por Marcos Candido

Brian Anderson, um dos reis do street, anunciou sua orientação sexual. E a comunidade do skate teve que falar sobre preconceito

O skatista Brian Anderson está nos pódios, na lista de patrocínio de grandes marcas e é uma das maiores referências mundiais no street. Iniciantes, amadores e profissionais admiram seu estilo agressivo para atacar corrimãos, lançar ollies altíssimos de escadas, na rua ou em pistas. Muitos o viram pela primeira vez nas sessions em VHS e DVD. Hoje, vídeos bombam no Facebook e no YouTube. As manchetes dos portais o retratam como uma "lenda", um "super-herói" e um do nomes mais importantes do street mundial. Nesta semana, aos 40 anos idade, ele assumiu que é gay. E a comunidade do skate teve que falar sobre homofobia e orientação sexual, assuntos ainda tabus no esporte.

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"As pessoas me perguntam: por que você só assumiu agora? Teria sido melhor ter falado isso antes", conta o skatista no mini-doc Brian Anderson on Being a Gay Professional Skateboarder.

Brian é profissional desde 1998 e tem patrocínios de marca como Nike e Spitfire. Em 1999, foi eleito o skatista do ano pela revista Trasher, uma das publicações mais tradicionais sobre skate no mundo. Com medo de perder apoio de patrocinadores e de comentários homofóbicos, o norte-americano construiu uma figura de "durão" para se livrar de qualquer comentário sobre a vida pessoal. "Se eu tivesse assumido há 15 anos, provavelmente não teria o mesmo apelo de agora", ele conta. "Muitos moleques sem esperança estão por aí, morrendo de medo. Ouvir minha história sobre como tudo melhorou quando destruí a vergonha de ser quem eu sou, pode ajudar pessoas a serem mais felizes. Então falar que sou gay é uma mensagem importante."

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Os receios de Brian não são à toa. Em 1999, o skatista Tim Von Werne, hoje um cientista casado no Reino Unido, teve a relação estremecida com patrocinadores ao decidir assumir a homossexualidade em uma revista - os patrocinadores barraram a entrevista antes que ela fosse publicada. Meses depois, uma fratura no quadril acelerou o fim do contrato. "Eu nunca iria me sentir confortável com o lance de 'ficar no armário'", confessa. Tim demonstra que, até hoje, pouquíssimos skatistas - amadores ou profissionais - tomaram a mesma iniciativa. Sempre existe "um cara", amigo de um "outro cara", que conhece mais um "cara" que é gay e também anda de skate. "O machismo envolvido na sociedade, desde a sua criação aos seus ciclos sociais, [reflete] até mesmo dentro da indústria do skate", analisa Emillie Souza Pipa, abertamente lésbica, à Cemporcento.

Em 2013, a ilustração de capa da edição 50 da Vista, em que dois skatistas aparecem se beijando, recebeu dezenas de comentários homofóbicos nas redes sociais. "O skate sempre achou que tinha essa pegada contracultura, mas sempre reproduziu vários preconceitos", explicou à Trip, em agosto, o editor-chefe da publicação Xande Marten. Já o skatista Felipe Minozzi, no Black Media, escreveu que outros outros nomes já se assumiram gays, embora nunca tenha existido um Brian Anderson na jogada. "Muita gente será forçada a decidir o que pensa sobre o assunto, já que seu skatista favorito acaba de se assumir gay. Isso é bom; ou você percebe que isso não faz diferença na sua vida, ou percebe que é um babaca preconceituoso de uma vez", desabafa. 

Créditos

Reprodução/YouTube

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