por Luiz Filipe Tavares

HQ aborda a relação do brasileiro com as novelas e pergunta: quem matou Olívia Ribeiro?

Sai nesta semana oficialmente a graphic novel Sabor Brasilis, que coloca a relação do brasileiro com a telenovela sob os holofotes. Escrita por Hector Lima e Pablo Casado, com arte de Felipe Cunha e George Schall, a HQ conta a história da equipe de roteiristas da novela que dá nome ao livro, seus dramas pessoais e a trama do programa líder de audiência no horário nobre, que acaba de ter uma de suas personagens principais brutalmente assassinada.

E é com uma simples pergunta começa a história do livro: “quem matou Olívia Ribeiro?”

“O público adora um bom mistério numa novela, seja um assassinato ou personagem sobrenatural”, comentou Pablo Casado. “Se você tem personagens carismáticos, o suspense é tudo o que você precisa para manter ainda mais o telespectador grudado na tela. Optamos pela linha do assassinato em homenagem à morte da Odete Roitman, de Vale Tudo, que até hoje é lembrada pela audiência com um marco das telenovelas.”

O livro se desenvolve seguindo a vida do autor da novela, Antônio Callado, e sua equipe de roteiristas. Embaraçados nas complicações de seus próprios cotidianos, eles precisam trabalhar juntos para desenrolar os fios da trama de Sabor Brasilis. Tudo isso em meio a um turbilhão de cobertura da imprensa e de complicações internas com os interesses da rede de televisão.

Aproveitando-se do mainstream para contar uma história original e engenhosa, a HQ se apropria de referências e de velhos mecanismos utilizados nas novelas desde o início do formato. Com isso, faz um pouco o que a novela Avenida Brasil fez recentemente: pega uma fórmula clássica e adiciona elementos modernos de linguagem sem desfigurar aquilo que o público aprendeu a ver como natural.

“Quando decidimos produzir uma graphic novel, queríamos abordar um tema que tivesse não apenas apelo junto ao público, mas que fosse algo da nossa cultura“, continuou Pablo. “Falem bem ou mal, a novela sempre está na boca do povo. É tão mainstream pra gente quanto futebol. E fugir da paródia seria o primeiro passo para não cair no lugar-comum ao retratá-la. Então decidimos levar o foco para os bastidores, para os roteiristas, estabelecendo um ‘drama da vida real’ que o público adora nas novelas.”

Roxo e pêssego

A arte de Sabor também merece seu destaque. Ambientada em São Paulo, a HQ traz cenários comuns ao paulistano representados de forma brilhante conforme a trama avança. São bancas de jornais, cartões postais e pequenos detalhes que vão capturar os olhos de quem conhece minimamente a cidade.

No lugar do tradicional preto/branco/cinza normalmente utilizado para cortar custos sem diminuir a qualidade da arte, os desenhistas optaram por uma combinação diferente de duas cores. "A princípio, o álbum teria só o preto e variações tonais (cinzas) pra dar profundidade e volume aos desenhos. Uma vez que o projeto foi selecionado pelo ProAC [Programa de Ação Cultural do Governo do Estado], começamos a conversar sobre fazer algo diferente, já que cores extras aumentam o custo de produção”, explicou Felipe Cunha. “O George fez alguns estudos com combinações diferentes e finalmente chegamos a essa combinação de roxo escuro com um laranja meio pêssego. Como são duas cores, ao variar as porcentagens de tons de cada uma, temos essa sensação mais rica.“

 

"Vivemos um bom momento de valorização dos trabalhos nacionais, com mais gente comprando e editoras se interessando em publicar esses materiais", Pablo Casado

 

De acordo com o próprio Felipe, a inspiração maior para o uso dessas cores veio do álbum Asterios Polyp, do americano David Mazzucchell (Demolidor, Batman: Year One). Mas esse não é o único grande desenhista homenageado em Sabor Brasilis. Em uma passagem marcante e cheia de movimento, Antonio Callado sai de uma entrevista na TV e vai andando pelos corredores da emissora até a sala dos roteiristas. A sequência é quase cinematográfica e mostra muita intimidade dos artistas com o formato. A ideia foi, segundo Cunha, uma espécie de citação ao mestre da HQ, Will Eisner.

“Essa é uma sequência do George, que segundo ele foi ‘Will Eisner total’ [risos]. É uma passagem cinematográfica que usa toda o espaço e composição de página pro timing. Eisner tinha essa coisa de brincar com a diagramação das páginas e usar formatos e espaços à favor de movimento, e aqui, ao usar grandes áreas em branco entre os quadros, conseguimos uma fluência e naturalidade pois aumenta a sensação de passagem de tempo”, comentou Felipe. “A 'câmera' totalmente horizontal, ao nível do chão e sempre focada no Callado faz nossos olhos percorrerem aquele espaço todo como se ele estivesse de fato andando pela página.”

HQ nacional

O projeto de Sabor começou em 2010. Nesses dois anos, o quarteto de roteiristas e artistas enfrentou dificuldades para colocar no mercado uma graphic novel cheia de elementos culturais tipicamente nacionais. Mas apesar de tudo, o resultado final valeu a pena.

“O problema maior em publicar no Brasil um álbum como esse é sempre financeiro. Não há carreira em quadrinhos nacionais, pelo menos por enquanto. Quando houver uma demanda grande o suficiente por HQs nacionais, essa situação pode mudar. Afinal, será necessário ter profissionais para cumprir essa demanda, mas é um processo longo e difícil de prever”, refletiu Felipe. “Vivemos um bom momento de valorização dos trabalhos nacionais, com mais gente comprando e editoras se interessando em publicar esses materiais. Se continuar crescendo no mesmo ritmo, é possível que um dia o Brasil se torne um mercado rentável para todos os envolvidos.”

“A maior dificuldade é que os quadrinistas que se dispõem a produzir algo do tipo não vivem disso”, concorda Pablo. “É complicado colocar na rua uma graphic novel de 120 páginas com contas a pagar, pegar no batente das 8h às 18h e aproveitar seus momentos de lazer e descanso com a família. Veja bem, não estou reclamando: é a realidade do grosso dos quadrinistas brasileiros e quem produz o faz porque tem amor pelo negócio. Tem gente que banca suas produções do próprio bolso e outros que são publicados sem ganhar nada das editoras. Parece desanimador destrinchando a situação assim, mas dá pra fazer. E imaginar que alguém pode ler e gostar do seu quadrinho acaba sendo uma motivação tão grande quanto produzi-lo.”

A HQ terá tarde de autógrafos na Gibiteria, em São Paulo, dia 23/02, e já está à venda em lojas especializadas e grandes redes.

Vai lá: HQ Sabor Brasilis
Editora Zarabatana Books
128 páginas
Preço sugerido: R$ 45 
www.saborbrasilis.net
Tarde de autógrafos: Gibiteria -  Praça Benedito Calixto, 158 - 1º andar, São Paulo/SP
23/02, sábado, a partir de 17h

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