por Milly Lacombe
Trip #266

Realizamos tarefas que os outros esperam que realizemos, evitando pensar porque a reflexão não vai levar a lugar nenhum, apenas frustrar e entristecer

Lembro, numa manhã qualquer de verão, de ter uns 8 anos e de estar brincando com minhas irmãs no térreo do prédio onde morávamos quando um acontecimento banal me fez entender um pouco mais o mundo ao meu redor. Acho que estávamos de férias, o que explicaria que fosse um dia de semana, e eu sei que era um dia de semana porque vi meu pai saindo para trabalhar: terno, gravata, pasta em uma das mãos. Ele parou para dar um beijo em cada uma de nós, mas em minha memória o que ficou, além da cor do terno, que era bege, foi uma certa vibração de tristeza. Meu pai não estava feliz, e eu não sabia por que.

Enquanto ele passava pelas grades do portão que o levaria à rua, eu corri até o limite do prédio, fiquei vendo ele descer a escada e começar a andar. Meu pai nunca dirigiu, então todos os dias ele descia nossa rua a pé até encontrar um táxi que o levasse para o trabalho, mas nesse dia ele não parecia estar procurando um táxi e apenas andou cabisbaixo. Por que ele tinha que ir trabalhar todos os dias?, eu pensei. Por que não podia fazer como a gente e ficar brincando? Me pareceu bastante óbvio que a tristeza dele viesse do fato de ele ter que ir trabalhar e de não poder brincar.

Já adulta, passei anos rindo da minha interpretação infantil e ingênua daquela circunstância, até que há pouco tempo parei de rir porque entendi que a criança que um dia eu fui não estava assim tão errada.

A sociedade em que vivemos se desenvolveu sobre a fluidez dos hormônios masculinos: rápida, acelerada, imediatista, agressiva, impaciente, competitiva e deixando de lado o doce embalo dos hormônios femininos: tolerância, paciência, tranquilidade, sensibilidade, gentileza, cooperação. Construímos uma sociedade baseada na competição e que abdicou da colaboração, uma sociedade que encoraja o individualismo e despreza a solidariedade.

Assim como meu pai, eu também teria muita dificuldade para me encaixar numa sociedade com esses valores e apenas recentemente comecei a entender que, ao contrário do que supunha, a falha talvez não fosse minha. Ou, como melhor colocou o indiano Jiddu Krishnamurti, “não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”.

Até quando
Passamos pela vida realizando as tarefas que os outros esperam que realizemos: levamos filhos na escola, vamos para o trabalho, nos metemos em reuniões, almoçamos apressadamente em um shopping center lotado, tentamos (e fracassamos em) comer corretamente, sonolentos nos arrastamos para outras reuniões, nas quais ficamos sabendo das novas metas a serem cumpridas, voltamos para casa cansados, curvados e evitando pensar “que vida é esta?” porque a reflexão não vai levar a lugar nenhum, apenas frustrar e entristecer. Melhor abrir aquela cerveja, ligar a TV e esperar o sono chegar.

Uma sociedade baseada nesses valores não foi uma imposição divina ou um castigo dos céus; ela foi criada por todos nós. O que indica que não necessariamente precisaria ser assim: podemos criar a sociedade que quisermos, baseada nos valores que julgarmos mais corretos e justos. Só que uma sociedade controlada pela riqueza privada vai sempre refletir valores como competição a qualquer custo e encorajar em cada um de nós o desejo de acumular capital, bens e propriedades a despeito dos métodos.

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Sem que um deus punitivo tivesse nos obrigado a construir uma sociedade tão bizarramente estranha, acabamos por conta própria criando um arranjo no qual existem milhares de trabalhos possíveis – como deixar as ruas melhores e mais limpas, as escolas bem equipadas e com bons professores, incrementar o transporte público, formar um sistema de saúde gratuito e universal, podar e plantar árvores, construir jardins, espaços públicos etc. – e, ao mesmo tempo, existem milhões de pessoas precisando de trabalho. Mas fomos suficientemente malucos para dar vida a um sistema incapaz de associar os recursos que sobram, a mão de obra ociosa e o trabalho que precisa ser feito. E, alheios ao fato que fomos nós que demos vida a essa aberração, aceitamos passivamente que seja assim, como se uma sociedade nesses moldes fosse uma lei da física, e seguimos pelo dia sem questionar, sem imaginar alternativas.

Como seria uma sociedade construída sobre conceitos como amor, solidariedade, compaixão? Como seria uma sociedade mais feminina, menos patriarcal?

Virginia Woolf dá uma pista: “[Não seria ensinada] a arte da dominação a outros seres humanos, ou a arte de governar, de matar, de adquirir terra e capital. A nova escola deveria ensinar as artes que podem ser praticadas por pessoas pobres, como medicina, matemática, música, pintura e literatura. A arte do ato sexual, da compreensão da consciência e da vida do outro”. Para Woolf, o objetivo de uma sociedade assim não seria segregar e especializar, mas unir e permitir que a criatividade de cada um florescesse livremente.

Numa sociedade assim as pessoas teriam o direito sobre o que produzissem e não precisariam trabalhar sob nenhum tipo de comando. Uma sociedade assim formaria pessoas livres e não escravizadas. Numa sociedade assim meu pai talvez pudesse, como eu um dia supus, apenas brincar com os filhos numa manhã qualquer de quarta-feira sem estar inundado de preocupações mundanas.

É utópico pensar dessa forma, me dizem. Talvez. Mas entre imaginar uma sociedade nesses moldes e aceitar passivamente a distopia dentro da qual estamos mergulhados fico com a utopia da sociedade feminilizada. “Nunca duvide que um pequeno grupo de cidadãos conscientes e engajados pode mudar o mundo”, escreveu a antropóloga Margaret Mead. “Com efeito, sempre foi assim que o mundo mudou”, finalizou.

 

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