por Madson de Moraes

Jogos de tabuleiro modernos ganham cada vez mais fãs, além de bares especializados e encontros exclusivos. O hobby que virou negócio mandou um ”chupa, Candy Crush” e entrou no século 21 dominando tudo

Banco Imobiliário, War, Detetive, Jogo da Vida: quem nunca sentou diante desses tabuleiros que atire a primeira peça. Alguns ainda são queridinhos de uma turma das antigas e tiveram seus tabuleiros e peças modernizados para atrais os nativos digitais, mas a verdade é que os jogos do século passado são água com açúcar se comparados aos modelos modernos, hoje elevados ao status internacional de board games. Com regras sofisticadas e jogabilidade avançada, esses jogos têm ganhado cada vez mais adeptos no Brasil.

O professor José Augusto conta que as filhas e as enteadas até largam os gadgtes quando a família se reúne em volta de um tabuleiro. “Acredite, por um jogo elas até pausam o videogame”, conta o paulista de 44 anos e dono da loja Toca do Dragão, na capital paulista, onde comercializa jogos, ou melhor, board games.

Os jogos se dividem basicamente em dois tipos: os do estilo americano, muitos baseados em filmes e séries de TV de sucesso como Battlestar Galactica ou Games of Thrones, que apostam no elemento sorte com o uso de dados e capricham nos detalhes  (de miniaturas de resina ou de metal). Já nos jogos de estilo europeu, como Caylus, Puerto Rico e Carcassonne, as ações entre os jogadores são baseadas em estratégias e raciocínio e não dependem de sorte. É aí que fisgam muita gente.

As temáticas são variadas e para todos os gostos. Em Carcassonne, por exemplo, é preciso lidar com disputas territoriais em torno de uma cidade. Já em Zombicide os jogadores devem lutar contra zumbis, em Puerto Rico, bancam um colonizador em disputa por propriedades. Encontrar a cura de uma doença é sua tarefa em Pandemic Legacy. O preço dos jogos mais populares do mercado fica entre R$100 e R$200. Mas há versões comemorativas (lindas) que saem bem mais que isso.

As cifras mostram que estamos falando de um mercado que ultrapassou o gueto dos nerds. Uma das editoras do gênero, a Galápagos, faturou em 2015 cerca de R$15 milhões. O Dixit, um dos jogos mais conhecidos da marca, já tem quatro "extensões" com novas cartas. “O mercado de jogos de tabuleiro hoje cresce vertiginosamente e já são mais de 80 mil títulos lançados no mercado mundial”, explica o “board gamer” Jack Explicador, apelido que o colecionador Marcelo Pegado ganhou dos amigos ainda na adolescência: era ele quem traduzia e explicava aos amigos as regras dos poucos jogos que chegavam ao Brasil nos anos 1980. Hoje ele possui mais de 750 jogos e há três anos abriu um canal no Youtube (Jack Explicador) para explicar regras, faz resenha de jogos e dá dica de jogabilidade.

Aliás a internet, que já foi vista como inimiga dos tabuleiros, é hoje grande aliada, oferece aos fãs acesso às lojas especializadas, comunidades que difundem novidades e, claro, versões online, onde é possível jogar com gente do mundo inteiro. O Ticket to ride, o Puerto Rico e o Splendor, são alguns dos que mobilizam jogadores pelo globo com regras específicas como tempo determinado para cada jogada. Sim, porque uma boa rodada de muitos desses jogos dura cerca de duas horas.

Neste contexto de ascensão, não falta gente transformando o hobby em negócio. Foi a partir do contato com jogos na infância que o administrador de empresas Julio Matos transformou o que era brincadeira em dinheiro. Ele é sócio do Lends Club, em Porto Alegre, que mantém acervo de 200 jogos à disposição para aluguel e venda. “Nossa intenção sempre foi tornar o hobby mais acessível e construir um lugar onde fosse possível encontrar pessoas para jogar ou alguém que entendesse de jogos de tabuleiro para um bate papo”, diz.

Foi a temática de zumbis que levou Bernard Sarpa, de Niterói, no Rio de Janeiro, novamente para o universo dos tabuleiros. “Quando criança eu gostava de jogar Detetive e Jogo da Vida com meus primos, mas fui crescendo e perdendo o interesse. Quando foi lançado o primeiro Zombicide, resolvi adquirir o jogo, pois zumbi era um tema que me atraia bastante. Não parei nele”, conta. Resolveu, então, abrir com dois amigos o Boards & Burguers, uma hamburgueria que disponibiliza mais de 300 board games ao público.

O amor aos jogos foi uma das razões que fez Lucy Raposo abrir a Ludus Luderia, na capital paulista. São mais de 900 jogos no acervo. Lucy conta que conheceu os board games por meio de amigos mas curte uma jogatina desde a infância quando jogava xadrex com o avô. “A ideia de abrir um bar lúdico veio das ótimas madrugadas jogando com os amigos”, diz.

Essa interação entre as pessoas, opina Rodrigo Eiji Akamine, de Campo Grande, é a chave do sucesso dos board games. “Eles têm coisas que nos jogos virtuais não é possível encontrar. Você interage diretamente com as pessoas que está jogando, vê a reação delas durante o jogo, o que torna tudo mais divertido”, diz o dono do Mystical Space, que reúne fãs dos tabuleiros na cidade. Em alguns jogos esse olho no olho faz inclusive parte da brincadeira. No francês The Resistence os jogadores dependem uns dos outros para executar missões, e enganar o império se fazendo passar pelo lado negro da força faz parte da brincadeira.

A gama de gente procurando por espaços dedicados a jogos de tabuleiro só aumenta. “Temos crianças de 6 anos e adultos de 40 que vem aqui para jogar, embora a maioria tenha de 17 a 25 anos”, relata Fernanda Koffke, que abriu o Ponto Geek com o namorado em Blumenau para reunir fãs. “Os jogos modernos são desafiadores, não apenas intelectualmente, mas em termos sociais”, garante Jack.

Ficou muito afim de conhecer uma turma apaixonada por board games? O “Board Games em São Paulo” costuma fazer eventos mensais e gratuitos onde centenas de fãs do gênero se reúnem para jogar. Rolam ainda alguns sorteios de jogos como explica o criador da comunidade, Fernando Celso Jr. “No último evento realizado batemos o recorde de público com quase 300 pessoas”. Esqueça os Pokemons and Go!

Pra quem vai começar a jogar agora

Ticket to Ride

Cada jogador deverá construir suas rotas de estradas de ferro na América do início do século. Por meio de um sistema simples de coleção de cartas em cores diferentes, os jogadores vão conquistando as rotas no tabuleiro e interagindo nos caminhos dos adversários criando, assim uma disputa pelas linhas mais lucrativas em termos de pontuação. Ótimo para quem quer chamar toda a família por ser de fácil compreensão.

Agrícola

Um jogo “pesado” em termos estratégicos conhecido como “frita cérebro”. Bem popular entre os fãs dos board games, aqui os jogadores vivenciam a rotina de uma família de fazendeiros na Europa da idade média e devem cultivar, criar animais, arar o campo e suprir as necessidades de sua família como melhoras sua habitação e alimentar seus filhos. Um jogo bastante realista e imersivo. Um jogo desafiador tanto para partidas solo quanto para até 5 jogadores. 

Coup

Mas nem só de jogos pesados vive o hobby. Neste jogo para até 10 jogadores, o blefe e a dissimulação são a chave para a vitória. Cada jogador deve manter sua identidade em segredo e cada personagem tem um poder distinto. Em seu turno você poderá alegar ser um personagem para utilizar sua ação de roubar moedas de um adversário, por exemplo, mas somente precisará revelar sua verdadeira identidade se for confrontado por um adversário. Aqui a oratória e capacidade de blefar serão testadas ao extremo.

Small World

A cada turno os jogadores vão conquistando mais territórios como pântanos, colinas, florestas e montanhas. Cada jogador escolhe uma raça distinta e uma habilidade única que combinados serão sua força de conquista e só conseguirão marcar pontos conquistando novos territórios e principalmente atacando as tropas dos adversários e impedindo que eles marquem mais pontos. Um jogo rápido e equilibrado para 2 a 5 jogadores com tabuleiros variados e número de round distintos para se adequar perfeitamente ao número de jogadores.

SuperNova

Um jogo bastante estratégico para dois ou quatro jogadores. Aqui cada um controla uma espécie e compete pelo domínio do Sistema Solar. Humanos e Marcianos estão em guerra e cada movimentação poderá alterar o equilíbrio e uma dominação total será eminente. E, para piorar a situação, nosso sol está se tornando uma Super Nova que irá destruir todo o sistema. Uma corrida pela sobrevivência de nossa espécie. Um jogo dinâmico e com um belo design.

* Dicas cedidas pelo board gamer Jack Explicador.

Créditos

Imagem principal: Lends Club / Divulgação

matérias relacionadas