por Gabriela Sá Pessoa

A ex-estrela do pornô fala sobre o gênero que abandonou, preconceitos no sexo e discos

Sasha espera a van que a levaria até uma emissora de TV do lado de fora do hotel onde está hospedada, na região da avenida Paulista. Ela é uma garota de 25 anos despachada, daquelas que sorriem sempre que cumprimenta as pessoas ou quando fala sobre os livros prediletos. Pisa na calçada com o tênis preto, estilo botinha, e está prestes a atravessar uma das alamedas mais movimentadas dos Jardins, bairro nobre de São Paulo, acompanhada apenas por Jessica, uma das suas melhores amigas.

Vendo-a parada ali, bem vestida com calças escuras, regata soltinha no corpo, blazer preto, bolsa a tiracolo, é difícil imaginar que estamos diante de um dos maiores mitos do cinema pornô, de uma mulher que esteve em quase 300 produções, já transou com seis caras ao mesmo tempo para um filme, e levou o sexo oral a profundidades inimagináveis. E também é uma das figuras mais interessantes da cultura pop: virou queridinha do diretor cult Steven Sodenbergh, com quem filmou Confissões de uma garota de programa (2009); participou de clipe do rapper Eminem; e foi parte da banda de rock industrial aTelecine.

É na van que a leva do centro expandido à Zona Sul onde conversamos com ela, que veio a São Paulo para divulgar Juliette society, seu primeiro romance erótico. Na entrevista abaixo, ela fala sobre ser uma das poucas atrizes do pornô americano a fazer sexo inter-racial, comenta a polêmica (não) depilação de Nanda Costa e revela a obsessão por comprar discos e DVDs. 

Mas se você é como o motorista que a acompanhou pela cidade, que era só elogios à simpatia da moça, mas até agora não tinha ideia de quem é Sasha Grey, aí vai um breve resumo. Nascida na Califórnia, ela entrou na indústria pornô assim que completou 18 anos. Não só porque era um jeito rápido de ganhar um bom dinheiro, mas porque queria explorar a própria sexualidade (apesar de ter sido uma das últimas da turma a perder a virgindade, aos 16). Nos filmes em que atuou, protagonizou cenas pesadas – na primeira delas, pediu ao cara com quem estava transando que lhe desse um soco no estômago – que logo conquistariam legiões de fãs por suas performances e lhe renderiam os principais prêmios do gênero.

Aos 21, Sasha decidiu se aposentar do mundo da pornografia. Desde então, filmou com o diretor cult Steven Sodenbergh, continuou tocando com a banda de rock industrial aTelecine, publicou dois livros (além de Juliette, lançou NEU SEX em 2011, que compila suas fotografias nos bastidores do pornô) e leu para crianças. Ah, também é fã de Nietzsche, Sartre e dos Bad Brains (banda americana de hard core); é ativista gay, defende o empoderamento feminino e o acesso universal à leitura, não frequenta festas “a não ser quando precisa discotecar”, pratica pilates, acaba de vender os direitos de seu romance para o cinema. E ainda consegue dar risadas nesta entrevista, em meio a uma agenda insana de divulgação do livro.

Trip. Sasha, você está em todos os lugares! Todos os repórteres querem falar com você, a noite de autógrafos ontem foi uma loucura, vi você em programas de TV, você discotecou aqui... Imaginava que a passagem pelo Brasil fosse quase como a vinda da Madonna?
É arrebatador e surpreendente. Não tinha ideia do que esperar, especialmente da noite de autógrafos.

O que a palavra “prazer” significa para Sasha Grey?
Bem, o prazer não precisa ter necessariamente a ver com a sexualidade, eu acho. Ele precisa preencher todos os sentidos, então podemos nos sentir estimulados física e mentalmente e isso não necessariamente quer dizer que estamos excitados. Mas também não quer dizer que precisamos estimular todos os sentidos para ficar com tesão.

Você se vê como uma figura que explora o prazer em todos os sentidos?
Sim, mas não em todos os sentidos, sabe, não sou uma chef de cozinha... Mas talvez eu faça isso, quem sabe?

Você poderia tentar escrever um livro de culinária, todo mundo faz isso hoje em dia [risos]. Sasha, as pessoas costumam comparar seu Juliette society com o best-seller 50 tons de cinza por serem livros eróticos escritos por mulheres. O que você pensa dessas comparações? Acho que há uma diferença específica entre os dois textos: em 50 tons, a personagem praticamente serve o que o cara quer. Já no seu livro, a Catherine é protagonista do próprio prazer.
É bem verdade. Minha personagem é bem mais forte e independente do que a de 50 tons de cinza. Claro, muitas mulheres gostam de agradar o parceiro e sentem prazer nisso. E a Catherine até pode querer ser sexualmente submissa, mas ela quer mais é controlar a situação para chegar até onde ela quer. Essa é a grande diferença.

Sei que você é uma leitora voraz [ela abre um sorrisão]. O que você leu enquanto escrevia Juliette society?
Ah, bastante coisa. Mas as principais influências são The sadeian woman, de Angela Carter, 120 dias de Sodoma, de Sade, e tudo o que ele escreveu.

Como você gostaria que seu livro fosse lido?
Apesar de ser um romance erótico, ele também é divertido. O gênero erótico também representa a visão de um autor sobre seu tempo, então espero que isso aconteça com Juliette society. Que as pessoas riam e não levem tudo tão a sério. Até mesmo os comediantes vivem tempos difíceis porque hoje em dia tudo é tabu.

Por falar em tabu, alguém já te falou da Nanda Costa?
Não, quem é?

É uma atriz brasileira que saiu na última edição da Playboy e causou polêmica porque não se depilou totalmente.
Oh!

Algumas pessoas acham que ela deveria ter tirado tudo porque é mais bonito e higiênico, outras acham que está bonito assim. Como o assunto depilação te afeta?
Gosto ao natural. Faz com que eu me sentir mais fêmea, mais mulher. Claro que tem gente que sempre vai achar que é nojento e nada sexy, mas sempre haverá pessoas como eu, que acham que é sexy, sim.

Você está aposentada há quatro anos do cinema pornô. O que vê quando olha para trás?
É estranho, porque agora estou fora do pornô por mais tempo do que realmente estive nele [dos 18 aos 21]. Quando olho para trás e vejo o que conquistei, às vezes fico chateada, como quando penso na produtora que tentei criar e não deu certo. Isso me frustra às vezes. Mas se não fosse por tudo o que vivi, talvez não estivesse aqui hoje.

Você sofre preconceito por ser uma ex-atriz pornô, como quando os pais de uma escola infantil nos Estados Unidos a impediram de continuar lendo para as crianças. Mas, dentro da própria indústria, presenciou cenas de preconceito?
Pensava quer o pornô seria um tipo de ambiente em que todo mundo tivesse a cabeça aberta e respeitasse as preferências das outras pessoas. Na verdade, conheci muitas pessoas realmente homofóbicas e sempre achei isso tão bizarro. Ou pessoas que agiam da mesma forma quanto ao sexo inter-racial. É engraçado, porque elas já estavam fazendo sexo, que é uma das coisas mais íntimas que uma pessoa pode fazer, diante de uma câmera. E tinham medo de fazê-lo com uma pessoa de outro sexo ou com outro tom de pele? Ou julga alguém só porque gosta de pessoas do mesmo sexo? Isso sempre me chocou.

Os filmes inter-raciais – ainda considerados um gênero à parte – nunca foram problema para você?
No começo da minha carreira, umas garotas me disseram “ah, você ganha um extra por fazer inter-racial” [imita a voz de uma menininha esganiçada]. E eu pensava: “O quê? O que vocês estão pensando? Vocês estão malucas?”. Tá, podia ser até um jeito de fazer mais dinheiro, mas sempre me pareceu errado. Já conheci atrizes que não topavam fazer cenas solo de masturbação com um pênis de borracha negro porque consideravam sexo inter-racial.

Que absurdo. E você nunca mesmo ganhou um extra por cenas assim?
Não, nunca. Nem passou pela minha cabeça.

É triste, mas ainda assim sua atitude é revolucionária.
Na verdade, nunca pensei sobre isso porque simplesmente nunca foi uma questão para mim. Cresci em uma vizinhança cheia de diversidade em que não importava a cor da pele.

E o que vale uma boa briga para Sasha Grey? Você também é ativista pelos direitos das mulheres, pelos direitos gays...
Ler, obviamente, é um direito universal e todos deveriam ter acesso a isso. Eu gostaria de passar o resto da minha vida encorajando crianças ou comunidades inteiras a ler. Outra coisa: por causa do meu passado – e porque as pessoas costumam associar o pornô à violência e à misoginia – tenho pensado cada vez mais em mudar essa perspectiva, de alguma forma. Bem, se o pornô pode ser mesmo considerado violento, por que não ajudar mulheres que sofrem violência sexual? Quando eu era mais nova e ouvia histórias de abuso, principalmente em relacionamentos, costumava pensar: “OK, a mulher é livre pra fazer o que quiser, então porque simplesmente não abandonou o cara?”. Agora, mais velha e com mais consciência, percebo como essas situações são delicadas, pensar em uma garota sofrer abuso parte meu coração e me faz refletir sobre o que posso fazer para ajudar. E não acho que precisa de muito, hoje em dia a internet é muito poderosa para conscientizar as pessoas. Tem um site chamado Change.org [plataforma internacional de abaixo-assinados], que apoia questões de direitos humanos no mundo todo. Eles realmente fazem a diferença em vez de atrair atenção da mídia para conseguir mais publicidade.

É uma coisa bonita de se ouvir.
Especialmente por causa da internet, os escândalos sexuais têm vitimado garotas exploradas por pessoas em quem elas pensavam que podiam confiar só porque estava do outro lado do mouse. Com a rede, as pessoas têm desenvolvido um complexo de que podem se livrar de tudo só porque estão na internet. Por isso também temos que ensinar as mulheres a se sentirem seguras com a própria sexualidade e ensinar os jovens que o mundo não é bonito, não são só flores e arco-íris, para que tenham um suporte firme e saibam lidar com essas situações.

Falando de assuntos mais leves, você é uma fã de punk e hard core. Quais são suas bandas favoritas e o que tem escutado ultimamente?
Uau, tenho muitas bandas favoritas. The Clash, claro. Bauhaus, Joy Division, Bad Brains. Estou bem surpresa com o novo álbum do David Bowie. E, ah, tem outra banda que se chama The Skins, eles são super punk rock, com um som rápido, e têm uma vocal feminina que é insana.

Você também é viciada em comprar discos, certo? Quais foram suas últimas aquisições?
Ah, foi mais ou menos uma semana antes de embarcar para cá, mas não sei... Nem ao menos sei quantos discos comprei. Às vezes entro em uma loja de discos e, momentos depois, olho para a sacola nas minhas mãos e penso “Caralho, como isso foi acontecer?”. Realmente não consigo me lembrar de tudo o que comprei [risos]!

Essa compulsão é só por discos?
Acho que meus grandes vícios são discos, DVDs e Blu-Rays.

Você conseguiu comprar alguma coisa aqui no Brasil?
Não, mas eu adoraria saber onde posso ir.

Depois te dou algumas dicas, se você quiser. Vem cá, você está namorando ou saindo com alguém, algo do tipo?
Sim… Tem alguém por quem realmente estou apaixonada.

Ele é americano, de onde ele é?
É…

Melhor não falar sobre isso?
Melhor não. 

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