por Décio Galina

Zé Maria largou tudo para viver em uma ilha no meio do mar. Nas últimas três décadas, porém, ele aproximou o mundo de Fernando de Noronha e virou dono da pousada mais badalada do oceano

As pernas do pernambucano José Maria Coelho Sultanum, 61 anos, parecem troncos enraizados no barco. É no balanço do mar que ele encontra seu equilíbrio. Os olhos estão absortos nas ondas de um azul denso. Navegamos a cerca de 5 quilômetros da Ilha Rata, uma das 21 do arquipélago de Fernando de Noronha. Com os braços erguidos, ele abre e fecha as palmas enquanto faz uma oração. "Peço que Deus me dê um peixe, e ele sempre me dá...; e, olha, esse Deus que falo não é o católico nem o espírita, é uma força superior que pode ser qualquer coisa, inclusive a natureza."

Saímos para pescar às 11 horas, a pior hora do dia, quando os peixes já saciaram a fome pela manhã e agora ficam de bobeira até a barriga roncar no fim da tarde. Mas não demora para o Zé Maria descobrir o real motivo do marasmo das linhas ao observar o carpete da cabine e ver um dos meus chinelos virado, com a sola para cima. "Ah, Décio... Por isso que a gente não estava pegando nada!" Desviro logo o chinelo com um sorriso amarelo, já um pouco sem jeito por ter passado uns 5 minutos com metade do corpo pra fora do barco, vomitando a falta de experiência de uma pescaria em alto-mar ao lado do personagem mais famoso de Noronha, dono da pousada mais badalada, que leva seu nome. Pouco tempo após a gafe do chinelo, uma das quatro varas de fibra de carbono encaixadas na popa dá um estalo e enverga bruscamente. Fisgou.

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Com um berro, o dono do barco chama a atenção do comandante Walmir Ramos, 35, o Teco. Chega a hora de diminuir a velocidade dos dois motores Volvo de 260 cavalos da Dagarana, embarcação de 33 pés avaliada em R$ 650 mil. Zé Maria faz cara de criança quando chega ao parquinho. O peixão afunda uma isca artificial Rapala e faz zunir a carretilha Shimano com linha 90-100, própria para aguentar bichos de até 300 quilos. Zé coloca um cinto preto com um cilindro vazado de metal, lugar de encaixe da vara durante o braço de ferro contra o peixe. Ao sentir o peso e a disposição do adversário, o empresário uiva de felicidade: "É disso que eu gosto!".

Começo a filmar a cena crente que a coisa toda duraria cerca de 1 minuto. Que nada. O pescador faz uma força danada para enrolar cada pedaço de linha. Ele alterna o jogo de corpo que puxa a vara com o movimento de recolher a linha, que geme um som metálico. Com quase 6 minutos de um toma lá dá cá incessante, o marinheiro Anderson, 30, usa um gancho para trazer o bichão para o barco. Trata-se de uma cavala, com cerca de 1,60 metro de comprimento. "É isso que me dá adrenalina!", resume Zé Maria. "Pode matar?", pergunta o marinheiro enquanto se dirige a um porrete de madeira. Com o aval do patrão, ele dá duas cacetadas secas na cabeça do peixe. "A boca da cavala é tão forte que quebra osso", adverte o empresário. Em mais 1 hora, Zé traz outros três peixes menores para o barco (atum e xaréu-preto) e sugere que voltemos ao porto – talvez com dó do jornalista que passou mal mais umas três ou quatro vezes. "Por mim, ficaria até o fim do dia, mas, para você ter uma ideia, já deu, né?" Sim, Zé. Super deu. Topo voltar logo à terra firme e, de tão satisfeito com a experiência, decido passar o resto da tarde em minha praia predileta no país: Baía do Sancho.

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O velho e o mar

A paixão do pernambucano Zé Maria (nascido em Recife, na Ilha do Reitor, ao lado do estádio do Sport) por Noronha está intimamente ligada ao prazer da pesca. E o prazer da pesca remonta aos seus 12 anos de idade, quando recebeu de uma professora a tarefa de ler O velho e o mar, de Ernest Hemingway (1899-1961). O livro é de 1952 – em 1954, Hemingway ganhou o Nobel de Literatura. "Fiquei apaixonado pela história. Aquilo mexeu com a minha vida. Comecei a pegar caranguejo no mangue e mais velho fui percebendo a dimensão da história contada ali." O clássico do escritor norte-­americano narra a batalha de um pescador idoso que passa 84 dias sem apanhar um só peixe e finalmente pega um gigante. "A briga entre os dois mostra que o ser humano é apenas uma gota d’água no universo. E é incrível que, ao mesmo tempo que o velho respeita aquele peixe fora do comum, ele põe a vida em risco e não desiste da luta nem por um segundo. Eu também sou assim." De acordo com o empresário, outras características o aproximam do estilo do autor. "Hemingway teve negócios em Cuba [onde viveu de 1939 a 1960]: hotéis, restaurantes, gostava de viver os bares... Eu não costumo viajar para fora do Brasil [Zé esteve na Costa Rica, no Panamá e nos Estados Unidos – sempre para pescar ou para comprar artigos para pesca], mas fui para lá ano passado com meu amigo Williams para conhecer os lugares frequentados pelo escritor." Eles ficaram seis dias em Havana. "Visitamos o bar Floridita, onde há uma escultura de bronze do Hemingway no balcão, a casa dele e o hotel e a marina que levam seu nome. Foi fantástico", lembra o empresário Williams Interaminense Rolim, 55, amigo de Zé Maria há 37 anos.

De uma tradicional família atacadista no Nordeste, Zé Maria dirigia em Recife a Socimasa, empresa que distribuía de televisão a caderno para as principais redes de supermercado da região. Um episódio, no entanto, o fez repensar tudo e se lançar ao mar. "Um diretor nosso tomou um tiro nas costas durante o assalto a um restaurante e ficou tetraplégico. Aquilo acabou comigo. Achei que a vida era uma merda. Foi quando alguém me falou de Noronha. Decidi fazer uma viagem de dois dias. Acabei ficando 25 e resolvi que queria mudar o quanto antes. Dois anos depois, já estava morando aqui. Tinha tudo o que eu queria: pesca, peixe, sereia... Isso foi em 1989, a ilha estava começando a abrir para o turismo." Logo que chegou, Zé tratou de ir ao porto (até hoje seu lugar preferido) para ver o movimento e conseguir uma forma de sair para pescar. Cruzou com um pescador carregando uma cavala de 30 quilos e ofereceu comprar o peixe. Zé Maria fumava, coisa que não faz mais há 21 anos ("desde então, engordei 38 quilos; estou de dieta, agora só como proteína") e ouviu como resposta: "Me dá um cigarro que está tudo certo!". "Dei, então, dois cigarros para ele, que nem quis saber de dinheiro. Percebi como era precário o abastecimento da ilha", lembra.

Como os políticos da época sabiam da experiência do empresário no ramo de supermercados, o convidaram para uma licitação – que não teve outros concorrentes. Nascia o Noronhão, na Vila do Trinta, mercado que segue funcionando. "Consegui um terreno e construí um alojamento para a diretoria. Como sempre gostei de cozinhar e receber amigos em casa, não ia ser diferente em Noronha. Quer dizer, a diferença é que aqui precisava ter pousada para receber gente." Pronto: chegou a vez de a Pousada Zé Maria entrar na história da ilha. Há 26 anos sendo a principal referência hoteleira de Noronha, a pousada conta hoje com seis apartamentos e 15 bangalôs, três deles especiais, com jacuzzi na varanda e vista para o Morro do Pico e para o mar. A hospitalidade de Zé Maria fez fama rápido entre celebridades. "Aqui os famosos viram gente comum. Podem transitar de forma natural – para o pessoal da ilha não faz diferença", comenta o empresário. (Mais ou menos: durante a estadia da Trip, um grupo de estudantes apareceu logo cedo para ver Wesley Safadão a caminho do café da manhã). Zé Maria conta que entre os famosos mais frequentes nas últimas temporadas estão Bruno Gagliasso, Giovanna Ewbank, Paulinho Vilhena, Marina Ruy Barbosa, Fabiula Nascimento, Marcelo Serrado, Marcello Novaes, Paula Fernandes, Luan Santana, Isis Valverde, Carol Castro... Boa parte dessa turma já participou do Réveillon do Zé Maria, uma festa tão concorrida que não há venda de pacotes. O Zé escolhe quem deve ir. Na última, foram 1.600 convidados. Imagens da virada mais recente ficam passando em televisões espalhadas pelo restaurante da pousada.

Prato cheio

Ainda mais famoso que o Réveillon é o Festival Gastronômico que Zé Maria promove às quartas e aos sábados, às 20h30. Trata-se de um banquete, realizado há quase 19 anos, que sempre começa com o empresário de microfone em punho apresentando cada um dos 40 pratos – receitas como a Paella Noronhesa, com frutos do mar, queijo coalho e manteiga de garrafa – e, em um segundo momento, as 20 sobremesas. Ele chama cozinheiros para participar, faz brincadeiras com seu staff e arranca risadas dos clientes. Reservar é imprescindível. "Atendo pelo menos 140 pessoas por noite. No verão, chega a ter fila de 200 nomes. Já tenho reservas para daqui a seis meses. Não consigo atender todo mundo, infelizmente."

No início do festival em que a Trip esteve, no final de fevereiro, o papo entre Zé e seus amigos versava sobre ocorrências ligadas ao mar. "Vocês viram como o Alquimista afundou? Enfrentou duas ondas fortes, soltou uma tábua e começou a entrar água." "E o cara que pegou aquele marlim enorme, vai ter mesmo que pagar a multa? Mas como ele podia adivinhar que era uma espécie em extinção? Essas listas não são divulgadas para quem vive da pesca." A cena me remete ao Esplanada, lugar onde, em O velho e o mar, os pescadores se reúnem para jogar conversa fora. Zé Maria é o centro das atenções e segue mexendo com quem está próximo, como seu sócio Paulo Fatuch, engenheiro civil de Curitiba. Foi ao lado dele que Zé ampliou a pousada, há 16 anos. "Para de me beliscar, Zé!", Paulo implora, enquanto tira o braço de perto do amigo. "Minha mulher já não acredita que essas manchas que tenho no braço são beliscões do Zé Maria." Ao final do jantar, vários clientes aparecem para cumprimentar Zé Maria e pedir uma foto com ele – daí a origem do apelido "Mickey de Noronha".

Saber viver

Além da pousada e do restaurante, Zé toca outros seis negócios em Fernando de Noronha: supermercado, hidroponia de orgânicos, agência de turismo e barcos de pesca, turismo e carga. "Tenho 480 e poucos empregados na ilha, em Recife e em Natal. Nasci para servir, gerar emprego, movimento." Os números não estão atrelados à ideia de realização. Pelo contrário. "Já decidi que este ano é o último que vou trabalhar tanto. Antes eu vivia mais, agora apenas vivencio. Estou irritado comigo porque usufruo pouco do que produzo. Minha cabeça vive em erupção vulcânica, mas tenho que diminuir isso. A idade traz outra perspectiva. Quantos anos tenho mais para curtir? 10, 15, 20? Tenho que aproveitar."

A ideia de aproveitar a vida é bem clara para Zé Maria, a começar pela juventude que teve. "Até meus 20 anos eu não bati um prego em barra de sabonete. Não fazia porra nenhuma. Era uma espécie de hippie de luxo. Tinha um paletó no carro para ir às festas. Gostava de viajar com meu Fusca branco tala larga, acampava na beira das praias, tinha 14 namoradas fixas. Com meus 23 anos, tive o primeiro Diplomata automático de Pernambuco."

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Dez anos mais tarde, trabalhando a todo vapor na rede atacadista da família, Zé Maria recebeu uma liga­ção de trabalho de Ana Cláudia, uma de suas fornecedoras. Ela precisava fazer uma cobrança. "Queria resolver por telefone, mas ele respondeu: ‘Vem aqui me cobrar’. Eu fui e achei ele um gato, nada a ver com a imagem que os homens atacadistas tinham na época, de usar camisa de seda e corrente de ouro. O que cativa no Zé é que ele sempre é um homem gentil, com qualquer pessoa, muito atencioso. Abre a porta do carro para mim, puxa a cadeira para eu sentar no restaurante, acendia o meu cigarro... Até hoje pega flor no jardim e me dá de presente", conta Ana Cláudia Smith Costa Sultanum, por telefone, de Recife, enquanto arruma as malas para viajar com a família para Orlando e Miami. "O Zé não gosta de viajar, ainda mais para fora. Ele adora o Brasil."

O casal tem duas filhas, Maria Irene, 21, e Ana Luiza, 17, ambas estudantes universitárias, de engenharia e administração. Zé Maria tem outros sete filhos. "No início, em Noronha, foi muito difícil para as meninas", lembra Ana Cláudia. "Resolvemos que elas estudariam em Recife, mas não fazia sentido o Zé ficar longe da pousada. Ele é a alma daquilo tudo." Ela conta que dentro de casa Zé Maria "fala pouco, mas ensina muito". Na cozinha, Ana Cláudia deixa o marido pilotar o fogão. "Ele faz feijão muito bem – tão bem que me conquistou pela feijoada. Minha mãe também adora."

Ana Cláudia aponta como uma das principais qualidades de Zé Maria a intensidade com que ele faz o que realmente gosta, seja pescar ou cuidar dos seus negócios. Cita como exemplo o fato de ainda hoje Zé comandar pessoalmente o "descarrego", o desembarque das mercadorias que chegam, duas vezes por semana, em seu barco de carga, o Alro, que tem 24 metros de comprimento, 7,5 de largura e carrega 115 toneladas. Coordena quem chega para pegar as encomendas, ajusta a logística das entregas, fala com meio mundo ao mesmo tempo. "Ele fica no porto esperando o barco chegar e fica até o barco sair. Faz aquilo com um ânimo e uma alegria como se fosse a primeira vez." Ana Cláudia tem uma foto de Zé no porto, esperando o barco atracar. Quando as filhas sentiam saudades, ela mostrava a foto, comentando que Zé estava ali por toda a família. Ela ficou de me mandar, mas imagino a correria de fechar as malas e colocar o Zé Maria dentro de um avião. Tudo bem não ter enviado. Fica mais fácil de imaginar a cena como uma passagem de Hemingway.

Palavras de quem conhece
“Meu filho Thor, hoje com 19 anos, está bem fortalecido, mas, com síndrome de Down, sofreu muito na infância com ciclos de pneumonia. A médica disse que ele precisava nadar em piscina – só existia a do Zé na ilha. Quando ele soube, me procurou na hora para dizer que a piscina estaria à disposição do Thor no horário que ele preferisse! E assim foi durante meses: uma hora diária de natação com um professor de educação física. É com gentilezas desse tipo que o Zé Maria trata todo mundo aqui.”
Glória Moreira Lima, 52 anos, jornalista paulistana há 20 anos em Noronha

“Conheço o Zé há 37 anos. Ele tinha a Socimasa; eu, uma rede de supermercados. Ele era meu fornecedor. Zé sempre foi humilde, carismático, sincero. Ele é o melhor homem de marketing – algo espontâneo, que está no sangue – que conheço. Ano passado estive em Noronha com o Zé 11 vezes.”
Williams Interaminense Rolim, 55 anos, empresário paraibano que trabalha com imobiliária em Recife (PE) e agropecuária em Tucumã (PA)

“Zé Maria é uma figura fundamental no desenvolvimento da ilha. Sobre o seu Festival Gastronômico, sugiro que a pessoa vá 40 vezes para saborear um prato por dia!”
Luís Eduardo Antunes, 49 anos, administrador de Fernando de Noronha, indicado por Paulo Câmara (PSB), governador de Pernambuco

“Lembro que o Zé Maria jogava bem futebol. A gente tinha um time, o Zebra Azul. Jogava todo sábado na Base da Aeronáutica. A vida inteira o Zé foi muito simples. Nunca deixou de ajudar alguém na ilha.”
José Benedito da Silva Junior, o Cenoura, 44 anos, pescador pernambucano há 27 anos na ilha – foi para surfar e ficou

Créditos

Foto principal: Fabio Borges

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