por Marcos Candido
Trip #261

O biólogo Roberto Waack é diretor-presidente da fundação que vai decidir como serão investidos bilhões de reais pagos como indenização

No fim de novembro de 2015, o biólogo Roberto Waack estava prestes a viajar rumo à COP21, conferência da ONU que discutiu o futuro climático do planeta, em Paris, quando recebeu um convite inusitado e emergencial: entrar no epicentro de uma das maiores catástrofes ambientais da história mundial, e certamente do Brasil: o rompimento de Fundão, uma barragem administrada pela Samarco em Mariana, Minas Gerais. Waack estava acompanhando a situação pela TV: viu a lama encobrir as casas de 226 famílias no vilarejo Bento Rodrigues e contaminar o rio Doce – berço de centenas de espécies de fauna e flora – e chegar até o litoral do Espírito Santo, a 537 quilômetros da barragem. Com a tragédia, a mineradora brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Hilton, donas da Samarco, se preparavam para uma guerra judicial e ética – até um filósofo, especialista em situações de guerra, foi contratado para auxiliar os executivos. “A representante mineira que me ligou analisou toda a situação e me perguntou: ‘E aí, você pode ajudar?’”, conta Waack.

O pedido, claro, não surgiu à toa. Desde a época de estudante na Universidade de São Paulo, Waack está habituado a ficar entre a motosserra e o reflorestamento. No ano passado, ele foi um dos principais articuladores da Coalizão Brasil, união entre ONGs, ambientalistas e ruralistas em prol de uma agenda unificada a favor do meio ambiente. O bloco era um movimento inédito, impulsionado como repúdio à ideia de que o Brasil estava dividido entre dois lados após as eleições de 2014. Como empresário, Waack é conhecido por fundar a Amata, empresa que refloresta e comercializa madeira de árvores da Amazônia criando um ciclo de produção que emprega moradores da região e auxilia na preservação da floresta. Pela iniciativa, foi homenageado pelo Prêmio Trip Transformadores em 2012. Sentado à mesa com fazendeiros e ativistas, também já foi membro de grupos como a WWF Brasil, a Global Reporting Initiative, o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade e o Forest Stewardship Council.

“Recebi uma ligação de Sebastião Salgado me convidando para reerguer Bento Rodrigues. Não posso dizer que não relutei”
Roberto Waack, diretor-presidente da Fundação Renova

À distância, o biólogo se propôs a ajudar da maneira que mais conhece e em que mais acredita, equalizando as vozes que se acusavam em meio ao conflito pós-acidente. O que ele não sabia é que, ao atuar como mediador desse processo, estava caminhando para o maior desafio de sua vida. “Meses depois, recebi uma ligação de Sebastião Salgado me convidando para reerguer Bento Rodrigues”, conta Waack. Fundador do Instituto Terra (que mantém parceria com a Vale), o premiado fotógrafo foi responsável por reflorestar centenas de hectares à beira do rio Doce, onde nasceu. Por conta de sua ligação emocional com a região, Salgado logo se engajou na busca de soluções para a tragédia — e foi bombardeado por críticas ao envolver a própria Samarco nessa busca. Segundo a proposta do fotógrafo, o empresário ficaria responsável por presidir a Fundação Renova e administra inicialmente R$ 4,4 bilhões em indenizações. A previsão é de que o número alcance o patamar de 
R$ 10 bilhões até 2018, vindos da Vale, da BHP e da Samarco (a Justiça calcula que a reparação dos danos será de R$ 20 bilhões, valor que a fundação se prepara para arrecadar até 2030). Na prática, as mineradoras propunham dar um passo para o lado e deixar Waack na linha de frente com o trabalho de compensar familiares de vítimas, sustentar desabrigados, recuperar o leito de rios, reflorestar o que foi fossilizado pelo rejeito e preservar centenas de peixes, répteis, aves e plantas subaquáticas que ficaram, de acordo com o Ibama, à beira da extinção. É o maior valor já cobrado em casos de compensação de danos ambientais no Brasil e no mundo, segundo consultorias internacionais especializadas.

Após ouvir o pedido de Salgado, Waack se reuniu com executivos, fez as malas e resolveu aceitar essa jornada que parece impossível. “Não posso dizer que não relutei ao convite, mas logo acabei aceitando. Gosto de encontrar soluções em situações complexas”, afirma.

A reconstrução de Mariana representa mais do que um erguer de muros, analisa Waack. “É um marco para todo o país. Isso cria uma força, uma comoção, capaz de unificar vozes políticas e ambientais que a crise política e econômica possa ter desunido.” Mas a mudança vem em passos vagarosos. Mensalmente, uma reunião entre representantes da Vale, da BHP e dos governos mineiro e capixaba cobra respostas da fundação. Uma consultoria internacional fica à espreita de Waack. O Ministério Público também questiona os valores módicos pagos às vítimas (que podem chegar a cerca de R$ 1 mil por mês), agora realocadas em casas de aluguel em Mariana. “A efetividade da Fundação Renova é muito complexa e servirá como modelo para quem ainda corre risco de sofrer uma catástrofe causada pela exploração humana”, explica Lindsay Newland Bowker, coordenadora da Bowker Associates Science & Research, associação que mapeia desastres ambientais causados por grandes companhias. Nas previsões de Lindsay, se o nível de conivência de órgãos reguladores continuar como antes, o Brasil pode enfrentar ao menos 15 catástrofes como a da Samarco até 2025. Outro problema analisado pela pesquisadora é a sociedade se afastar da causa ambiental, enxergando à distância todo o processo.

Waack tem noção sobre todas essas responsabilidades que agora pesam como cargas simbólicas da reconstrução. “Por muitas décadas, a ciência acreditou que o cara da botânica não deveria estudar o inseto que pousa em cima da pétala. A divisão das tarefas é um problema para qualquer solução. É preciso aproximar o fazendeiro, o político e o ambientalista para entender e reparar uma situação causada ao meio ambiente”, afirma. O próximo passo de Waack é formar um grupo para atender as demandas sociais de Bento Rodrigues, enquanto um time técnico faz a retirada dos rejeitos alaranjados e revive comunidades humanas e animais que quase pereceram. Mesmo com as turbulências brotando rapidamente, a habilidade de Waack para unir vários lados em prol de um bem coletivo mais fértil já está em pleno funcionamento. “O futuro ambiental do Brasil não tem como, nem pode, dar errado. As cartas estão dadas”, conclui.

Créditos

Foto principal: Helena Wolfenson e Aline Lata

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