por Ronaldo Lemos
Trip #219

Lemos: ”O futuro das instituições de pesquisa é ser de confronto ao establishment”

Para Joi Ito, diretor do MIT Media Lab, o futuro das instituições de pesquisa e ensino é ser "antidisciplinar", ou seja, de confronto ao establishment

Já falei sobre Joi Ito aqui na coluna (se você perdeu, veja aqui). Para quem não o conhece, Joi é o diretor do MIT Media Lab. É também membro do conselho do New York Times e de várias empresas de tecnologia. Apesar de dirigir uma das instituições acadêmicas mais prestigiosas do mundo, ele próprio nunca terminou a faculdade. Por isso mesmo, tem uma visão crítica importante sobre o futuro da academia.

Na última vez que falei com ele, em Londres, no fim do ano passado, Joi me contou sobre o processo de seleção de novos professores do Media Lab. Ele usava uma palavra curiosa para descrever a qualidade mais desejada nos candidatos: ser “antidisciplinar”. Na visão dele, muita gente pode ter ideias inovadoras. Mas só quem é capaz de implementá-las interessa. E para isso é inevitável vencer obstáculos e enfrentar o establishment. Esse é o tipo de pessoa que ele procura.

Não convencido, perguntei o que exatamente ele queria dizer com “antidisciplinar”. Seria algo mais formal, no sentido de que o conhecimento não se organiza mais em disciplinas específicas? A resposta surpreendeu. Joi disse: “Sim, é isso. Mas é também como ouvir rock’n’roll – a necessidade de questionar a autoridade, de pensar por si mesmo”.

Para ele, a academia precisa espelhar cada vez mais a estrutura da internet: aberta e descentralizada, com fronteiras porosas em que a distinção entre quem ensina e quem aprende perde o sentido. Certa vez, Joi disse que queria transformar o mundo em “7 bilhões de professores”, onde qualquer um poderia ter algo a ensinar.

Fora da zona de conforto

Outro exemplo desse pensamento é a crítica sobre como a academia dissemina suas ideias, ainda presa à noção de “publicação” por meio de artigos em revistas acadêmicas, e livros técnicos, que no fim pouca gente lê. Sobre isso ele diz: “Antes, ser relevante significava escrever artigos acadêmicos. Hoje, se as pessoas não podem encontrar seu trabalho na internet, você é irrelevante. E isso é a pior coisa para um pesquisador. Os velhos canais acadêmicos não são bons para gerar atenção, financiamento, pessoas ou impedir que você se torne obsoleto. Quando a academia é aberta, é mais provável que apareça alguém para trabalhar com você do que para competir com você”.

Estamos longe desse caminho. No Brasil, até a arquitetura das universidades precisa ser reinventada. Nas universidades americanas mais importantes não existe sequer portaria: ninguém controla quem entra ou sai. Mais que isso, é preciso redefinir o que significa uma publicação acadêmica relevante: seria um texto tradicional, publicado em uma revista que poucos leem? Ou um projeto “antidisciplinar”, que se manifesta nas mais diversas formas e convida outras pessoas a interagir em múltiplas mídias e, sobretudo, na internet?

Assim como é difícil inovar sem quebrar regras, vai ser difícil para o mundo acadêmico continuar relevante se não sair da sua zona de conforto. A academia precisa ser mais rock’n’roll.

*Ronaldo Lemos, 36, é diretor do Centro de Tecnologia da FGV-RJ e fundador do site www.overmundo.com.br. Seu e-mail é rlemos@trip.com.br

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