por Kátia Lessa
Trip #262

Rorion Gracie é o responsável pelo enraizamento do jiu-jítsu em solo norte-americano e pela criação de um dos mais atraentes espetáculos do esporte na televisão, o UFC

Durante a premiação do Globo de Ouro, no início do ano, a atriz Meryl Streep disse, em um discurso que destacava a colaboração de não americanos na construção da grandeza de Hollywood, que se não fossem os estrangeiros, os americanos só teriam futebol e MMA para conferir na televisão. O que ela ignorava naquele momento, porém, era que também o MMA nunca teria existido se um brasileiro não tivesse partido rumo aos Estados Unidos ainda nos anos 60 para tentar a sorte.

O homem com a missão era Rorion, um Gracie, que com sua visão empreendedora alterou não só o mundo do esporte como o do entretenimento. Em 1978 ele se mudou de vez para o país e provou, na garagem de uma casa alugada em Redondo Beach, Califórnia, que o jiu-jítsu desenvolvido por sua família era a mais eficiente arte marcial em situação real de combate.

Em novembro de 1993 ele criou ao lado do americano Art Davie, então seu aluno, a primeira edição do UFC, uma das competições esportivas que mais atraem a atenção do público não apenas nos EUA, mas no planeta. “Minha ideia era criar um Mortal Kombat de verdade para provar a superioridade do jiu-jítsu.
No Brasil o vale-tudo já existia, mas infelizmente o que acontece no Brasil fica no Brasil, o mundo não está nem aí. Mas o que acontece na América, o mundo todo fica sabendo. Eu não vim para os Estados Unidos por acaso.”

Aos 65 anos e com uma forma e saúde impecáveis, o filho de Helio Gracie [1913-2009] hoje trabalha para divulgar uma rotina dos Gracie que vai além do tatame: a dieta, criada por seu tio Carlos [1902-1994]. Prestes a relançar o livro A dieta Gracie – O segredo dos campeões (ed. Saraiva) no segundo semestre de 2017, ele falou com a Trip sobre o passado, o presente e o futuro de uma família símbolo do jiu-jítsu.

Trip. Por que você resolveu ir para os Estados Unidos ainda nos anos 60?
Rorion Gracie. Resolvi ir porque um dos meus irmãos havia ido antes e me descreveu com tanta realidade a experiência de decolar que eu decidi que queria experimentar isso. Eu tinha 17 anos e escolhi ir para a Califórnia para passar um mês. Consegui uma vaga na Associação Cristã de Moços [YMCA] em Los Angeles e deixei meus dólares e minha passagem guardados na recepção. Na semana seguinte soube que o recepcionista havia roubado tudo. Para não deixar meu pai preocupado, liguei e disse que ia ficar mais alguns meses na América porque estava adorando.

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E como você saiu dessa? Na Associação tinha aula de judô. Fui treinar, finalizei o professor, ele ficou muito impressionado e disse que eu já deveria ser faixa marrom. Ficamos amigos e contei que estava procurando emprego. Ele me ajudou a conseguir um trabalho em um restaurante fazendo hambúrguer. Lá fiz amizades e fui convidado a morar na garagem da casa de uma família.

É essa a famosa garagem na qual você começou a dar aula? Ainda não. Já estava na América havia sete meses quando decidi que voltaria para o Brasil. Antes, peguei uma passagem e fui conhecer o Havaí. A grana era pouca e acabou depois de uma semana. Acabei pedindo dinheiro na rua, dormi em jornal na calçada. As dificuldades me ensinaram que a vida não acontece com a gente, acontece para a gente.

Sua família no Rio era de classe média alta. Você não pensou em pedir ajuda nem quando se viu dormindo na rua? Era, sempre vivemos muito confortavelmente. Mas sempre achei que na vida, quando você cai num buraco, tem que sair dele sozinho.  

Quando você foi para os EUA já tinha em mente a ideia de espalhar o jiu-jítsu pelo mundo? Na primeira viagem, não. Depois desse período voltei ao Brasil, me formei em direito na Federal do Rio de Janeiro em 1978. Casei, tive filhos, separei e resolvi que era hora de voltar para a Califórnia e meter bronca com o jiu-jítsu. Fiquei hospedado na casa de um amigo, a mãe dele era artista de cinema. Em troca, eu cortava grama e fazia faxina. A mãe desse amigo começou a me indicar para fazer faxina na casa de outras amigas e uma delas, que era casada com um assistente de direção, achou que eu era boa pinta e disse que deveria trabalhar no cinema como figurante.

Em que filmes você trabalhou? Ilha da fantasia, Barco do amor, seriados dos anos 80. Passei dez anos fazendo isso. Aluguei uma casa com amigos em Redondo Beach [em Los Angeles] e coloquei uns tatames na garagem. Convidava todo mundo que eu conhecia para ter aulas ali. Quem levasse um amigo ganhava uma aula grátis. Trabalhava no cinema de segunda a sexta e dava aula de jiu-jítsu aos sábados e domingos. Não tinha dia livre. A aula custava US$ 10.

As pessoas já sabiam o que era o jiu-jítsu? Não. Eu perguntava se a pessoa conhecia karatê, boxe, kung fu e falava que poderia ensinar uma técnica mais eficiente para defesa pessoal. Eles iam em casa, tomavam a aula e se apaixonavam porque, modéstia à parte, eu sou um professor de jiu-jítsu excepcional.

Como começaram os famosos desafios da garagem? O fluxo de alunos começou a aumentar e a fama do jiu-jítsu começou a incomodar professores de outras artes. Alguns alunos me contavam que seus professores de karatê ou de kung fu estavam enciumados, falavam que minhas aulas eram perda de tempo e perguntavam se eu topava um desafio. Então comecei a convidar esses caras para uma luta na garagem para tirar a limpo essa história.

Qual era a reação desses professores quando eles entravam em contato com o jiu-jítsu pela primeira vez? Eles não entendiam o que estava acontecendo. Estavam habituados a dar socos e pontapés, mas não sabiam nada de luta no chão. Então eu os abraçava carinhosamente, botava no chão cuidadosamente, torcia um pouquinho o pescoço deles, apertava um pouquinho o braço até eles darem aquela batidinha no chão. Como o jiu-jítsu é uma arte marcial que humaniza o praticante, eu não precisava dar murro em ninguém para ganhar e isso era muito estranho para eles. Por isso, a grande maioria deles acabava virando aluno e amigo meu.

Nos anos 90 o jiu-jítsu estourou no Rio de Janeiro e ganhou uma fama ruim por causa das brigas que aconteciam. Como você recebeu esse tipo de comportamento? Meus pais e tios sempre me ensinaram que quando você tem o conhecimento de uma prática tão eficiente, não pode usar isso para arruaça. Toda academia deveria ensinar esse pensamento no primeiro dia de aula. Qualquer pessoa que use isso para violência é mau-caráter. O erro é da pessoa, não da arte. Às vezes histórias desse tipo chegavam até mim aqui nos Estados Unidos, mas naquele momento eu estava empurrando meu barco em outra direção.

Você já perdeu algum desses desafios contra outras modalidades? Nunca perdi e nunca levei um soco na cara em centenas de desafios. Veja bem, bom não sou eu, boa é a técnica. Sempre procurei me defender bem porque se um cara do tae kwon do consegue me dar um chute ou um cara do boxe consegue me dar um soco, a luta acaba. Porém, modalidades como judô e luta livre tinham uma certa base de chão, então a luta demorava um pouquinho mais, mas mesmo assim essas lutas não têm tantas finalizações como o jiu-jítsu brasileiro. Se não existisse o jiu-jítsu, o MMA não teria chegado onde está.

O Helio sabia que você estava dando aulas para os gringos?
De vez em quando eu mandava umas cartas e contava umas aventuras. Ele ficava empolgado, mas não tinha a menor ideia do que estava acontecendo de verdade.

O jiu-jítsu japonês era uma técnica secreta de defesa. Depois ela foi adaptada pela sua família e continuou um segredo entre vocês. Você sentiu algum conflito moral ao decidir espalhar isso pelo mundo todo? Claro que tive. Quando Mitsuyo Maeda ensinou ao tio Carlos o tradicional jiu-jítsu japonês no Pará porque nossa família o ajudou a se estabelecer por lá, nós aperfeiçoamos e recriamos uma luta de guerra. Quando vim para a América, fazia muito sucesso porque só eu sabia aquela técnica. Um amigo meu insistia para que eu gravasse aulas em vídeo para vender. Eu ficava receoso, pois não tinha como saber que tipo de gente estaria aprendendo as técnicas à distância. Fiquei neste drama de consciência por algum tempo, mas um dia minha academia sofreu uma inundação e fiquei numa situação financeira complicada. Nesse momento, fiz a seguinte reflexão: ouvir o meu ego e segurar o conhecimento das técnicas só para mim, e continuar ganhando lutas como fazíamos há 65 anos, ou compartilhar a técnica e ajudar milhares de pessoas a caminhar nas ruas com a mesma segurança com que a minha família caminha. Optei pela segunda.

Quando você percebeu que os desafios da garagem poderiam virar um evento que hoje é uma das competições que mais atraem a atenção do público no mundo? Passei dez anos dando aula na garagem e o negócio estava crescendo muito. Trouxe o Royce do Brasil para ajudar a cuidar dos meus filhos e dar aula comigo. Cheguei a dar 630 aulas por mês na garagem e, cada vez que acontecia um desafio, o espaço ficava lotado de aluno querendo ver o pau comer. Em um certo momento percebi que tinha 80 alunos na minha lista de espera querendo aula e abri uma academia em Torrance, aqui na Califórnia [onde foram feitas as fotos desta reportagem].

Foi aí que o Art Davie virou seu aluno? Sim, ele foi o primeiro que apareceu para se inscrever. Um dia ele comentou o quanto as pessoas gostavam de ver os desafios e eu disse que aquilo não podia ficar restrito à academia. Foi então que ele sugeriu um show para televisão. Escrevemos juntos um plano de negócios e vendemos cotas para os próprios alunos. A ideia era fazer um Mortal Kombat de verdade.

Por que você decidiu chamar o Royce para representar o jiu-jítsu se na época até o Rickson já estava nos Estados Unidos? Minha intenção com o evento era provar a superioridade do jiu-jítsu. Por isso escolhi o mais magrinho para competir. O Rickson é um lutador excepcional, mas parece um tanque de guerra, então as pessoas poderiam achar que ele ganharia por causa do tamanho. O Royce era fino, parecia um anjinho de branco. Todo mundo era muito maior que ele, mas ele entrou e deu um show.

E como os americanos receberam o que eles viram naquela noite? No dia seguinte ao evento em Denver [em novembro de 1993], o exército americano me ligou dizendo que tinha visto o pequenininho ganhar do grandão na TV e que precisava aprender aquilo. Então criei um programa para eles que é usado desde então. Hoje damos aulas até para o FBI.

Naquele momento você imaginou que estava criando o que daria origem a uma nova modalidade, o MMA [sigla para Mixed Martial Arts]? Nunca pretendi criar um esporte novo. Eu queria mostrar qual era a arte mais eficiente, então achei que um evento sem regras seria o melhor jeito. Na época, o John Milius, diretor de cinema famoso [roteirista de Apocalipse Now], era meu aluno e virou diretor artístico do UFC [Ultimate Fighting Championship]. Criamos o octógono que é usado até hoje nos combates. Antes do primeiro UFC pensamos até em criar uma jaula cercada por jacarés.

O que você acha do MMA hoje? Outro dia me empolguei numa entrevista e disse que tinha sido o criador do MMA. Eu não fui.
O que eu fiz foi criar o evento que deu origem ao MMA, cuja a espinha dorsal é o jiu-jítsu, ou seja, a base da sua eficiência.

A atriz Meryl Streep fez um discurso criticando a posição do presidente Donald Trump em relação aos estrangeiros e disse que, se não fossem eles, nos Estados Unidos só sobrariam futebol e MMA na TV. O que você achou da declaração? Ela foi infeliz, não conhece a história. Karatê é uma arte, jiu-jítsu é uma arte e o MMA, querendo ou não, é uma mistura dessas artes. Ela desmereceu as artes marciais como se fossem só pancadaria. Além disso, ela não sabe que a origem do esporte veio de um brasileiro.

Você acha que os americanos reconhecem a sua obra? Os caras são loucos pelo trabalho que fiz. Eles sabem que eu literalmente mudei o mundo das artes marciais, que já existia há 2.500 anos. Tem muita gente que é fã de UFC hoje, mas não faz ideia das origens do evento. Vendi minha parte em 1995, e os promotores não estavam preocupados em ficar falando: quem criou o evento foi o Rorion Gracie. Porém, estes mesmos promotores, que recentemente venderam a competição por US$ 4 bilhões [para o grupo chinês WME-IMG, em 2016], são gratos e respeitosos.

Você acompanha o UFC hoje? Desde que vendi minha parte não acompanho nada, por uma razão: acho que a delimitação de tempo e a divisão de categorias de peso fizeram o evento perder o sentido. Para eles era um show de TV sobre briga; para mim era uma briga de verdade sendo televisionada.

Seu foco hoje está na Dieta Gracie. Quem criou essa dieta? Meu tio Carlos, um homem muito à frente de seu tempo. Quando ele viu que os irmãos estavam indo bem nas lutas, pensou que ninguém na família podia ficar doente, então foi estudar o que poderia ser feito para manter a saúde da família em condições perfeitas.

E como ele chegou ao resultado final? Ele estudou tudo o que podia e pesquisou sobre nutrição durante 65 anos e foi tirando também as próprias conclusões, nos usando como cobaias. O que o tio Carlos falava era lei. Não tinha essa de algum moleque falar que não queria comer tal coisa. Nossa casa em Teresópolis tinha 21 quartos e 18 banheiros. Ia todo mundo pra lá e a linha era espartana, treinar e comer certo.

O que diz a dieta? O objetivo da nossa dieta é evitar a acidez e a fermentação dentro do organismo. A combinação entre os alimentos deve promover um resultado alcalino. Acreditamos que as doenças só se desenvolvem em ambientes ácidos.

Que tipo de autores e linhas da nutrição você pesquisa e respeita? Não fico olhando para os lados. O trabalho do tio Carlos foi tão incrível que minha maior preocupação hoje é manter o que ele fez. Ao longo do tempo, passei a ser mais cuidadoso em alguns pontos. Por exemplo, o consumo de carne e laticínios é permitido, porém há algum tempo eliminei a carne e tenho diminuido os laticínios. O único alimento que é realmente proibido é a carne de porco, pois transmitia um parasita chamado Trichinella, que é prejudicial à saude. Quem sou eu pra mudar essa regra? Na minha opinião, a nossa alimentação é mais importante do que o nosso jiu-jítsu.

Que combinações devem ser evitadas? Não se deve misturar gordura com fruta ou açúcar, ou seja, não existe sobremesa. Só comemos um cereal por refeição – eu nunca comi arroz com feijão, mas também nunca tive uma cárie, não tenho azia nem dor de cabeça. As frutas doces combinam entre si. As ácidas, não se misturam, só devem ser comidas sozinhas, como refeição. Outra regra importante é manter um espaço mínimo de 4 horas e meia entre as refeições. Não existe lanchinho, o que vai contra a recomendação da maioria dos nutricionistas.

Você não come nada só por prazer? Minha percepção da comida é muito diferente da maioria das pessoas. Tenho consciência de que o verdadeiro prazer não se limita ao gosto do alimento, mas, sim, ao benefício que aquele alimento pode trazer para minha saúde. O meu prazer vem daí. Quem quiser melhorar a saúde, me siga no Facebook.

Créditos

Imagem principal: Flavio Scorsato

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