por Ricardo Guimarães
Trip #263

A maturidade é definitivamente bela. E cada vez mais necessária para este mundo não explodir

Caro Paulo,

Eu acredito no poder dos limites. E os meus 68 anos têm me provado que essa crença é verdade para ser feliz neste planeta e vai ser cada vez mais importante para definir um futuro bom para a nossa sociedade.

Lembra que te dei este livro muito tempo atrás: O poder dos limites — Harmonias e proporções na natureza, arte e arquitetura, do arquiteto húngaro György Dóczi?

Pois é, ele revela de maneira muito inteligente e bem fundamentada a razão por trás da eficiência e da beleza das coisas belas e eficientes deste mundo.

E tudo que queremos é ser eficientes e belos a vida toda, certo?

Nessa altura já deve ter leitor pensando... lá vem ele dizer que a velhice é bela. Não, não sempre, como todas as fases da vida.

Mas a maturidade é definitivamente bela. E cada vez mais necessária para este mundo não explodir.

Maturidade tem a ver com ciência e conhecimento, com saber quem somos e como as coisas funcionam para que possamos gerenciar melhor e usufruir o máximo da vida como ela é.

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Uma dessas sabedorias é aceitar a velhice como parte do design da vida e entender seu propósito, que é o de nos ensinar a usar e gostar dos limites que definem beleza e eficiência.

Temos que fazer essa lição de casa para garantir um futuro em que os limites de recursos da natureza e da sociedade deverão ser reconhecidos e gerenciados com muito conhecimento e sabedoria. Não só porque teremos muitos velhos na sociedade, mas porque já temos muita gente numa realidade cada vez mais complexa.

Sempre disse para meus filhos que, apesar de terem uma juventude mais longa que a minha, eles teriam que amadurecer mais cedo para viver nesta sociedade globalizada em rede que dá tanto poder aos indivíduos.

Amadurecer é revelar identidade e reconhecer diferenças. Por isso temos que nos reconhecer em outro patamar de complexidade para fazer a evolução da sociedade.

A supervalorização da juventude, do consumo, do individualismo e das coisas deve evoluir para a valorização das relações, da interdependência e do significado das coisas, sintomas da maturidade.

Teremos necessidade de mais ciência e arte para dar esse passo, como sugere Dóczi:

“As proporções da natureza, da arte e da arquitetura podem nos auxiliar nesse esforço, porque essas proporções são limitações partilhadas que criam relações harmoniosas baseadas nas diferenças. Assim, elas nos mostram que as limitações não são apenas restritivas, mas também criativas”. 

O desafio é grande porque ainda idealizamos a juventude como a melhor fase da vida e quando isso acontece a gente se afasta da vida como ela é, da ciência e da arte.

Mas pelo menos o diagnóstico está feito e a direção está dada.

Fico por aqui deixando meu abraço para você e o registro de meu carinho e da minha gratidão a Margareth e Tamas Macray, amigos queridos que me presentearam com O poder dos limites na década de 80 do século passado, o que acelerou meu aprendizado sobre o prazer de viver o poder dos limites.

Ricardo.

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