por Pedro Carvalho

A história de Yago Dora, o curitibano que se classificou na última hora para a etapa brasileira do circuito mundial de surf – e eliminou três campeões mundiais do evento

Até uns meses atrás, Yago Dora, 20, considerava que seu maior feito como surfista era ter aparecido no trecho final de um filme da Volcon (o Psychic Migrations, de 2015), marca que o patrocina. Nos últimos dias, porém, ele deixou o universo do surf boquiaberto. Em uma série de duelos eletrizantes, o jovem curitibano derrotou uma fileira de lendas do esporte – que, juntos, somam cinco títulos mundiais – na etapa brasileira da World Surf League (WSL), em Saquarema (RJ). Sem ter levado o troféu da competição (vencida por Adriano de Souza), Yago Dora – que tem escrito uma história de vida improvável – saiu da areia com um prêmio ainda mais valioso.

O brasileiro se classificou para o evento nos “trials”, uma série de baterias prévias disputadas entre atletas aspirantes, que não estavam qualificados para a competição. Ou seja, era uma zebra. Um penetra na festa. Antes de Saquarema, não tinha marcado nenhum ponto no ranking da WSL – ele ainda compete na divisão de acesso, o WQS.

Logo de cara, Yago causou espanto ao quase vencer o atual campeão John John Florence nas primeiras baterias – ele perdeu por apenas três centésimos de ponto e, de quebra, fez a maior nota do dia, um 9,27, após decolar em um aéreo. Mas seus truques não tinham se esgotado. Na terceira fase, ele voltou a enfrentar John John. Dessa vez, em um mar traiçoeiro e mexido pelo vento, o brasileiro saiu vencedor, eliminando o fenômeno havaiano da competição.

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Depois, na quinta fase, Yago encarou Gabriel Medina. Principal nome da geração do Brazilian storm, Medina foi o segundo campeão abatido pelo novato em Saquarema. Na bateria seguinte, quartas de final, outro campeão do mundo pela frente: o australiano Mick Fanning, três títulos na bagagem. O confronto foi apertado. Fanning fez uma boa nota logo de cara, Yago virou quando a bateria se encaminhava para o final, o australiano pegou uma onda enorme nos últimos minutos e por pouco não virou novamente o placar. Mais uma vitória de Yago, que, horas depois, viveria um teste para os nervos.

Tudo em família
Na semifinal, a disputa foi contra Adriano de Souza, o Mineirinho, campeão em 2015. Mineirinho treina com o técnico Leandro Dora, o pai de Yago – e também seu treinador. Todos os laços ali são fortes. Quem apresentou Mineirinho a Leandro foi outro pupilo: o catarinense Ricardo dos Santos, assassinado na Guarda do Embaú em 2015. Mineirinho era amigo de Ricardo e a ele dedicaria o título de 2015. Leandro passou a treinar Mineirinho em julho daquele ano e foi decisivo em sua arrancada rumo ao caneco.

Na tarde nublada e sem vento do último dia de competição em Saquarema, Leandro viu da areia os dois surfistas se alternarem entre ondas de um metro e meio: seu atleta de maior destaque e seu filho. Mineirinho venceu, mas, na verdade, isso importou pouco. É o que mostrava o abraço emocionado entre os dois atletas, ainda na água, após a sirene anunciar o final da bateria. Ali, contrariando a lógica fria do placar, existiam dois vencedores. O desempenho arrebatador de Yago em Saquarema, se não o levou ao título, tinha catapultado sua carreira a um novo patamar. “Uma estrela nasceu nesta semana no Rio”, anunciou a WSL, em editorial de título “Yago Dora chegou”, publicado mais tarde no site da instituição. “A única questão agora é saber quanto tempo levará até ele competir em tempo integral no circuito mundial”, dizia o texto.

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Bem, aparentemente, não muito tempo. Yago atualmente ocupa a terceira colocação da divisão de acesso, da qual os dez primeiros se classificam para a elite do circuito mundial do ano seguinte. Se entrar para o tour principal em 2018, ele vai protagonizar uma das mais surpreendentes ascensões do esporte nos últimos anos.

Talento tardio
Na comparação com outros atletas, Yago começou a surfar tarde, aos 11 anos. “Eu não tinha muito interesse pelo surf”, ele disse em entrevista ao site da WSL. Nascido em Curitiba, em 18 de maio de 1996, ele se mudou para Florianópolis aos quatro anos de idade, junto da família. Seu pai era surfista profissional e na capital catarinense foi trabalhar em uma lanchonete de produtos naturais, na Praia Mole. Ali, Leandro entrou para o Centro de Treinamento Aragua e começou a treinar atletas, em uma iniciativa chamada Surf Treino Aragua Mormaii. Ali, também, Yago, ainda que tardiamente, se interessou pelo esporte.

Nas rodas de surfistas, se comenta que quem via Yago surfar aos 15 ou 16 anos não arriscava dizer que ele se tornaria um profissional. Mas, por volta dessa idade, uma chave parece ter virado no atleta. Yago encontrou uma linha de surf, um estilo seguro e ao mesmo tempo fluido. A evolução que se observou em seguida foi brutal.

Yago passou a mostrar uma segurança incomum ao pegar tubos enormes em lugares como Havaí e Indonésia. Ele exibia uma técnica própria dos melhores do mundo ao desferir manobras com força e elegância, mesmo nas maiores ondas, e nas partes mais críticas dessas ondas. Seus vídeos passaram a virar assunto entre a turma que pratica ou acompanha de perto o esporte. Dizia-se que ele seria a próxima bomba brasileira a estremecer o surf mundial. Faltava, talvez, Yago fincar a bandeira na divisão de elite – e isso agora não falta mais.

Vencedor sem troféu no Rio, Yago terá pouco tempo para comemorar: ele já viaja ao Japão, onde disputa a próxima etapa do WQS, entre 21 e 28 de maio. Para quem o viu surfar em Saquarema, a sensação é que a divisão de acesso será apenas formalidade. Seu lugar – e isso deve se tornar realidade em 2018 – é na primeira divisão do surf. O surpreendente Yago Dora pertence aos melhores do mundo.

Créditos

Imagem principal: Divulgação WSL/Poullenot

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