por Ronaldo Lemos
Trip #262

O território preferido deles é seu próprio mundo, o “eu comigo mesmo”: há uma certa perda da sociabilidade direta que vai fazer falta

Há pouco tempo, um caro amigo escreveu um dos melhores posts que li recentemente no Facebook. Ele alegava que a relação com os millennials (principalmente quem nasceu entre 1990 e 2000) requer alguns cuidados para membros de gerações anteriores.

Entre vários exemplos, ele conta a história de um millennial (do qual ele é chefe) que decidiu tirar férias sem avisar. Precisando de uma providência urgente no trabalho, ele mandou um e-mail para o subordinado e recebeu uma daquelas mensagens automáticas que avisam que a pessoa se autoliberou de ler qualquer mensagem (como se isso fosse possível no mundo de hoje). Curiosamente, a mensagem dizia: “Estarei ausente até o dia tal, com acesso limitado a e-mails. Em caso de urgência favor entrar em contato com [meu chefe]”, e logo a seguir dava o e-mail do meu amigo para que ele cuidasse de todas as pendências do millennial em repouso.

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Essa anedota verídica dá dicas sobre um pouco do que acontece com as pessoas que cresceram hiperconectadas. O primeiro ponto a ser destacado é que ser millennial pressupõe algum tipo de afluência econômica. Afinal de contas, para os mais de 4 bilhões de pessoas do planeta que ainda não possuem água, eletricidade, saneamento ou educação, é bem difícil ser millennial, até porque conexão à internet é algo raro para essa parcela majoritária do planeta.

Os Esquisitões

No entanto, para a parcela de habitantes hiperconectada do planeta, tornar-se millennial está virando condição natural. Talvez a característica que melhor defina o millennial seja uma palavra em inglês de difícil tradução: awkwardness. O adjetivo awkward pode ser traduzido como algo entre “desajustado” e “embaraçoso”, e indica uma vontade de fugir do convívio direto, quando ele não é mediado por algum tipo de mídia.

Faz sentido. O território preferido de muitos millennials é o seu próprio mundo: o “eu comigo mesmo”. Mundo este que propicia diversão infinita e personalizada, com múltiplas opções de séries para serem assistidas (de preferência na cama, de luz apagada, com um computador sobre a barriga ou um celular na mão). Múltiplas listas de músicas que não são ouvidas por ninguém mais. E feeds de informação personalizados em todas as redes sociais, com ídolos e crushes que habitam apenas o mundo privado de cada millennial e de quase ninguém mais. Com tanta customização, fica mesmo difícil se relacionar com os outros, até por falta de referências comuns.

A prática da awkwardness é consagrada inclusive na cultura popular, em séries como The Office, Big Bang Theory e Parks and Recreations, todas hits entre muitos millennials e todas cujo tema gira em torno dos mais diversos tipos de desajuste social.

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Da minha parte, consigo enxergar muitas virtudes nos millennials e até compartilho de várias das suas práticas. No entanto, há uma certa perda da sociabilidade direta, não mediada, que vai fazer falta a essa parcela da humanidade como um todo. Ainda bem que no Brasil, diferentemente de outros lugares, temos o Carnaval. Além de todas as suas benesses usuais, o Carnaval nesse contexto ganha contornos de escola de sociabilidade (da carne, do suor), capaz de transcender a superficialidade inevitável de quem vive de awkwardness. Com isso, neste Carnaval, mando meu evoé para vocês, queridos e queridas millennials.

Créditos

Imagem principal: © Peanuts Worldwide LLC

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