Um olhar franco sobre São Paulo

por Felipe Maia

Nascido em São Paulo, mas criado na França, o fotógrafo François Leriche realizou uma série de imagens voltada à arquitetura e ao grafite paulistano

François Leriche já viveu em muitos lugares. Tirou foto em outros tantos. Nascido em São Paulo, voltou à cidade após anos batendo perna pelo mundo. Nesse retorno, fundou um atelier de arte com a artista plástica Sarita Anne Roysen, sua namorada, e passou a realizar projetos como esse acima, Regards Sur São Paulo.

“São Paulo é onde arquitetura antiga se encontra violentamente com a moderna, e consegue abrigar harmonicamente diferentes estilos”, teoriza ele. Esse conflito concreto recebeu as lentes de Leriche, que também atentou para os grafites da cidade.

Nesse projeto, o francês preferiu escolher lugares turísticos da cidade. Abaixo ele fala um pouco sobre sua relação com a cidade e com as imagens produzidas aqui. Ele também responde a alguns questionamentos feito na edição #230 da Trip.

Trip: Conte um pouco da sua história. Você é francês, mas vive no Brasil, certo? François Leriche: Nasci em São Paulo em 1966 de pais franceses. Em 1968, com dois anos, saí do País e fui morar na França, onde vivi 15 anos. Depois, vivi dez anos na Califórnia, oito na Nigéria, dois na Suíça e há 13 anos, desde 2001, voltei para o Brasil.

Como surgiu a ideia de fazer a série Regards Sur São Paulo? Mesmo tendo passado grande parte da minha vida em outros países, sempre senti um impulso para voltar. Minhas raízes estão daqui. Então, gostaria de colocar em prática a minha experiência de vida e mostrar meu olhar sobre a cidade: um olhar de cidadão do mundo, de quem viveu diferentes culturas, climas, lugares. A região da paulista, por exemplo, parece concentrar as forças de criatividade, a energia da cidade

O trabalho da Sarita Anne Roysen com as artes plásticas interferiu de alguma maneira na sua série? Sim. O trabalho da Sarita carrega muitas cores e formas e é cheio de vida. A arte dela sempre influencia o meu modo de ver as coisas. Juntos, assumimos para nós mesmos a missão de retratar o belo. Assim, procurei captar o que passa despercebido na correria do dia a dia, o inusitado, o contraste, o que está explícito e o que está nas entrelinhas.

Qual equipamento você utilizou para fazer essa série? Eu gosto de trabalhar com um equipamento que dê o máximo de definição e com a flexibilidade de um sistema de lentes completo e extenso. Eu usou a Nikon D800E, que me dá a resolução do médio formato e as melhores lentes telefoto do mercado, como a 300mm / 2,8 no caso das fotos da Av. Paulista.

Nessa série, você valorizou bastante regiões centrais da cidade. Como você enxerga a cidade de São Paulo nas periferias? Para esta série procurei abordar os pontos turísticos e a São Paulo vista por milhões de pessoas. Mas a periferia da cidade é um lugar que transborda riqueza. É interessante ver a diversidade de pessoas, de culturas, de crenças, de vidas. Lá aparecem grandes ideias, de pessoas que improvisam de forma criativa para viver. Tudo no meio de muito caos. Incrível!

Quais diferenças você enxerga em São Paulo em relação a outras grandes cidades do mundo no que diz respeito à arquitetura? São Paulo é onde arquitetura antiga se encontra violentamente com a moderna, e consegue abrigar harmonicamente diferentes estilos arquitetônicos. O fascinante é a revolução permanente, as mudanças super-rápidas dos cenários, a dinâmica e a energia de criatividade.

E quanto a arte de rua, o que há de diferente? A cidade de Paris tem bastante arte de rua, mas o estilo é diferente do que vemos por aqui -- pichações em letra cursiva e cartazes de cunho político são frequentemente vistos por lá. Em São Paulo, o grafite está ganhando cada vez mais seu espaço. Ele embeleza e colore o cinza da cidade. Em Paris ele tem um caráter mais revoltado, contraditório e menos artístico talvez. Lá, ele expressa mais o descontentamento dos jovens da periferia, apesar de a periferia de São Paulo ser muito pichada também.

Você pretende desenvolver outros trabalhos como esse? Gostei muito da experiência e do resultado deste trabalho. Foi interessante olhar a cidade com olhos de nativo, de estrangeiro e de fotógrafo, e explorar cada cantinho e detalhe da cidade. Os trabalhos do Atelier Novomundo são sempre pautados por expedições. Sarita e eu já visitamos a Amazônia, Patagônia Chilena, Foz do Iguaçu, França e África do Sul. Nossa inspiração vem do que cada lugar tem a nos oferecer. Tenho em particular um projeto de retratos na Paulista na hora do rush, com o uso de uma lente telefoto 600 mm.

Na nossa última edição pedimos a vários estrangeiros que dessem cinco motivos para viver no Brasil. Pode dizer cinco motivos para ficar aqui? E cinco motivos para ir embora, também? 

Motivos para ficar aqui
1 - O astral positivo do povo, apesar das dificuldades
2 - As oportunidades de trabalho nessa fase de crescimento
3 - A força da arte e da criatividade em geral
4 - O clima de São Paulo
5 - A minha namorada e amigos 


Motivos para ir embora
1 - A passividade do povo diante da situação política
2 - A instabilidade política
3 - O câncer da corrupção e a violência endêmica
4 - A desarmonia e a falta de urbanismo
5 - O custo-benefício da vida em São Paulo

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