por Gaía Passarelli
Trip #268

Ela é muito bonita, mas não para por aí. A rapper também é articulada e gentil, meio doce e meio brava. E, depois da maternidade, está se redescobrindo em um estilo mais feminino – e fatal

A primeira coisa que você percebe sobre a Mariana Mello é o quanto ela é bonita. Sim, ela é muito bonita mesmo – e seria bobagem achar que a gente precisa ignorar a beleza, como se isso pudesse reduzi-la a um estereótipo. Porque a Mariana não cabe em nenhum estereótipo de garota que é só bonita. Essa é a segunda coisa que você percebe. Além de bonita, a Mari é articulada, interessante e gentil. Isso aparece enquanto ela conversa, faz piada, ri alto e bebe uma taça de vinho branco tirando a roupa na sala de um apartamento da zona oeste de São Paulo, onde a equipe da Trip fez este ensaio.

“Existe um pré-julgamento por eu ser bonita, sim”, assume, sem pensar duas vezes. “Existiu, existe, sempre vai existir. E não é uma coisa de homem ou de mulher. É uma coisa das pessoas, de pensar: ‘Ah, ela é bonita demais, não deve saber trocar ideia’ ou ‘ela é bonita demais, deve se achar’. Como se uma pessoa, por ser bonita, não tivesse que pensar em nada.”

Em minutos de conversa você aceita: a Mari é alguém que você quer ter por perto. É a mina muito gata que homens e mulheres gostariam de ter como amiga ou namorada. E ela é rapper. E mãe. Gravou sua primeira faixa durante a gravidez. “Eu ia esperar minha filha nascer, mas a vontade era tanta que decidi ‘é agora, vamos lá!’. Gravar com o barrigão foi como se a mensagem ganhasse em profundidade, sabe? Mais significado. Porque a música é sobre conflito interno, chama ‘Universo em crise’. Tem a ver com o que eu tava passando, foi a hora certa de gravar.”

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NOVA FASE

O rap, conta, a fez mais forte. “O rap apareceu na minha vida quando eu tinha uns 12 ou 13 anos e praticava boxe. Era uma fase em que eu precisava de uma força que não sabia de onde tirar. Eu ouvia principalmente Racionais e SNJ e o rap me trouxe essa força, me trouxe autoestima, a certeza de que eu conseguiria atravessar uma fase difícil. Descobri que podia ser uma pessoa melhor com o rap.”

A Mari escreve letras sobre o que vê e o que sente. Letras que depois ela manda por cima de batidas usando outra coisa incrível que tem: a voz. Além dos olhos verdes, do bocão, dos peitos lindos e das pernas enormes, ela tem voz de mulher fatal, rouca e grave, que destoa do seu jeitão de moleque, mas que combina com o novo look que está assumindo aos poucos. “Meu estilo sempre foi de menino, desde cedo. Moleque mesmo. Meus pais eram professores de educação física, então em casa minha mãe me ensinou a alongar, a jogar vôlei e handebol. Não ensinou modos, a ser fina e elegante. Meio por isso as outras meninas não me queriam muito por perto. Desde cedo sempre usei roupa de homem, agora que eu tô mudando para um estilo mais mulherão”, conta, para depois questionar: “É a idade que pede, talvez?”. Digo que não – ela tem só 23 anos. “Então é a maternidade. Depois de ser mãe fiquei assim, mais mulherão.”

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RAP DE MINA

Mulherão mesmo, que segura a bronca de ser mãe e artista. Ana Clara acaba de fazer 1 ano e vem da união com o também rapper Rafael Spinardi. A família vive junta no bairro de Santana, zona norte de São Paulo. Mari diz que a rotina é dura, mas na parceria eles resolvem. “É tenso. É corrido. Falta tempo para tudo. Mas o amor é muito grande e a gente encontra nosso jeito de ser mãe, pai e artistas.” Pergunto se, além de ficar mais sexy, ela acha que a maternidade a tornou uma pessoa mais doce. “Não”, responde, sem nem pensar e me olhando firme. E daí ela desmonta, e ri: “Eu sempre fui doce”.

Mari tem esse equilíbrio entre ser brava e doce, moleca e mulherão, e explorou o assunto em “Recato”, lançada em janeiro. É uma faixa que fala sobre “essa coisa de ter que se encaixar, de ter que ser ou muito louco ou careta”. Tabu é uma palavra que ela usa bastante, e, diz, essa necessidade de se encaixar é “um tabu que quero quebrar, porque eu não sou lóki de achar que dane-se tudo. Dane-se o seu pensamento se ele não agrega nada! Ser uma pessoa boa, de coração bom, uma pessoa que pensa no próximo e não deixa de ser ela mesma, é fundamental. É isso que eu quero passar pra quem tá me acompanhando”. O videoclipe já tem 700 mil visualizações no YouTube e agora Mari prepara terreno para lançar Eu, Mariana, um EP com quatro músicas que sai este mês.

Mari concorda que existe um rap de mina, mas alerta que não é pra ficar só nisso. “Existe um rap feminino, sim. Aqui e na gringa. Só não tem a visibilidade que o rap masculino tem. Talvez porque poucas mulheres se identifiquem com o rap. E existem temas e um universo do rap feminino também, mas a gente não precisa ficar só nesses temas. Até porque tem mulher que chega no rap através dos homens. Eu mesma. Só depois de conhecer Racionais é que fui conhecer a Karol Conká, Dina Di, Tássia Reis.”

E nem desconfia se alguém vai achar que por ser rapper ela não poderia posar sem roupa. “Fiquei feliz pra caralho com o convite para ser Trip Girl. Porque gosto muito mais de mim pelada do que com roupa. Eu me amo pelada! A gente fica coberto demais, de marca e de isso e aquilo. A nossa carcaça também é parte da nossa beleza.”

Taí: mulherão.

Créditos

Imagem principal: Carla Arakaki

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