por Lia Hama
Trip #208

Rainbow Family se reúne anualmente em alguma parte do planeta para viver dias de utopia

Centenas de pessoas da chamada Rainbow Family se reúnem todos os anos em alguma parte do planeta para viver dias de utopia. Trip foi ao último encontro do grupo, no Espírito Santo, e conta como eles se preparam para o que acreditam estar por vir: uma nova era de luz

Num vale escondido entre montanhas cobertas pela mata nativa, cerca de 20 pessoas participam de uma roda de discussão. Sentadas no chão de uma tenda quente e abafada sob o sol do meio-dia, seguem um ritual indígena segundo o qual quem tem em mãos um bastão possui o direito à fala, enquanto os outros escutam em silêncio. Quando termina, passa o bastão à pessoa ao lado. Na roda em questão, a pauta era uma só: a presença da Trip naquele lugar. Como repórter da revista, eu havia chegado ali dias antes com a missão de fazer uma reportagem sobre o Rainbow Gathering, o encontro da “família arco-íris”.

Trata-se de um grupo de milhares de pessoas de diferentes cores, credos e nacionalidades que se reúnem uma vez por ano em algum lugar do planeta para compartilhar ideais de paz, amor e uma nova espiritualidade conectada à natureza. Surgido em 1972 no Colorado (EUA), na esteira do movimento hippie, o Rainbow se espalhou pelo mundo e, desde então, são feitos os encontros em locais de matas, rios e cachoeiras, bem distantes das grandes metrópoles dominadas pelo sistema capitalista – a “Babilônia”, como chamam. Neste ano, o lugar escolhido foi a serra do Caparaó, no Espírito Santo. Mas, por mais acolhedora que a descrição pareça, eu corria o risco de ser simplesmente rejeitada como repórter por aquele conselho debaixo da tenda.

Quando o bastão chega em minhas mãos, explico que a minha intenção é simples: apresentar o encontro e os ideais de seus participantes àqueles que não os conhecem. Reportagem, em resumo. A reação de parte da roda, no entanto, é de recusa. “Sou contra essa matéria”, afirma categórico Ricardo, um moço de sotaque paulistano e cabelos compridos. “Não nos interessa a divulgação nos meios de comunicação. Não queremos a chegada de pessoas que não têm nada a ver com o que acreditamos. Nosso crescimento é orgânico. Quem tiver que chegar aqui vai chegar”, postula.

Calejados, talvez, muitos se traumatizaram com as poucas reportagens feitas por outros veículos brasileiros até agora, que reforçam o estereótipo de “hippies que andam pelados e fumam maconha”. Mas encontramos aliados que se manifestam a favor. É o caso de Alfredo Toné, nosso querido Allfreedom, retratado em ensaio e reportagem sobre a turma do Amor Revolução na edição de outubro passado. “Sou leitor da Trip há anos. A revista é nossa parceira e essa reportagem é uma oportunidade para esclarecer as pessoas sobre quem somos e o que queremos. Do contrário, só vão sair reportagens negativas e mal informadas. Se o nosso objetivo é fazer a revolução do amor, então temos que fazer a mensagem chegar ao maior número possível de pessoas”, argumentou. Após duas horas de um exaustivo debate (o segundo sobre a presença da Trip no evento), nenhuma decisão é tomada. Para que ocorra, é necessário que todos concordem com ela. Como não houve consenso, não recebemos permissão, mas também não somos proibidos de fazer a matéria. E é por isso que você pode ver o conteúdo desta reportagem, com umas fotos meio distantes, e com os sobrenomes dos personagens preservados – com exceção dos que não se importaram em se mostrar para a Babilônia.

Ahoo!

A discussão acima dá uma amostra do quão sagrado e reservado é o encontro do Rainbow para quem participa dele. O medo da exposição e a cautela fazem sentido. Nos cinco dias que passamos no local, observamos a chegada de curiosos moradores das cidadezinhas ao redor. No boca a boca, espalhou-se a informação de que ali havia mulheres peladas. Os forasteiros chegavam em motos, vestidos com bermudas e óculos espelhados. Mas, se tinham esperança de “pegar mulher” por ali, os invasores do asfalto ficaram na mão. Alguns chegavam bêbados, outro engano dos que acham se tratar de um festival de sexo, drogas e rock’n’roll. No Rainbow, bebidas alcoólicas e drogas químicas são vetadas. Maconha (ou ganja) e ayahuasca são tidas como plantas sagradas e seu uso é tolerado, principalmente se for de forma ritualística. “Ontem à noite chegou um cara bêbado. Fiz ele tomar umas doses e, sem ele se dar conta, o levei para fora do acampamento. Não tinha nada a ver com o clima daqui, né?”, conta o carioca Gian, dando risada.

Bebidas e drogas químicas são proibidas; ganja e ayahuasca são consideradas sagradas

Na área de recepção, Gian e outros colegas eram os responsáveis por dar as boas-vindas. Os viajantes eram convidados a deixar suas mochilas, tomar chá e descansar. Eram pessoas que vinham a pé, de carro ou de ônibus das mais diversas partes do mundo. Havia até quem tinha chegado a cavalo, caso do israelense Kareen, fundador do Nomads United. Desde 1998, o grupo percorre o mundo a galope.

“Saímos de Minas Gerais e viemos numa caravana de 23 pessoas”, conta o nômade nascido em Jerusalém. Além de brasileiros e israelenses, havia no Rainbow italianos, americanos, canadenses, franceses, austríacos, mexicanos, noruegueses e mais uma infinidade de outras nacionalidades. Num cálculo aproximado, 400 pessoas estavam reunidas no local. Um total de mil teria passado por lá no período de um mês que durou o reservado e cintilante encontro do arco-íris.

Uma família com pessoas que se chamam de “irmãos” e “irmãs” e que contam com vocabulário próprio, como nos ensinou Marcelo, com quem entramos em contato para chegar até o Rainbow. “No lugar de dizer ‘obrigado’, a gente diz: ‘gratidão’. Em vez de falar ‘por favor’, falamos: ‘por amor’. O banheiro seco chamamos de ‘Cagamor’. E usamos a expressão ‘Ahoo’ como saudação”, explica o carioca. E o que leva as pessoas a virem a este local? “Para mim, o Rainbow é um terreno de espiritualidade, um local que me permite trocar experiências e conhecer novas práticas”, responde Leonardo, um jovem de 25 anos que deixou o trabalho de garçom num restaurante na Vila Madalena, em São Paulo, para trabalhar com cromoterapia.

“Venho para aprender coisas normalmente inacessíveis, como os cantos de poder e o conhecimento dos povos ancestrais”, diz Martin, um uruguaio de 23 anos que desde os 19 vive nas ruas, onde vende artesanato e ganha um trocado fazendo malabares nos faróis. “É um lugar que atrai pessoas que compartilham de uma mesma visão. Somos livres, não estamos ligados ao sistema”, explica o colombiano Rubier, que chegou ao encontro de bicicleta, saindo da Chapada Diamantina, na Bahia, numa viagem de 12 dias.

Na recepção do Rainbow, os recém-chegados são informados sobre as normas do lugar. Separe o lixo reciclável. Jogue os restos de alimentos na composteira e use o banheiro seco – ops, o Cagamor – para suas amorosas fezes. Para fazer xixi, pode ser no mato, desde que distante das áreas de uso comum. Não lave louça nem tome banho com xampu ou sabonete no rio. Há locais específicos para isso e a água suja passa depois por um processo de tratamento. Não tire fotos sem a permissão das pessoas. Se ficar doente, vá à casa de cura. A cozinha é coletiva e a dieta é vegetariana. As refeições ocorrem no círculo central, em volta da fogueira – local considerado o coração do encontro, onde são dados os avisos gerais. Após a refeição é passado um “chapéu mágico”, por meio do qual se arrecada o dinheiro para a compra de alimentos. Durante o dia, pode-se participar de atividades como ioga, meditação e massagem, oferecidos pelos participantes como forma de doação, sem envolver dinheiro. À noite, há as rodas de violão e de dança ao som de reggae, música indiana e folk.

Em vez de “obrigado” e “por favor”, eles falam “gratidão” e “por amor”

O Rainbow ocorre de forma colaborativa, e pede-se a ajuda de voluntários. A estrutura de organização é formada por comissões de trabalho. Numa primeira etapa, ocorre o “acampamento semente”, quando é construída a infraestrutura do camping. Quando acaba o encontro, um grupo permanece para fazer a limpeza e não deixar rastros na natureza. “Nossa pegada ambiental é muito menor do que a de outros encontros. Não consumimos produtos de empresas multinacionais e nos abastecemos com produtores locais. Usamos técnicas de permacultura e bioconstrução. A ideia é que o encontro sirva de inspiração, plante uma semente para que essas ideias sejam incorporadas na vida de cada um”, explica o nômade Kareen.

O cuidado com o meio ambiente não é apenas uma questão teórica, parte de um discurso politicamente correto. Para a família Rainbow, trata-se de uma missão sagrada. Existe a crença de que antigas profecias de índios americanos estariam se cumprindo. Uma delas, da tribo Hopi, afirma: “Quando a Terra estiver chorando e os animais morrendo, uma tribo de pessoas virá para curar o planeta. Eles serão chamados de Guerreiros do Arco-íris”. A família Rainbow acredita ter a missão de criar uma nova sociedade capaz de viver em harmonia com a natureza, a exemplo dos povos tribais. “A humanidade necessita de mais guerreiros do arco-íris. A era de ouro e de iluminação está chegando”, afirma Jean Luc, um francês de barba grisalha que há 19 anos participa do Rainbow.

Corredor dos anjos

Na primeira manhã ali, nós, da Trip, fomos a uma cachoeira acompanhados de Rafael, um carioca de cabelos longos e corpo nu. “É a primeira vez de vocês aqui, não é?”, me pergunta. Respondo que sim. Ele continua: “Dá pra ver. Vocês usam roupas. Mas até o final da estadia vocês já terão tirado”. Jorjão, o fotógrafo, foi o primeiro. Quando vi, já estava nadando pelado. Anabelle, a produtora, foi a segunda. Encontro-a tomando sol nua. Se não pode fotografá-los, junte-se a eles... Aderi ao movimento, seguindo o conselho do companheiro Allfreedom. “Duvido que exista algum ser humano que goste de nadar com roupa ou tomar sol vestido.”

Sábado, às seis da manhã, é hora do Temazcal, a sauna xamânica comandada pelo mexicano Oscar. Cerca de 30 pessoas estão ali, muitas para participar do ritual pela primeira vez, como eu. Oscar dá início a uma saudação ao norte, sul, leste e oeste e joga folhas de coca na fogueira em homenagem à Pachamama, a mãe natureza. Um a um, entramos ajoelhados na tenda coberta por lona e com o chão de terra forrado de folhas. “Vocês devem se sentar em posição fetal, com os joelhos voltados para cima e os ombros encostados aos dos outros”, explica Oscar. “A tenda é como o útero materno. Ali vamos cantar, gritar, escarrar e expelir toda a raiva acumulada. Quem quiser chorar, chore. Vamos deixar o passado para trás”, sugere...

No centro da tenda, há um buraco onde são colocadas as pedras aquecidas na fogueira. Com a porta fechada, na escuridão e com aquele bando de gente espremida em meio ao calor insuportável, entro em pânico ao não conseguir respirar direito. “Quem não consegue respirar pelo nariz, respire pela boca”, diz Oscar. Tento relaxar e seguir o conselho do xamã. No centro da tenda, com uma bacia com água e ervas, Oscar joga o líquido em nossa direção e puxa os cantos em português, inglês, espanhol, maia e tibetano. Ele nos serve um chá feito com ervas. Em determinado momento, não suporto mais a dor de ficar na posição fetal e sento sobre meus calcanhares. Durante o ritual, a porta é aberta quatro vezes. Na terceira vez, saio e corro para a cachoeira, onde o choque térmico provoca uma sensação de alívio e purificação. 

“A era de ouro e de iluminação está chegando”

À noite, após o jantar, ocorre o ponto alto da nossa estada: o “corredor dos anjos”. Sob a luz das estrelas, ao som de didgeridoo (o longuíssimo instrumento de sopro dos aborígenes australianos), é formado um corredor humano com duas fileiras de pessoas, umas de frente para as outras, alternando homens e mulheres. No meio, um grupo percorre o corredor fazendo pausas durante as quais se recebe carícias dos dois lados. Às vezes alguém fala algo no ouvido, frases como: “Você é linda e merece todo o amor do mundo”. O percurso deve ser feito de olhos fechados. Mas não resisto e, a cada passo, dou uma olhadinha nos rostos de quem integra o corredor. Pessoas de todos os tipos: feias e bonitas, gordas e magras, jovens e velhas. Encontro Jorjão na saída do túnel. Seu olhar em êxtase não deixa dúvidas: ele queria ficar ali para sempre. Na mesma noite, abandona a sua barraca e, munido do sleeping, vai dormir em volta da fogueira. 

De volta à Babilônia

No dia seguinte, antes de eu ir embora, uma das pessoas que mais se mostraram contrárias à reportagem da Trip, e que prefere se manter anônima, me chama para conversar. Ele conta que refletiu sobre o que havia sido discutido na roda e gostaria de dizer algumas palavras. Fala sobre o círculo de pessoas de mãos dadas feito antes de cada refeição. “Isso é baseado em vivências muito antigas. Fazemos o círculo não apenas porque é um jeito prático de dar as mãos. O círculo traduz uma coisa muito importante: a horizontalidade. É um símbolo de união e igualdade. Nós, na cidade, estamos acostumados a um padrão de relação vertical e hierárquico. Reproduzimos isso como se fosse natural. Já o círculo não tem princípio, fim ou ângulos. Ele é perfeito e coeso.”

Segundo nosso companheiro de roda, durante o mês que dura o encontro, longe da Babilônia, os membros da família Rainbow espalhados pelo planeta buscam viver a mudança que eles gostariam de ver no mundo – uma sociedade em harmonia com a natureza, sem líderes estabelecidos e sem o individualismo e o materialismo que predominam no mundo capitalista. E conclui: “Temos que transcender as nossas diferenças e as nossas divisões para sobreviver. Esse é o sentido do Rainbow: todas as cores unidas para formar uma só luz branca”.

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