar, a gente oferece essa flexibilidade para as mães. Estou saindo da minha segunda licença e foi um novo desafio, ainda mais neste contexto de pandemia. Existe uma sobrecarga da mulher na maternidade, que é social e também é física e emocional. Mas a exigência do mundo lá fora continua igual."


No Brasil

"O primeiro ponto é que o Brasil não tem uma cultura de doação. O brasileiro é bastante desconfiado de ONGs de forma geral, o que é fruto também do nosso histórico de corrupção em todos os setores. Outro desafio é a estruturação tributária brasileira. A legislação não ajuda as ONGs. Para ter uma ideia, o imposto que cai sobre as ONGs é o mesmo que incide sobre as heranças. É muito desestimulante. E a legislação muda de um estado para o outro. Não conseguimos chegar a algumas regiões do Brasil porque a legislação local torna inviável."


Em meio à pandemia

"No começo foi bem difícil. A gente estava vindo de uma fase excelente. No primeiro bimestre do ano arrecadamos 90% a mais do que o mesmo período de 2019. Com a chegada da pandemia, a arrecadação despencou. Em abril, metade das lojas pararam de arrecadar. Agora estamos notando uma leve retomada e também nos reinventando digitalmente. Tem esse lado positivo. Além disso, durante a pandemia, a credibilidade em organizações aumentou e as pessoas estão se envolvendo mais. Mais de 6 bilhões de reais foram doados para as causas relacionadas à Covid-19. Esse pode ser um ponto de virada da cultura de doação no país."


No setor social

"Além desse problema da cultura de doação no Brasil, muita gente não leva o setor a sério, acham 'bonitinho'. Se for mulher, então, essa postura é ainda mais condescendente. É uma luta diária. Precisa ser muito resiliente e ter muita persistência para empreender no social no Brasil."

Créditos: Arquivo Pessoal

Andressa Cristina Machado Chueiri

A paranaense de São José dos Pinhais decidiu empreender em um momento inusitado: quando estava grávida de seu primeiro filho, hoje com 6 anos. "Senti uma vontade enorme de abrir algo que fosse meu, relacionado à decoração em MDF", ela conta. Mas foi só três anos mais tarde – agora, com o segundo filho a caminho –, que Andressa pegou firme no projeto. "A gente tinha decidido comprar um imóvel na planta e aquilo foi uma motivação para eu começar a empreender e, assim, ajudar com as prestações e despesas", explica a artesã, que, a partir do empreendedorismo, conseguiu conquistar, pela MRV, seu apartamento.

Assim nasceu o Ateliê da Drê, uma loja virtual de decoração em MDF para casa que entrega em todo o Brasil. Além de desenvolver as peças, Andressa cuida de todos os detalhes do negócio, inclusive do atendimento ao cliente, que, segundo ela, é um diferencial.

Desafios de empreender:

Como mulher

"Sinto que há um julgamento sobre mulheres que decidem ter seu próprio negócio. Ainda existe essa crença de que cuidar da casa e da família são missões femininas, somos criadas para ser mães, donas-de-casa, esposas."


Como mãe

"Acho que o maior desafio aqui é conseguir organizar a rotina para conseguir equilibrar o trabalho com o tempo para os meus filhos."


No Brasil

"Dentro do nosso contexto social, acho que o maior problema é este: a discriminação contra a mulher que está à frente do seu próprio negócio. Incomoda demais a sociedade a mulher empreendedora. A gente tem que lidar com isso nos lembrando constantemente de que podemos ser o que quisermos."


Em meio à pandemia

"Como trabalho no meio virtual, a pandemia não afetou minha área. Pelo contrário: com as pessoas cada vez mais em casa, as reformas aumentaram e, assim, minha demanda cresceu também."


Com arte

"Acho que falta uma valorização do trabalho de artesãs e artesãos, de levar a sério esse ofício."


Sobre o autor
Redação

Conteúdo elaborado pela equipe da Tpm

Matérias relacionadas