por Camila Eiroa
Trip #246

Terapias alternativas e o uso do chá de ayahuasca são opção para a pena de detentos em Rondônia

O Santo Daime pode ajudar na reabilitação de criminosos? É essa uma das ideias da Acuda, em Rondônia, associação que além de oficinas de marcenaria e de inclusão digital oferece aos presos da região vivências de meditação, yoga, rituais católicos, espíritas e evangélicos, e também o Daime. "Eles têm que ir em todas as atividades para assim entendê-las", afirma Luiz Henrique, que criou a ONG em 2001. Os presos que participam do projeto cumprem pena fechada e são escolhidos em uma pré-seleção.

Luiz conta que a inciativa não é assim tão bem vista. "Nosso país confunde vingança com justiça", afirma. Mas isso não o faz desistir de continuar com o trabalho. Sobre o uso de ayahuasca, diz: "Na minha cabeça é mais difícil de se ressocializar uma pessoa na cadeia. O Santo Daime provoca que você entre na sua consciência. Muitos dos presos têm a visão de tudo que fizeram, é um processo muito doloroso. Para mim, só assim eles poderão se curar." 

Preso por tráfico de drogas, Paulo Rodrigo, de 31 anos, acha que já "teria pirado" não fosse a Acuda. Para ele, a técnica mais importante que aprendeu foi a de massoterapia, ainda que fique em dúvida entre a yoga e a meditação. "Nas terapias nós temos que doar e receber, precisa desse equilíbrio. Isso me ajudou a conhecer meu corpo", conta. "Na cadeia não temos esse esse tempo para a gente, então é importante, é um processo de autoconhecimento."

Romualdo Tristão, de 48 anos, conheceu o projeto quando ainda estava no presídio e hoje trabalha lá. A vivência terapêutica não só foi responsável por diminuir um pouco os seus dias em regime fechado, como também mudou sua vida. "No começo eu fui resistente, principalmente pela massagem. Outro homem passar a mão no meu corpo? Credo! Depois percebi o quanto eu era ignorante comigo mesmo. A gente vai ficando mais humano."

Ele jura que a experiência espiritual com a ayahuasca o fez enxergar o mal que existia dentro dele."Da primeira vez, achei que eu ia morrer. O trabalho me mostrou muita coisa que me deixou assustado, mas que foi importante para entender meus erros." Segundo Luiz, mesmo durante as terapias, os presos estão cumprindo suas penas. "Nosso trabalho é a desconstrução do mundo do crime, se o detento entende que o mal que ele fez com o outro, ele faz consigo mesmo, ele tem mais chances de ser curado", finaliza.

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