por Marcos Candido

Como uma praga transforma cortadores de cana-de-açúcar em "canguru" no sertão de Alagoas

Na infância, Francisco* morava de favor em uma usina de cana-de-açúcar em Teotônio Vilela, município com cerca de 40 mil habitantes em Alagoas. Aos quatorze anos de idade, já trabalhava no canavial. Adulto, cortava 15 toneladas de cana ao dia enquanto era perseguido pelo cansaço, fustigado pela fuligem e marcado por cicatrizes.

Como muitos de seus semelhantes, Francisco enfrentou "canguru". "É a mesma coisa de você estar morrendo. Você revira os olhos e não consegue falar", ele conta. Com nomes diferentes em cada região, o "canguru" é uma série generalizada de cãibras que podem levar à morte súbita. Nos canaviais paulistas, é conhecido como birôla. No Alagoas, onde as usinas "têm fome de terra", o hospedeiro se torna o que os trabalhadores chamam de "homem-canguru".

O fenômeno é fruto de um distúrbio hidroeletrolítico causado pela perda de sais e a desidratação. A soma das duas enfermidades libera uma dor que ferroa os membros e "cola os braços" junto ao corpo, criando uma imagem semelhante ao animal australiano. Pernas, coxas e até a língua doem. A camiseta de um trabalhador da cana chega a ficar branca devido ao sal expelido pela transpiração. Ajuda médica nem sempre chega. O jeito é esperar até que as cãibras cessem.

Mas mesmo indo embora, o "homem-canguru" carrega o "animal" consigo por toda a vida. Francisco, aposentado aos 48 anos de idade, tem dias em que mal consegue levantar uma colher. O cansaço o acompanha em casa, na família e percorre sua mente. "Eu não tenho mais [sonho] nenhum. Não tenho mais nada para realizar, é só esperar a hora de morrer", desabafa em depoimento ao sociólogo Lúcio Verçoza.

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Desde 2012, Lúcio acompanha cortadores manuais de cana em três cidades, incluindo Teotônio Vilela, onde alojamentos abrigam até 2 mil pernambucanos, paraibanos e alagoanos. "Eles sempre dizem que, há poucos dias, alguém foi ‘pego’ pelo canguru — é 'normal'", explica o autor da tese Os saltos do canguru nos canaviais alagoanos. Diferentemente de regiões canavieiras do sudeste, as plantações alagoanas ficam em terrenos montanhosos, o que intensifica a exaustão e favorecem o bote do "canguru". 

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Se o atingido possui problemas cardiovasculares, as cãibras podem engatilhar a morte, em meio à palha e a indiferença dos donos da terra. Os canaviais lideram como a profissão com o maior número de acidentes de trabalho em Alagoas: entre 2012 e 2014, o Ministério do Trabalho registrou mais de 6 mil acidentes no corte da cana no estado (e muitos casos não são notificados). Em nota, o sindicato que representa os donos de usinas de cana-de-açúcar em Alagoas, um dos maiores exportadores do produto na região nordeste, afirma desconhecer a existência do "canguru". O órgão também afirma que todos os trabalhadores com carteira de trabalho assinado — os chamados "da rua" — trabalham apenas 44 horas semanais.  

Apesar disso, a busca por maiores remunerações (que variam entre R$ 70 a R$ 120 por dia) de profissionais e "clandestinos" (sem registro em carteira), estimulam horas de trabalho ininterrupto. Como o solo é menos fértil e usinas com mecanização tardia, a produtividade aquém dos concorrentes do sudeste é compensada pela superexploração do trabalho. O "canguru" também é alimentado pela competitividade entre trabalhadores: há metas de quantidade para o corte que, se alcançadas, geram bonificações como bicicletas, fogões e aparelhos de rádio — independentemente do desgaste físico para botar as mãos nos presentes. Desde 2011, o Ministério do Trabalho vem autuado usinas com funcionários em condições análogas à escravidão.

Antônio* é um alagoano que despende longas 10 horas de trabalho consecutivas, corta sete toneladas de cana, caminha seis quilômetros e atinge picos de 200 batimentos cardíacos por minuto em um só dia. "Ele dizia que coração chegava a sair pela boca", conta o sociólogo. Durante o período de uma safra, o cortador pode perder até 8 kg. Segundo Lúcio, o "canguru" é um resultado de fatores sociais que escrevem a história de Alagoas.

Teotônio Vilela também é nome de um importante usineiro, membro da elite política alagoana. A cultura do trabalho exaustivo nos canaviais de Alagoas é uma instituição centenária capaz de transmutar trabalhadores em animais. Com o coração endurecido pelo machismo, o adoecimento do homem, maioria na labuta, é feito em silêncio. "Eles não querem assumir o próprio sofrimento, e se defendem normatizando a própria situação", explica Lúcio. O fim da idade produtiva chega cedo (até os 50 anos) e a aposentadoria não dilui as chagas criadas nos tempos do erguer de braços. "Essas pessoas vivem, infelizmente, a vida inteira sob a ponta do facão", lamenta Lúcio.

*Com colaboração de Lúcio Verçoza

Créditos

Foto principal: Jacqueline Souza

Nomes alterados para a publicação da reportagem

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