por Paulo Lima
Trip #261

E se a Trip saísse perguntando para algumas pessoas qual é o projeto de Brasil delas?

Mês passado, num evento de que participei, fui surpreendido pela conversa despretensiosa e profundamente interessante de um psicólogo de quem ainda não tinha ouvido falar. Sem nenhuma pose e com aquela expressão serena de quem não precisa provar mais nada, ele compartilhou sua visão arguta e original sobre o que estaria acontecendo no Brasil.

Fundamentalmente sua ideia era a seguinte: o ser humano definitivamente não se move pela tomada de consciência. As grandes evoluções e saltos históricos da humanidade, segundo sua tese, se dão sempre pelo tranco. Em outras palavras, na visão dele, só um trauma importante e profundo é capaz de fazer o pensamento coletivo mudar de direção.

Na verdade, seu raciocínio ao longo da conversa deixou nossas fronteiras e se estendeu para todo o planeta. Valeria tanto para o desastre visto em Mariana aqui no Brasil quanto para explicar a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Até onde um pensamento cheio de ramificações pode ser resumido em uma única e fria frase sem ser escalpelado, só evoluímos na dor.

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Se você prefere beber no conhecimento construído há mais tempo do outro lado da esfera, vejamos o que diz o verbete dedicado a apresentar a divindade Shiva, membro da primeira fila do vasto panteão de deuses ancestrais do hinduísmo: trata-se do deus absoluto, que representa a energia da destruição da ignorância. É ele que possibilita a transformação do universo.

Naquele mesmo evento falou logo depois um estudioso da biomimética, ciência à qual já dedicamos uma edição da Trip e que procura na natureza as soluções para os problemas que os humanos enfrentam. De novo a mesma visão colocada de forma e com palavras diferentes. Segundo o palestrante, nunca se viu uma convenção de animais tratando das medidas que deverão ser tomadas diante do aquecimento global, do aumento das marés ou do degelo das calotas polares. Só quando o mar de fato sobe furioso avançando por onde nunca havia penetrado e afoga espécies inteiras é que alguns indivíduos dotados de certas características conseguem se virar e sair andando ou trepando nas árvores em busca do que convencionamos chamar de evolução das espécies.

Quando chegou a minha vez de falar, fiz uma brincadeira que talvez carregue uma grande verdade: se tudo o que os colegas que me antecederam disseram estiver respaldado pela ciência, ou, mais ainda, pela verdade universal, o que fazemos na Trip há 30 anos definitivamente não serve para nada. É que insistimos em acreditar na reflexão como um caminho viável para a transformação. Esta edição é mais uma demonstração dessa crença (cega?).

E ela nasceu num almoço que não pretendia servir pra nada muito além de um reencontro com um amigo de muito tempo, que você que nos acompanha mais de perto conhece bem, seja das Páginas Negras, do Trip Transformadores ou dos outros eventos que fazemos, o Lama Michel Rinpoche. Enquanto comíamos num restaurante perto da Trip, ele disse: "Venho ao Brasil pelo menos uma vez por ano há duas décadas e não me lembro de ter visto tanta frustração e angústia nos rostos e nas palavras de todo mundo por aqui. Mas o que tem me intrigado é que vejo as pessoas bastante revoltadas, reclamando muito, discutindo os problemas, mas com pouquíssimo foco nas soluções. Claro que sei que não é fácil quando se está sob tanta pressão. Evidentemente este é um dos momentos mais críticos pelos quais o país já passou. Mas uma coisa que aprendi é que, se a gente não olha e foca no positivo, dificilmente ele acontece". Seguindo esse preâmbulo veio o disparo certeiro: "E se a Trip saísse perguntando para algumas pessoas qual é o projeto de Brasil delas? Simplesmente checando o seguinte: quando sonham com um país melhor, qual é a foto que aparece? Por utópico que possa ser esse raciocínio, como será que ele é de fato e aonde poderia nos levar?".

Por mais que possa parecer (e ser) uma teimosia exacerbada, insistimos na velha ideia de que a reflexão continuada, limpa e desarmada pode, sim, operar pequenos milagres. Quem sabe 1 milhão deles, construídos em rede, não consigam nos livrar da necessidade da faxina galáctica, de um grande e planetário tranco sobre o qual, aliás, falamos aqui há tempos e que às vezes parece já estar em pleno curso?

Por aqui, seguimos pensando sobre tudo isso...

E convidamos você a vir junto pra mais uma rodada em 2017.

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