por Diogo Rodriguez

Livro conta versão romanceada do desaparecimento do guitarrista do Manic Street Preachers

Mesmo antes de os politizados Manic Street Preachers lançarem seu primeiro álbum, o guitarrista Richey Edwards já chamava a atenção por suas atitudes pouco ortodoxas. Durante uma entrevista em 1991, o repórter Steve Lamarq, da New Musical Express, duvidou da autenticidade artística da banda de rock alternativo, que estava em alta no Reino Unido. Richey pegou uma navalha e rasgou o próprio braço formando a expressão "4 Real" ("de verdade").

Essa história poderia ter virado apenas mais um foclore do rock, não fosse pelo que aconteceu em 1º de fevereiro de 1995. James Dean Bradfield, o outro vocalista e guitarrista dos Manics, deveriam viajar aos EUA para uma turnê promocional nesse dia, mas Richey desapareceu. Primeiro, foi cogitado suicídio, uma vez que distúrbios emocionais era uma constante em sua vida, mas não se sabe o que aconteceu. O corpo nunca foi encontrado e seu paradeiro é desconhecido até hoje.

Apenas em 2008 ele foi declarado oficialmente morto pela família, depois de 17 anos de buscas e dúvidas. Ainda não se sabe o que aconteceu com Richey, apesar de ainda aparecerem boatos de que ele foi visto.

O escritor inglês Ben Myers era fã dos Manics quando Richey desapareceu e resolveu transformar os mistérios e perguntas sem resposta em um romance chamado Richard, que vai ser lançado em outubro pela editora britânica Picador. Ao mesmo tempo são contados o começo da vida do músico e as duas últimas semanas antes de seu desaparecimento. Myers conta que fez uma intensa pesquisa factual, mas que o livro é uma versão romanceada dos fatos. Um assunto tão delicado só poderia ser polêmico e, segundo ele, os fãs da banda estão divididos em relação ao livro.

De Londres, Myers contou como se sentiu quando soube do desaparecimento e como pensa que a família de Richey Edwards vai reagir quando ler sua história.

Como é seu livro? O quanto dele foi baseado em fatos reais?
Richard é uma versão romanceada da vida e desaparecimento do guitarrista Richey Edwards, dos Manic Street Preachers. Nele, há duas histórias correndo paralelamente: os anos de formação dele e a ascenção da banda e as duas últimas semanas antes de desaparecer. Esta segunda parte se passa entre janeiro e fevereiro de 1995. Fiz uma pesquisa pesada sobre sua vida, mas a licença artística é exercida em algumas partes, especialmente ao tentar imaginar o que se passava em sua cabeça durante os últimos dias. Então, 50% é baseado em fatos, 50% ficção. Espero que em algum lugar entre os dois esteja algo parecido com a verdade.

Você descobriu algo novo sobre o paradeiro dele?
A resposta é: não. Mas eu não estava procurando por respostas, queria capturar a essência dele como pessoa, na vida, ao invés de me tornar um detetive tentando procurá-lo.

O que você aprendeu escrevendo o livro?
Aprendi sobre o processo da escrita: a disciplina necessária etc. E aprendi que Richey Edwards era um indivíduo excepcional, apesar de eu já saber disso, acho. E também que escrever sobre um assunto obscuro e perturbador pode cobrar seu pedágio.

Você é fã dos Manic Street Preachers?
Eu era um grande fã nos anos 90, especialmente entre os 15 e os 20 anos, mas agora tenho menos interesse pela música.

Como a família de Richey Edwards recebeu o livro?
Ele ainda não foi publicado no Reino Unido, então eles não leram. Sei que eles estão incomodados pelo livro, e com razão. Fiz meu melhor para não tornar essa experiência incômoda para a família do Richey Edwards. É um assunto difícil de abordar, mas tentei ser sensível. Há luz e sombra no livro. Ter uma banda é um jeito absurdo de ganhar a vida, então tomara que o aspecto cômico do rock'n'roll apareça também.

E os fãs?
Os que leram tiveram uma reação muito positiva e apoiaram. Muitos se envolveram com o projeto e estavam em contato comigo. Alguns fãs são céticos e os que não leram o livro, odeiam-no. Então, a opinião está dividida entre os que leram e os que se recusam a lê-lo.

Como foi a reação das pessoas quando Richey desapareceu?
Bem, as pessoas estavam compreensivelmente chateadas, tensas e devastadas. Richey Edwards era muito amado por sua família e por aqueles que sentiam que ele dizia que ele dizia algo sobre suas próprias vidas.

Como você se sentiu?
Fiquei chocado e triste, mas não inteiramente surpreso. Sua luta contra a depressão foi muito bem documentada pela imprensa britânica na época. Acho que todos tinham esperança de que ele voltaria alguma hora, mas conforme o tempo passava, a esperança diminuía. Foram tempos tristes.

Qual foi a teoria mais absurda que você ouviu sobre o desaparecimento?
Li e ouvi muitas teorias, mas ignoro todas. Não acho que seja bom especular sobre o que aconteceu com Richey. Conforme passa o tempo, fica mais difícil que ele reapareça, mas nunca se pode dizer nunca. Seu desaparecimento afetou muita gente e existem relatos de terem visto ele, mas acho que foram motivados pela esperança e o desejo genuíno de achá-lo, mas muitas não não tinham provas e acabaram descreditadas.

Richard (em inglês)
Ben Myers
288 páginas
Ed. Picador
Preço: 8 libras

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